Trajetória de Fernandão no Inter vira peça de teatro em Porto Alegre

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • Paulo Whitaker/Reuters

    Fernandão, do Internacional, ergue o troféu de campeão da Libertadores em 2006

    Fernandão, do Internacional, ergue o troféu de campeão da Libertadores em 2006

Fernandão é o maior ídolo da história do Inter. Capitão das conquistas da Libertadores e do Mundial de 2006, o ex-atacante, morto em acidente de helicóptero há quatro anos, tem trajetória marcada nos mais de cem anos do Colorado. E além das homenagens já recebidas, os bastidores dos anos mais importantes dele em Porto Alegre se transformarão em uma peça de teatro.

O dramaturgo Bob Bahlis (na foto com o ator que interpretará o ídolo) é o responsável pelo projeto que já tem roteiro pronto e previsão de estreia para agosto.

Arquivo Pessoal/Bob Bahlis

"O ator que fará o personagem foi meu aluno de teatro há uns dez anos, estávamos sempre pensando em trabalhar juntos. Certo dia, em fevereiro, fui dar uma entrevista na TVE e ele estava lá. Conversamos sobre isso, fazer uma peça em homenagem ao Fernandão. Ele sempre foi muito parecido fisicamente com Fernandão, brincávamos sobre isso", contou ao UOL Esporte. "Foi uma casualidade, porque eu procurava um projeto para este ano, que marcasse meus 30 anos de teatro. Eu andava lendo muito sobre teatro e futebol, porque as pessoas consomem tanto futebol, nem tanto teatro... E depois de nossa conversa fiquei dias e mais dias vendo todo material sobre o Fernandão, falei com a viúva dele, a Fernanda (Costa), com amigos próximos, e a peça entrou muito dentro da programação de homenagens aos 40 anos que ele faria, se vivo (completaria a data no dia 18 de março)", acrescentou.

O enfoque da peça se dá na passagem de Fernandão pelo Inter, apesar de citações aos tempos de Goiás e França por meio de memórias do personagem. O recorte estabelecido é entre 2004 e 2006. Serão dez atores e quatro cenários, além da projeção audiovisual de uma série de momentos emblemáticos no campo. O escolhido para viver Fernandão no palco é o ator Rafael Albuquerque, de 37 anos.

"É muito louco como a vida se desenha, passado e futuro. Tenho 37 anos e minha geração na adolescência não teve um ídolo forte no Inter, presente. Cresci vendo o Grêmio ser campeão, sofri muito. Meu ídolo era o Taffarel, mas mais pelo que ele fez na seleção. Tinha essa lacuna. Até que chega o Fernandão. Meio desconhecido, vindo da França, meio do nada. Eu tinha 23 para 24 anos. Ele já estreia fazendo gol em Gre-Nal, e naquele ano tudo começa a virar para o Inter. Foi um meteoro no clube", contou. "Nessa época eu ia nos jogos e os torcedores na arquibancada começavam a me chamar de Fernandão (risos). Um dia o Fernandão foi num evento consular em São Leopoldo (região metropolitana de Porto Alegre) e eu estava lá. Na chegada já brincaram dizendo que o irmão dele estava ali. Até tiramos uma foto juntos (veja a foto abaixo). Além da idolatria, isso é muito louco. Agora, interpretar ele vai ser uma emoção muito grande", completou.

Arquivo Pessoal/Rafael Albuquerque

Além de Fernandão, serão representados no teatro amigos próximos e outros atletas como Iarley, Alex, Paulo César Tinga, Rafael Sóbis, Clemer, além do dirigente do Inter Fernando Carvalho e de um funcionário do clube ainda não escolhido.

"Conversamos com muita gente próxima do Fernandão e são relatos impressionantes. Tem muita história, muitos fatos de bastidores. Optamos por sair um pouco do lado profissional e ir para o lado pessoal, o lado do líder, do magnetismo que ele tinha. Era um cara que tinha o dom da palavra, sabia se comunicar, até todos consideravam que ele parecia mais velho do que realmente era, um exemplo do que chamamos no teatro de 'trajetória do herói'. Tinha objetivos e passou por uma série de situações para alcançá-los. Em dois anos ele muda a vida dele e muda a vida do Inter", explicou Bob.

O processo de criação está praticamente fechado, mas ainda há espaço para algumas entrevistas. Amigos de Fernandão distantes do futebol são os alvos, como os cantores sertanejos Leonardo, Bruno e Marrone. O roteiro atual contempla duas horas de peça, mas passará por recortes até que a apresentação dure no máximo 90 minutos, tempo de uma partida de futebol.

"Creio que não só colorados, gremistas também vão ver. Muitas pessoas têm comentado comigo, de ambos os lados. O Fernandão é um personagem que era respeitado por todos. É um material muito rico de vida. Muito emocionante mesmo. Nas conversas com os amigos dele, acaba indo para o lado emocional, muitos chegam a chorar com as lembranças dos momentos que vamos resgatar", disse.

O plano inicial era que a peça pudesse estrear próximo ao aniversário de morte de Fernandão, 7 de junho, mas foi alterado para uma data mais feliz, a semana de aniversário do título da Libertadores, ocorrido em 16 de agosto.

"Vou achar o Fernandão que há dentro de mim"

Bob Bahlis/Arquivo Pessoal

Rafael Albuquerque tem ciência que não será fácil viver Fernandão e está de olho em tudo que há de material disponível sobre ele. Histórias e detalhes que vão desde o pulso em que o ídolo da camisa 9 usava o relógio até o fato dele nunca olhar para baixo, sempre o horizonte.

"Eu sei que vou ser muito cobrado, estou me preparando para isso. Mas em um evento aqui em Porto Alegre, encontrei a Fernanda (viúva de Fernandão) e estava com ela a menina responsável pela fanpage do Fernandão no Facebook. Eu cumprimentei a Fernanda e a menina comentou comigo que havia se arrepiado quando me viu, que estava muito parecido. Isso já me deixou feliz", comentou. "Com uniforme de jogo até que é mais fácil, o desafio é o personagem com roupas de dia a dia, em momentos fora do futebol, que vão estar na peça", completou.

"Vai ter um friozinho na barriga especial. Acho que o teatro vai ter um pouco de clima de arquibancada, o público vai reagir de uma maneira diferente. Já enfrentei teatros grandes e pequenos, me apresentei para 1.200 pessoas e também para três pessoas apenas. Sempre com personagens criados, da peça. Agora, fazer um personagem que todo mundo sabe como caminha, como fala, tem vídeos de discursos dele na internet, é um desafio. Não fazer uma caricatura, não imitar ele, vou dar meu melhor e achar o Fernandão que há dentro de mim para que enxerguem isso no palco", explicou. "Um público diferente vai querer ver a peça, talvez quem nunca foi no teatro. E sabendo que a gente mora num país onde a cultura é tão pouco absorvida, também isso será muito importante", finalizou.

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