Dani Alves revela conselho a Paulinho e se abre sobre campanha antirracismo

Do UOL, em São Paulo

  • Pedro Martins/MoWa Press

Isso não significa que seu caminho esteja perto do fim, mas Daniel Alves já viveu muita coisa no futebol. Em longa entrevista publicada nesta segunda-feira (5), o craque abordou diversas histórias que viveu ao longo da carreira – e também antes de sua trajetória no futebol, como o período em que trabalhou pesado em uma fazenda no interior da Bahia.

Em abril de 2014, quando comeu uma banana arremessada a ele durante um jogo contra o Villarreal, o jogador não imaginava que se tornaria o símbolo de uma campanha contra o racismo no esporte. Quase quatro anos depois, ele acredita que o pensamento preconceituoso de parte da sociedade não será mudado tão cedo.

"Para ser honesto, eu não fiz aquilo para mandar qualquer mensagem. Eu não achava que tinha o poder de apagar ou sequer reduzir o racismo no futebol, já que pessoas racistas não mudam seus pensamentos assim. Hoje em dia, eu penso que as pessoas se posicionam contra essas coisas porque querem parecer legais, e não por razões genuínas", disse o brasileiro em entrevista à revista FourFourTwo, da Inglaterra.

Reprodução/Vine

"É claro que, se eu tivesse o poder de mudar o mundo inteiro, eu o faria. Mas como eu não posso mudar o mundo inteiro, eu tento fazer a minha parte. Eu tento ajudar as pessoas a perceberem que estão fazendo algo que não é legal. É antiquado. Muitos dos grandes atletas do mundo são negros. As coisas estão melhorando, mas algumas pessoas ainda são ignorantes. Eles deveriam saber que somos todos iguais, mas as pessoas podem ser cruéis", completou o jogador.

Experiente e especialista em Barcelona, Daniel Alves é um dos poucos atletas com real propriedade para falar sobre o clube. Foi por isso que aconselhou Paulinho no momento em que o colega brasileiro viveu sua controversa e criticada chegada ao time catalão.

"Os jogadores do Barça estão acostumados a viver sob pressão o tempo todo. Eu me lembro de enviar uma mensagem ao Paulinho dizendo "a pressão é adrenalina". Quando não sentirem essa adrenalina, essa pressão, eles poderão relaxar. Esse sentimento é inevitável quando já se ganhou todas as competições", observou.

Se hoje Dani Alves é referência do PSG e da própria seleção brasileira, muito se deve ao esforço feito por seu pai, que queria que o filho fosse atacante. "Eu costumava ser atacante. Quando meu pai começou a me ajudar, o desejo dele era de me ver fazendo gols no ataque. Eu era o número 9, às vezes o 10 ou 11. Mas, quando fui para uma escolinha, todo mundo queria ser atacante. Você não pode ter um time formado só por atacantes", explicou.

A ajuda dada pelo pai foi uma via de mão-dupla: durante boa parte de sua infância, o lateral teve de trabalhar em uma fazenda em Juazeiro, no interior da Bahia. "Eu fazia muitos trabalhos na fazenda e isso é como andar de bicicleta, você nunca esquece", disse o jogador do Paris Saint-Germain.

"Eu ajudava com o que fosse preciso: ordenhar as vacas, colher as plantações. Esse é um trabalho que eu não recomendo que uma criança faça, mas quando a sua família vive uma situação difícil e você vê o seu pai trabalhando duro por todo mundo, você precisa ajudá-lo. Não importa como", relatou.

Mágoa de Felipão por ausência nas Eliminatórias 2014

Reprodução/Instagram

É difícil ficar no banco de reservas porque isso te deixa impotente, e eu não sou uma pessoa impotente. Eu não gostei porque sabia que não poderia ajudar o time do banco. Mas eu não guardo sentimentos negativos em relação a isso. Acredito que Deus faz as coisas acontecerem por um motivo.

Cada jogo que já disputei pela seleção, seja final ou amistoso, foi especial. Quando você veste aquela camisa, o sentimento é único. A empolgação é enorme. "Por..., aqui estou eu jogando pelo time do meu país!", eu penso. Todo mundo está olhando para mim e meu pai está lá. Esse sentimento não tem preço. Nem todo o dinheiro do mundo compraria essa sensação.

Ídolos no futebol: o pai, Cafu e Guardiola

Quando eu estava crescendo, o meu ídolo no futebol era o meu pai. Ele amava muito o futebol. Quando eu comecei a entender essa paixão, comecei a admirar grandes jogadores do mundo do futebol. E, é claro, o Cafu foi uma inspiração por sua história incrível e suas conquistas com o Brasil.

Eu acho que foi o Pep que me contratou, embora eu não saiba dizer se ele realmente pediu pela minha contratação. Mas cerca de seis meses antes da abertura da janela de transferências, eu soube do interesse do Barcelona e disse que gostaria de jogar lá pela grande história dos brasileiros no clube, além da grandeza do clube e do estilo de futebol. Então foi uma união de muito sucesso. Eu sempre serei grato ao Pep, Txiki e ao Joan Laporta, que me deram a oportunidade de ser uma estrela no esporte.

O histórico Barcelona de 2011

Já conversei com vários estudiosos do futebol, e eles nunca viram um time tão incrível quanto o Barcelona de 2011. São pessoas que acompanham o esporte há muito tempo e dizem que nunca viram algo igual. Nós representamos a definição do jogo coletivo. Nós comemos, bebemos e respiramos futebol. Ganhar a Liga dos Campeões em 2011 foi uma recompensa por todo o nosso esforço conjunto.

REUTERS/Yuriko Nakao

Quase foi parar na Premier League três vezes

Cara, eu tinha um acordo com o Liverpool. Mas, por algum motivo, o acerto não aconteceu no último momento e eu realmente não sei porquê. Eu não conduzia as negociações, tinha outros representantes. Eu não sei quais foram os motivos, mas algo parecido aconteceu depois na minha carreira com o Chelsea e o Real Madrid. É claro que tudo correu bem para o Barcelona no fim, e eu tive a chance de escrever uma história incrível no Camp Nou.

Eu ouvi o presidente do Sevilla dizer coisas absurdas, como se eu não me importasse com a situação do clube. Eu também estava sofrendo naquele momento, certamente muito mais que eles. Antonio Puerta [jogador falecido em 2007] foi um colega de time e um amigo, um cara que costumava trazer muita alegria ao nosso vestiário. Então foi uma época difícil para mim, mas eu já queria sair antes da tragédia.

Quando as minhas conversas com o Chelsea não correram como esperava, eu decidi não forçar mais nada naquele momento em respeito a Puerta. Mas esta foi a minha decisão, não a dos outros. Eu já tinha decidido que o meu tempo no Sevilla estava chegando ao fim, e procurava desafios novos. Eu queria ganhar coisas, mas, infelizmente, eu não poderia vencer se ficasse no Sevilla. Nós chegamos perto, mas eu não gosto de só chegar perto.

O Guardiola representa um ponto de virada na minha carreira. Foi a razão principal para eu ter considerado ir para o Manchester City. Mas comecei a pensar que não poderia ser egoísta e tomar esta decisão sem considerar a opinião dos meus entes queridos. Não queria repetir o que fiz quando fui para a Juventus. No fim, houve uma grande oportunidade de me juntar a grandes amigos no PSG, em uma cidade incrível e em um clube com enorme potencial.

Ainda tenho a ambição [de jogar na Inglaterra], mas eu não sei se isso vai acontecer. Tem muita coisa que quero fazer no PSG antes. Quero continuar vencendo aos 40 anos, não só jogando.

