Lenda do Atlético-PR sofre AVC e ganha amparo com mobilização torcida-clube

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

  • Reprodução arte Atlético-PR

    Ziquita, a lenda: quatro gols em 15 minutos em um jogo para a história

    Ziquita, a lenda: quatro gols em 15 minutos em um jogo para a história

Não estranhe se, ao assistir no estádio um jogo do Atlético Paranaense em que o time estiver perdendo, algum torcedor pedir: "Põe o Ziquita!", mesmo se o placar for de 0 a 4 e não tiver Ziquita algum no banco de reservas. Desde 5 de novembro de 1978 – há 40 anos – a lenda do atacante que fez quatro gols e ainda acertou uma bola na trave, quando o cronômetro apontava 30 do segundo tempo, só faz crescer.

Era um duelo contra o Colorado, um dos clubes que se juntou para formar o Paraná Clube. O time rival havia construído uma goleada sólida durante 75 minutos daquele jogo na Baixada. Ziquita, um atacante discreto, já estava em campo. E aos poucos foi construindo sua lenda – veja abaixo a série especial que o clube divulgou em seus canais.

Hoje, morando no interior de Minas Gerais, Gilberto de Souza Costa vive um drama: um AVC tirou parte dos movimentos e da fala do ex-jogador. O UOL Esporte conversou com Maria da Graça, esposa do jogador, que aos 69 anos, comemora a mobilização atleticana. "É uma coisa que, no mundo que estamos vivendo, o que eles estão fazendo, é coisa de acreditar num mundo melhor."

Torcida fará jantar comemorativo; clube vende camisetas em série especial

Reprodução
Camisa especial lançada pelo Atlético, com renda voltada para Ziquita

Embora diretoria e parte da torcida estejam rompidos, o drama de Ziquita uniu os atleticanos para arrecadarem fundos em prol do tratamento do ex-jogador. A atual direção tem prestado auxílio à Ziquita e criou uma camisa especial para celebrar os 40 anos do feito, comercializada a R$ 150 e com royalties destinados ao jogador. "Ele tá normal, muito melhor do que o que ele passou", comemora Graça, "Ele está tendo toda a assistência, a fisioterapeuta vem em casa, a fonoaudióloga também, nosso convenio não cobria. Ele vai colocar uma bota para ver se ajuda a movimentar. Foi um estímulo para saúde dele... ele estava à beira de uma depressão. Saia almoçar e voltava para a cama. Depois de tudo está se sentindo tão valorizado."

Graça relata: "O Atlético agora, nesse momento, está dando toda a assistência mesmo. Há 10 anos eles convidaram o Ziquita, foram mudar o uniforme e convidaram ele, entrou em campo antes. Encontraram o rapaz que tomou a camisa dele e doou pro clube. Foi muito bom." Ziquita teve um rápido contato com a reportagem. Já está recuperando a fala, mas ainda tem dificuldades. "Eu coloquei duas barras para ele fazer treinamento, ele já vai sozinho, tá procurando contato com os amigos. Eu agradeço a Deus a aquele povo lá", disse Graça.

Reprodução
Jantar de 94 anos do clube terá renda voltada ao ex-jogador

Com a proximidade dos 94 anos do clube, na próxima segunda-feira (26), um setor da torcida organizou um jantar para celebrar a ocasião com o tema "Não existe impossível", relembrando os 4 a 4. Parte dos fundos também será doado a Ziquita. "É uma iniciativa que partiu dos torcedores para comemorar o aniversário do clube. Aí veio a notícia dos problemas do Ziquita e toda a renda líquida será revertida para a família deles, cerca de 12 reais por adesão, mais o que vendermos das camisetas especiais", disse Fernando Munhoz, torcedor que está à frente do jantar no Restaurante Madalosso, em Curitiba.

4 a 4: "Nem Pelé conseguiu"

Professora aposentada, Maria da Graça está casada com Ziquita há 45 anos. "Quando ele parou de jogar futebol, parou com 11 anos e 3 meses de INSS. Ele não era aposentado, não tem salário, sobrevivíamos com o salário de professor. Na época, um advogado falou pra gente continuar pagando o INSS dele, mas se eu tirar 100 reais do salário prejudica meu orçamento. Agora eu passei a pagar o INSS dele", contou, lembrando que ela precisa completar 15 anos para garantir os direitos.

Arquivo pessoal
Ziquita se exercita em casa: comunidade atleticana abraçou o ídolo após AVC

Aos 65 anos, Ziquita tem três filhos e sete netos. Graça diz que são os filhos que a ajudam nesse momento de pouca mobilidade dele – "grandalhão, né" – "Se ele voltar a andar não vai mais depender de filho para dar banho, pra levar no banheiro. A minha esperança é essa, poder dar a ele uma vida melhor."

Eles se conheceram em Governador Valadares, onde moram hoje, nos tempos em que jogou pelo Democrata. Então foram à Curitiba. "Moramos bem atrás do campo. Ele atravessava a rua e entrava no portão de fundos, 40 anos atrás. Quando ele fez os 4 a 4, nem o Pelé fez o que ele fez, e naquele período ele ficou com nome e nós fomos pro Chile. Ficamos uns dois anos lá, mas era muito tremor de terra, eu adoeci, os filhos adoeceram e ele abandonou o futebol lá, deixou o passe lá, luvas."

Do futebol, só restaram lembranças. Dinheiro? "Naquele tempo o futebol não dava nada. Naquele tempo era mixaria. Hoje ele estaria ganhando uns dois salários mínimos na comparação de hoje. Ele só comprou um carro, uma Brasília usada. Não temos carro." Mas o futebol segue na família de Ziquita. Um genro seguiu carreira: Tico Mineiro, com passagens no futebol de São Paulo. E ainda há mais por vir. "Eu tenho um neto que eu falo que é o substituto do Neymar, ele tem 13 anos. Ele já fez teste no Cruzeiro e no Atlético-MG. Mas sem uma mão amiga, você sabe né?", comentou Graça, esperançosa que o garoto ir mais longe que o avô.

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