R. Oliveira fala em seguir no futebol, mas não se vê perto da aposentadoria

Thiago Fernandes e Victor Martins

Do UOL, em Belo Horizonte

  • Divulgação Federação Mineira de Futebol

    Ricardo Oliveira já tem cinco gols em 11 partidas pelo Atlético-MG

    Ricardo Oliveira já tem cinco gols em 11 partidas pelo Atlético-MG

Um gol a cada dois jogos. Essa foi a média de Ricardo Oliveira na última passagem pelo Santos, entre 2015 e 2017. Ainda assim, os 71 gols anotados em 140 partidas pela equipe paulista foram menos destacados na chegada ao Atlético-MG do que a idade do atacante, que vai completar 38 anos em maio. Confiante, Oliveira garantiu que em campo acabaria com qualquer desconfiança. E a média com a camisa do Galo já está próxima do que ele alcançou na Vila Belmiro.

Já são cinco gols em 11 partidas, mas Ricardo Oliveira quer mais. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, o camisa 9 do Atlético falou sobre o desejo de brilhar no clube mineiro e a primeira experiência no Brasil fora de um clube de São Paulo. Apesar dos bons números, é inevitável não falar sobre a aposentadoria. Aos 37 anos e perto dos 38 – Ricardo Oliveira é de 6 de maio -, o atacante já tem bem definido na cabeça que ao pendurar as chuteiras ele vai seguir no futebol.

Para isso, Ricardo Oliveira já tem estudo e, segundo ele, já tem propostas para exercer diferentes funções quando deixar os gramados. "Com certeza já tenho planejado, de forma muito cautelosa, é claro. Já tenho recebido muitos convites para trabalhar após a minha aposentadoria, em vários ramos do futebol", disse o artilheiro atleticano em 2018.

Porém, é algo que vai demorar para acontecer. Apesar de já se preparar para o futuro, Ricardo Oliveira não tem uma data para deixar de jogar o futebol. O contrato com o Atlético, inclusive, vai até dezembro do ano que vem. E antes de pensar do que fazer lá na frente, o centroavante quer dar muitas alegrias aos atleticanos com gols e títulos.

UOL Esporte: Logo que chegou ao Atlético-MG, muitos se preocuparam com a sua idade. Mas você tem mostrado que é fundamental para o time. Já são quatro gols em dez partidas. Como você vê a superação da desconfiança?

Ricardo Oliveira: Eu sabia que iria enfrentar também esse tipo de questionamento, que é normal. As pessoas acabam vendo um jogador experiente, com idade de 37 anos, de 38, como vou fazer, com desconfiança. Mas isso serve de motivação. Sempre trabalho forte e enquanto meu corpo obedecer aos comandos da minha cabeça, eu vou com tudo, vou com força. Não fico preocupado com os desafios e por isso aceitei esse. 

Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro
Dedicação de Ricardo Oliveira durante os treinos é algo fácil de notar

UOL: Quando questionado sobre a sua idade, você disse que seria uma surpresa em termos físicos. E de fato foi. O pessoal da fisiologia confirmou que você chegou muito bem de pré-temporada. Costuma fazer treinos fora do horário de expediente?

RO: Eu acho que uma consciência profissional, uma disciplina é muito importante e sempre tive isso na minha carreira. Nas férias eu não consigo parar totalmente, sem fazer nada. Sempre mantenho meus treinos, mantenho a forma física, faço meus trabalhos funcionais. Fora do expediente de trabalho eu só faço alguma coisa se tiver dois dias de folga, o que é muito raro no Brasil. Fora isso, não. Tudo que faço é dentro do clube, aproveitando a estrutura tem me fornecido, que é excelente, os profissionais. Então eu uso essa estrutura para melhorar minha capacidade física, para dar o resultado dentro de campo.

UOL: Já planeja a aposentadoria? O que gostaria de fazer ao fim da carreira? Tem algum plano especial até lá?

RO: Com certeza já tenho planejado, de forma muito cautelosa, é claro. Já tenho recebido muitos convites para trabalhar após a minha aposentadoria, em vários ramos do futebol. Tenho estudado, para quando chegar esse tempo eu esteja preparado para um novo desafio. Mas ainda eu tenho a cabeça muito voltada para a minha profissão, que é o que me motiva hoje. E quando for chegando o tempo de aposentadoria, já vou estar preparado e convicto para quando me aposentar

AP Photo/Jorge Saenz
Ricardo Oliveira comemora gol para o Brasil contra o Paraguai, nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018
UOL: Há três anos, você viveu uma de suas melhores temporadas em termos de gols. Foram 37 gols em 62 partidas. Estipula alguma meta de gols por ano?

RO: Eu vivi uma temporada mágica no Santos. Foram muitos gols, títulos, protagonismo e seleção brasileira. Fiquei muito feliz em voltar para a seleção aos 35 anos. Deu muitos resultados, o que surpreendeu muitas pessoas, menos a mim, pois sempre acreditei no meu potencial. Normalmente eu não estipulo números, vou jogo após jogo, com aquela vontade de fazer o máximo de gols possíveis, para poder ajudar meu time e possa também me destacar individualmente. Mas estou muito animado para a temporada, espero fazer muitos gols.