Saída de Guardiola para o Bayern de Munique

ANDREAS GEBERT / EFE

O Pep absolutamente vive o futebol, é muito inteligente e conhece seus limites. Mas, na minha opinião, tanto o Guardiola quanto o Luis Enrique não deveriam ter anunciado suas saídas tão cedo. Tudo o que isso fez foi criar uma incerteza no elenco... Como se o técnico estivesse lá, mas ao mesmo tempo não estivesse, sabe? Tira um pouco da credibilidade dele.

Seu rival favorito

Nós gostávamos de enfrentar o Arsenal. Eles tinham um estilo de jogo parecido com o nosso, e isso nos ajudava às vezes. Nós os enfrentamos várias vezes [em 2009/2010, 2010/2011 e 2015/2016] com resultados positivos. O Arsenal era um time que dominávamos e tínhamos controle.

A Liga dos Campeões de 2009

Bom, em uma situação como essa, não há tempo para pensar no que acontece depois, você só foca no jogo. Nós todos sabíamos que [a semifinal contra o Chelsea] seria difícil, mas nunca perdemos a fé na nossa habilidade de virar o jogo. Não só pelos jogadores que tínhamos na época, mas também pela forma como aquela campanha ocorreu. Então eu não acho que tivemos sorte, não. Acredito que merecemos ir para aquela final.

Foi a prova de que qualquer coisa pode acontecer no futebol se você fizer a sua parte. Todos nós fizemos a nossa parte e a recompensa foi a ida para a final em Roma. Jogar uma final de Liga dos Campeões já seria o ponto mais alto da minha carreira naquele momento, mas eu sabia que o futebol tinha algo melhor reservado para mim.

Ofereceu parte de seu fígado a Eric Abidal

Essa é uma história que eu nunca contei direito... E acho que não vou contar aqui também. Ele é o dono desta história, então cabe a ele contá-la do jeito que aconteceu. Eu só posso dizer que o Eric é como um irmão para mim. Portanto, eu jamais poderia ver sua vida chegar ao fim tão cedo sem tentar ajudar. Eu não fiz isso só para que as pessoas pensassem que eu sou uma boa pessoa. Eu fiz isso porque o amo muito, assim como sua família.

Getty Images

Exótico estilo de se vestir

A minha inspiração vem de um desejo de não me vestir igual a todos os outros. Quando eu comecei a me interessar por moda, foi porque eu queria usar coisas diferentes. Eu não queria parecer igual aos outros.

Parceria e rivalidade com Sergio Ramos no Sevilla

O Sergio já tinha grandes qualidades naquela época. Ele queria jogar como lateral, mas todos podíamos ver o potencial que ele tinha para ser um bom zagueiro, uma posição onde poderia ter mais sucesso. Felizmente para o Sergio, para a Espanha e para o Real Madrid, ele se tornou um fantástico zagueiro que tem a admiração do mundo todo.

Eu acho que ele não teria alcançado o mesmo status como lateral direito. Obviamente, ele também pode jogar lá muito bem, e já o fez muitas vezes pela Espanha. Mas ele logo percebeu que poderia se tornar um dos melhores do planeta em outra posição. Foi difícil tê-lo como adversário, mas isso acontece quando se joga no Real Madrid ou no Barcelona. É como uma cláusula no contrato quando você assina por um desse times. Mas a rivalidade não ultrapassava o campo.

O melhor sistema defensivo que já viu

A melhor defesa da qual eu já fiz parte foi, sem dúvida alguma, a do Barça do Pep. Aquele foi o time em que me senti mais confortável. O Guardiola nos convenceu que a melhor defesa possível era ter a posse da bola. Se nós temos a bola, ninguém pode nos atacar com ela. Quando nós a perdíamos, estávamos longe o bastante do nosso gol para recompor o sistema.

Mas a Juventus também tinha uma grande defesa, e não só graças aos grandes defensores que jogavam ali. Mas porque eles defendem como um grupo. A Juventus tem uma defesa incrível porque cada jogador trabalha duro pelo time.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

UOL Cursos Online

Todos os cursos