Clube entra em campo com nove jogadores em RR e acusa empresário de golpe

Emanuel Colombari e José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo

  • Atletico Progresso Clube/Facebook

    Progresso (RR) faz críticas a Alexandre Lindner (à direita), gestor anunciado pelo clube no início do ano; fora da equipe, dirigente se defende e critica dirigente por promessas

    Progresso (RR) faz críticas a Alexandre Lindner (à direita), gestor anunciado pelo clube no início do ano; fora da equipe, dirigente se defende e critica dirigente por promessas

O Progresso estreou no Campeonato Roraimense de 2018 com derrota: jogando no Estádio Ribeirão, em Boa Vista, o time da cidade de Mucajaí encarou o Náutico e perdeu por 2 a 0, em partida realizada no dia 1º de março. O jogo, porém, foi marcado por uma peculiaridade: o clube entrou em campo com apenas nove atletas. Com os dois gols sofridos, o time apelou para o cai-cai, de forma a encerrar a partida com apenas seis jogadores ao fim do primeiro tempo.

A situação é fruto dos problemas do clube com um empresário, Alexandre Lindner. Seria ele o responsável por administrar o futebol da equipe alviverde, que havia se licenciado dos gramados em 2011.

"Chegou aqui um cara dizendo que era empresário, um tal de Alexandre. Dizia que era bem-sucedido e trouxe um monte de jogadores. Aí, antes do primeiro jogo, ele não conseguiu inscrever todos os jogadores. Para começar, ele não conseguiu botar nem um time em campo", desabafa José Tarquino, presidente do Progresso, em entrevista por telefone ao UOL Esporte.

O acerto entre o Progresso e o empresário foi divulgado no dia 29 de janeiro pelo jornal Folha de Boa Vista. Na ocasião, Lindner dizia ter trabalhado como gestor do Esporte Clube Novo Hamburgo em 2017, ano em que a equipe foi campeã gaúcha.

No entanto, fontes procuradas pela reportagem e ligadas à diretoria do Novo Hamburgo dizem que Lindner jamais trabalhou com o time. O estafe do técnico Beto Campos, que conquistou o título da última temporada no Rio Grande do Sul, também diz desconhecer o agente, que se defende.

"Foi uma informação equivocada. Eu disse que trabalhei em Novo Hamburgo", justificou Lindner em conversa com a reportagem. "Se não me falha a memória, há uns 30 ou 40 dias, eles me perguntaram onde eu trabalhei. Eu sou de Novo Hamburgo", completou, afirmando ter trabalhado ainda nas cidades gaúchas de Pelotas e Jaguarão.

Diante da estreia frente ao Náutico no dia 1º, Alexandre Lindner sumiu. "Esse cara fugiu, pegou um táxi para o aeroporto. Só que não conseguiu pegar o voo e foi para um hotel", explica José Tarquino, que divide as funções de presidente do time com a de taxista. "Só que os jogadores e o treinador foram atrás. Eles encontraram ele e o filho dele no hotel. Ele passou dois dias preso e foi embora deixando um monte de dívida – hotel, restaurante, farmácia", completou o dirigente.

A versão é a mesma de Luan, zagueiro da equipe. Segundo o atleta, os jogadores voltaram de Boa Vista a Mucajaí (a cerca de 60 km) após o jogo; ao chegar, foram informados que o empresário havia acabado de deixar em um táxi, levando malas, a pousada onde o time se hospedou. "No quarto, não tinha mais nada", recorda o atleta, que passou por clubes como Guarulhos (SP) e Ferroviária (SP) antes de ter defendido o Novo Horizonte (RS) em 2017.

Ainda segundo o relato de Luan, a van do elenco chegou a Boa Vista por volta da 0h do dia 2 para procurar o dirigente no aeroporto. Como os voos da capital roraimense só embarcariam a partir da 1h, os jogadores concluíram que Alexandre Lindner havia se hospedado na cidade. De fato, encontraram-no em um hotel de Boa Vista e decidiram chamar a Polícia.