UOL: Em pouquíssimo tempo, você já se tornou um líder do elenco do Atlético-MG. Foi consultado ao lado de Victor e Leonardo Silva após a demissão de Oswaldo de Oliveira. Como fez para adquirir tanto respeito dentro do grupo tão rapidamente? É algo que você carrega há muito tempo?

RO: Eu tenho exercido minha liderança de forma natural. Por onde eu passei eu consegui fazer isso, não de maneira forçada. Isso a gente carrega, cada um tem usa forma de liderar. Fico feliz por ser um dos jogadores experientes do time. Com essa experiência eu posso dar conselho, poder ajudar, exercer a liderança de forma natural. Sobre essa informação que eu, o Victor e o Leonardo Silva fomos consultados sobre a demissão do Oswaldo não procede. Ali, onde fomos vistos, é o local que passamos para retirar os ingressos dos atletas. Precisamos passar ali, onde também fica a sala do Gallo (diretor de futebol) e do presidente (Sérgio Sette Câmara). Então, o que aconteceu é que televisão filmou a gente entrando lá e deduziram que estávamos indo conversar com o diretor e com o presidente. Mas na verdade estávamos indo retirar os ingressos para distribuir entre os atletas.

Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro
Ricardo Oliveira gosta de comemorar gols com caretas. Para alguns rivais isso soa como provocação
UOL: Quando e como surgiu a religião em sua vida? Qual a importância da fé em sua vida?

RO: Eu me converti com 19 para 20 anos, quando estava nos juniores da Portuguesa. De fato, isso mudou minha vida. Imagina para um garoto, um jovem de 19 anos, com toda a possibilidade de fazer o que quer, de curtir? Eu já tinha feito isso, em anos anteriores. Entendi que era o momento de tomar um rumo na minha, para me dar o que eu precisava. O que eu não tinha era felicidade. Um garoto de 19 anos, que tinha muitas coisas, mas não tinha felicidade. Até que Jesus me encontrou. A partir daí eu me entreguei a ele. Vai fazer 18 anos que me converti e tenho exercido meu ministério também, dentro da minha profissão. Tento aconselhar jovens, instruir. Graças a Deus muitos deles têm me ouvido, tomando rumo na vida. Com as graças de Deus eu tenho conseguido ajudar muitas pessoas, que é o sempre quis e sempre gostei de fazer.

UOL: Você sempre foi um jogador muito valorizado e, por pouco, não trocou o Milan pelo Real Madrid. Como foi aquele episódio?

RO: Os desafios sempre me motivaram. Nunca encolhi e nunca me escondi. Sair do Bétis e ir para o Milan foi algo que marcou a minha carreira, foi um divisor de águas. Cheguei lá e encontrei jogadores multicampeões, sendo exemplo, puxando fila, treinando forte. Isso me marcou. Sempre fui um cara disciplinado, que gostava de treinar. Mas a partir dali passei a me entregar ainda mais do que antes. E graças ao tempo no Milan eu pude dar longevidade à minha carreira. O interessante foi que passei por um problema muito sério lá no Milan, quando cheguei, que foi o sequestro da minha irmã. Fiquei um período sem jogar, treinando. Depois voltei a jogar e comecei e me destacar. O Milan se interessou pelo Ronaldo, que estava no Real Madrid. E o Real abriu conversa para que eu fosse para lá. Só não aconteceu porque seria a terceira transferência em um ano, o que não é permitido, pois teve também o empréstimo para o São Paulo. Depois do Bétis para o Milan. Mas eu sou muito orgulhoso pela carreira que fiz, pelas camisas que vesti, de todos os clubes, que foram importantes para mim. E claro, pelo fato de ser sondado pelo Real Madrid, o que me deixa muito orgulhoso.

UOL: Você teve uma infância muito humilde em São Paulo. Como o futebol entrou em sua vida?

RO: A minha infância é a minha raiz. Foi ali que foi estabelecido, que criei uma raiz muito firme. Me dá muito orgulho de falar que sai lá do bairro do Carandiru, da favela e pude brilhar nos maiores campos do cenário mundial, vesti a camisa da seleção brasileira.  Minha história é motivo de muito orgulho e não lamento nada. Se tivesse de encerrar minha carreira hoje, teria orgulho de tudo o que fiz. E o futebol sempre fez parte da minha vida. Meu pai sempre sonho que meu irmão fosse jogador de futebol. Só que, infelizmente quando meu pai faleceu, eu tinha oito anos de idade, meu irmão abandonou a carreira. Meu irmão teve de abandonar a carreira e trabalhar para ajudar minha mãe. Desde pequeno eu gosto de jogar bola. Tenho uma tia que fala que o primeiro presente que recebi foi uma bola e que minha primeira palavra foi gol. Ela conta com muito orgulho, eu nunca vou duvidar disso, e nem pode. A bola sempre esteve presente e sempre foi meu sonho. Imagina, lá no Carandiru, sair de lá para jogar profissionalmente? Ser um profissional, registrado na carteira, para poder ajudar minha mãe e ela parar de trabalhar, para eu poder cuidar dela. Então, o futebol sempre foi minha vida, sempre foi minha paixão e sempre me dediquei e sempre vou me dedicar, até o último minuto, o último instante. Em vida não vou poder devolver tudo o que o futebol me deu, mas vou poder retribuir com uma parcela, depois que eu parar de jogar.

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos