Amigo de Jô, pastor superou vício em drogas e conquistou elenco corintiano

Luiza Oliveira

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Twitter

    Pastor Vagner Lopes faz reuniões semanais com jogadores do Corinthians

    Pastor Vagner Lopes faz reuniões semanais com jogadores do Corinthians

O pastor Vagner Lopes vai ao CT Joaquim Grava toda semana. Ele se reúne com os jogadores do Corinthians para falar de Deus e exercitar a fé na véspera de cada jogo. O missionário conquistou os atletas ao passar a palavra de um jeito simples e informal e com uma história de vida parecida com a de muitos boleiros.

Vagner Lopes, fundador da igreja comunidade cristã Aprisco da Família, começou a frequentar o clube por ser amigo do atacante Jô e acompanhou de perto a trajetória do time rumo ao título do Brasileiro de 2017. Mesmo após a mudança do jogador para a China, ele permanece no clube.

As reuniões acontecem de uma a duas vezes por semana, geralmente um dia antes da partida, no período de concentração. Até o ano passado, a sessão chegava a reunir 15 atletas como Jô, Cássio, Fellipe Bastos, Giovanni Augusto, Guilherme Arana e Moisés. Neste ano, como alguns deixaram o clube, o grupo ainda está sendo formado, mas Cássio assumiu o posto de líder e Fagner e Pedrinho também estão sempre presentes.

O pastor diz que a ideia do encontro não é levantar bandeira sobre qualquer religião, mas sim falar sobre um Deus comum a todos. Nas conversas, ele exalta os valores morais e a importância da família. "Quem está ali, não está pregando a placa de igreja nenhuma. Está ali para falar do amor de Jesus. Senão é terrorismo, é o evangelhismo do Bin Laden. 'Vem para mim, senão vai para o inferno'. Por isso chegamos com a ideia de não levar nenhuma placa, não falar nada além do reino de Deus. Pode ir um padre, quem quiser, a questão aí é o fato de ter criado essa confiança, mas eles são abertos para quem quiser ou um sacerdote de outro segmento. Temos que quebrar esses paradigmas que só nos afastam".

Vagner acompanhou de perto a trajetória do time rumo ao título brasileiro do ano passado. Ele acredita que os encontros contribuíram para a união do grupo, um dos pontos fortes da equipe do ano passado. "Foi bem legal, que parte das conquistas que eles alcançaram dentro do campo eles tinham conquistado também fora de campo. Eles se tornaram muito amigos. É difícil isso na bola. Gente parceira, o cara que corre para você".

Vagner não teve dificuldades para se aproximar dos jogadores e passar a sua mensagem. Ele foi jogador de futebol profissional e está totalmente inserido no mundo que esses atletas vivem. Tanto que ele faz questão de usar a mesma linguagem da "boleiragem".

"Pelo fato de eu ter jogado essa linguagem fica mais solta. Eu uso muitas metáforas. A bola é um negócio universal, é papo reto. Eu acho que o simples, o cara que é culto entende e o cara que não tem tanta cultura entende também. Eu brinco, por exemplo, que Pedro foi primeiro surfista porque andou em cima da água com Jesus. Posso fazer uma figura de linguagem assim para atrair a atenção, o evangelho não está tão distante de você".

História de vida

Arquivo pessoal

A identificação dos corintianos com Vagner Lopes foi quase imediata. Além de ter jogado bola em times conhecidos, ele entende bem o que cada atleta passa. Saiu de casa com 12 anos para atuar na base do Guarani e tentar a vida nos gramados. Chegou a se profissionalizar no time de Campinas e ainda atuou em equipes como o Juventus, da Mooca, e o Ituano.

Enfrentou obstáculos comuns a outros atletas. Veio de família humilde de um bairro carente e teve contato desde cedo com os caminhos tortuosos que muitos jovens escolhem. Começou a usar drogas ainda na adolescência e se tornou um viciado por dez anos. Vagner se afundou e usou todo tipo de droga, principalmente cocaína.

"Meu pai faleceu eu tinha 3 anos, mas precisava comer, minha mãe saía e a gente ficava meio sozinho. Se a família não educa, o mundo educa e a educação do mundo é cruel. Com 11 anos de idade, eu tive esse contato com a droga. Não sei se herança genética porque o meu pai faleceu por uso de drogas. O Guarani me tirou do ambiente, mas o ambiente não saiu de mim. Fui dependente por dez anos e não conseguia superar, fui para casa de recuperação. Muitas oportunidades no futebol apareceram e elas foram embora porque eu não tinha competência mais. A gente trabalha com físico, vai ficando debilitado. Parece que está dentro daquela gaiola e que você é um hamster, só que você não enxerga".

Vagner chegou ao fundo do poço. Foi parar na quinta divisão do futebol paulista, estava com depressão e se sentia desenganado na vida. Mas foi em Indaiatuba quando atuava no Primavera que ele conseguiu se reerguer. Ele contou com a ajuda de um amigo e teve um encontro com Jesus, o que considera um milagre.

"Eu estava com princípio de depressão, sem rumo, sem perspectiva. Olhava para mim e via qualidade, mas olhava para a situação e percebia que eu não conseguia ter sucesso. Esse amigo me apresentou esse propósito. Caiu a ficha: 'Peraí. O que eu estou fazendo com a minha vida? Vou decidir, vou treinar, vou vencer isso daí'. Foram seis meses de luta contra abstinência, desfazendo alianças com amizades, caiu a consciência em mim. Comecei a me aplicar, treinar forte de novo. Foi um milagre. Isso trouxe a libertação. Faz 25 anos que não sei o que é droga", conta.

Vagner conseguiu melhorar na carreira. Foi para o Ituano. Afirma que, agenciado pelo poderoso Juan Figger, chegou a passar pelo Real Madrid por um período curto em 1994. Mas uma lesão grave o fez voltar ao Brasil. 

Vagner ainda jogou no XV de Piracicaba, no Banfield-ARG e passou pelo futebol dos Estados Unidos. Ele foi chamado para atuar pela URT, de Minas Gerais, mas sentiu cada vez mais a necessidade de passar para outras pessoas o que havia aprendido. Assim, trocou o futebol pela igreja. Começou auxiliando um pastor no interior paulista.

Até que uma nova reviravolta aconteceu em sua vida. Um amigo se mudou para o Timor Leste para advogar e virou assessor do primeiro-ministro do país que estava em reconstrução após a guerra civil. O país precisava de um técnico para a seleção nacional e Vagner acabou sendo indicado. Quase se mudou para o Timor, mas por uma questão burocrática o projeto acabou não dando certo. Vagner, que havia se mudado para São Paulo, fez um projeto social de escolinha de futebol na comunidade de Paraisópolis. Mas seu destino era mesmo ser pastor. Foi aí que montou a sua própria igreja.

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