Alexandre Lindner foi detido, mas prestou depoimento e acabou liberado já há pouco mais de dez dias. Desde então, não tem sido encontrado pelo presidente do clube, pelos jogadores ou pelos vários comerciantes com as quais contraiu dívidas durante sua passagem por Roraima.

"Esse cara é um safado da bola. Iludiu um monte de jogador, pegou dinheiro de transferência da gente", desabafa Luan, que afirma ter pago R$ 1,5 mil pela transferência ao empresário. "Vou ser sincero: a gente está passando fome aqui. Estamos comendo pão porque a população se sensibilizou. Um ou outro às vezes dá R$ 10, R$ 20. A situação é difícil, a gente é pai de família. Eu moro em São Paulo. Vou chegar lá para a minha família e falar o quê?"

Mesmo sem condições de arcar com o elenco, José Tarquino correu contra o tempo para inscrever mais jogadores para a disputa do Roraimense. "Ele disse que ia bancar tudo, fazer a base. É um vagabundo, mentiroso", disse o dirigente.

Pela segunda rodada, na sexta-feira, o Progresso encarou o São Raimundo e acabou goleado por 5 a 1 - desta vez, com 11 atletas em campo. O time joga novamente na próxima sexta-feira, agora contra o Rio Negro.

"Possivelmente não volto para Roraima"

Ao longo da última semana, ninguém do Progresso soube informar se Lindner seguia em Roraima ou havia deixado o estado. O agente, contudo, conversou com a reportagem do UOL Esporte e se defendeu das acusações do clube roraimense. O empresário, que afirmou passar pelo Rio Grande do Sul para conversar com advogados, encontra-se em Minas Gerais e praticamente descartou voltar ao norte do país.

"Possivelmente não volto para Roraima. Foi uma questão muito constrangedora para mim e para o meu filho, muito constrangedora. Te imagina no meu lugar: tu numa cidade estranha, não conhece ninguém, e todo mundo te acusando sem saber o teor do grau da acusação. Essas pessoas vão pagar tudo em juízo. Na medida em que tu acusa alguém, tu tens que ter provas. Quero essas provas", disse Alexandre Lindner.

O agente, obviamente, rebate todas as acusações sofridas e afirma que foi o clube que não cumpriu com o combinado - entre outras coisas, de pagar por transferências e inscrições de atletas. Lindner deixou Roraima por conta própria e sem avisar a direção do Progresso por se sentir enganado pelos diretores.

Acervo pessoal
Críticas ao clube: Alexandre Lindner alega ter inscrito jogadores do Progresso e ficado com a dívida
"No meio da semana antecedente ao jogo [estreia no campeonato], cobrei tudo que me prometeram. Tanto é que eu fui à Prefeitura, e a prefeita me passou o que tinha combinado para nos ajudar, inviável. E cobrei toda a questão da minha transferência para lá - alimentação, alojamento, tudo que foi prometido e não foi cumprido. Quem botou a cara para bater fui eu. O boi de piranha fui eu. Eu que fiz dívida aqui, fiz dívida ali, entendeu?", reclama.

"Aí, vem se aproximando o campeonato, vem se aproximando o campeonato, e eu não vi movimento de presidente, nem de secretário, nem nada. (...) Não foi cumprido nada, não foi feito nada, e eu resolvi - como não tinha um contrato - por conta própria ir embora. Falei: 'Olha, não tem mais condições de trabalhar desta forma'. Só de promessa não paga conta, tem que ter valor financeiro. Resolvi vir embora", justificou o empresário, que tinha o filho como um dos jogadores do elenco.

"Era uma coisa verbal. Se ele [presidente do Progresso] é uma pessoa que fala a verdade, que até agora não falou, só fez declarações com críticas à minha pessoa, isso meus advogados estão assumindo totalmente, então eu percebo: 'Vou me retirar e vou vir embora, vou deixar o clube para ele tocar'", encerrou Lindner.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

UOL Cursos Online

Todos os cursos