Gabigol é líder "como Neymar" e Santos se ressente de R. Oliveira, diz Jair

Samir Carvalho

Do UOL, em Santos (SP)

  • Daniel Vorley/AGIF

    Liderança dos atletas e ele como "técnico jovem" foram alguns assuntos da entrevista

    Liderança dos atletas e ele como "técnico jovem" foram alguns assuntos da entrevista

O técnico Jair Ventura sente falta da liderança de Ricardo Oliveira no Santos, mesmo não tendo comandado o jogador. Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Jair reconhece que o centroavante tem um estilo de comando hoje em falta no seu elenco. Apesar de citar perfis diferentes neste sentido – casos de Renato, David Braz e Vanderlei, o treinador aposta em Gabigol para suprir a ausência do centroavante que foi para o Atlético-MG.

Para Jair Ventura, Gabigol é uma espécie de "liderança técnica", como Neymar na seleção brasileira, e de alguma forma "joga o grupo para cima". Após um começo de ano duro, com eliminação na semi do Paulista e uma relação conturbada com crítica e torcida, o treinador faz balanços de seu trabalho após a primeira "fase" da temporada. Em busca de um equilíbrio entre os estilos "paizão" e "linha dura", ele faz questão de dizer que é 'fechado' com os atletas: "perco o emprego, mas não perco o meu grupo".

Fiel à própria filosofia, ele defendeu que os jogadores podem falar o que quiserem, inclusive do esquema dele. Durante a entrevista, o técnico santista ainda revelou que foi rejeitado por Tite quando fez testes no Caxias-RS como jogador de futebol; por que não fala de futebol com o pai, o campeão mundial de 1970, Jairzinho; como encerrou a carreira de atleta no Gabão, na África; e até sua opinião sobre a polêmica Carille e Aguirre no Paulistão.

Confira a entrevista completa de Jair Ventura:

UOL Esporte: Sobre o aproveitamento de alguns atletas. Você tem ideia, por exemplo, de utilizar o Dodô no meio de campo até pelas dificuldades que tem encontrado na posição?
Jair:
Pode haver essa variação, sim, até mesmo dentro de um jogo por características de outros jogadores. É uma coisa que já pensamos.

UOL Esporte: Esse meia, por sinal, é algo que você deseja muito. A diretoria trabalha para trazer um volante, um meia e um centroavante. Qual é a sua prioridade?
Jair:
Não tem nenhuma prioridade porque penso muito em gestão de pessoas. O que eu falar hoje aqui posso matar quatro meses de trabalho. A minha prioridade é conseguir extrair o máximo dos que estão aqui. Aqueles que chegarem, esses reforços pontuais, vão ser bem vindos para deixarem o nosso grupo ainda mais forte.

UOL Esporte: Sobre o Renato, inicialmente acreditava que ele não precisaria de um trabalho diferenciado, mas acabou perdendo espaço e só voltou pela lesão do Cittadini. Mudou alguma coisa?
Jair:
Pela idade é lógico que alguns treinos precisam ser diferentes, até pelo desgaste e a intensidade que são os jogos hoje, mas ele demonstrou que tem a sua importância dentro do elenco, principalmente nessa ocasião que entramos com quatro atacantes [na vitória por 2 a 1 contra o Palmeiras, pela semifinal do Campeonato Paulista]. Ali, um cara com uma leitura de jogo não vai nos dar a velocidade, mas acrescenta no passe médio e no passe longo. E esse cara não precisa de muita velocidade, se não fico só com velocidade. Quem vai municiar esses atacantes velozes se não tenho um bom passe? Então, o Renato vai ter a sua importância dentro da equipe do Santos o ano todo dependendo do momento. Os momentos que ele não jogou, queria outra situação do time. Se eu quiser qualidade de passe, o Renato vai estar. Se eu quiser mais velocidade desde os meus médios, o Renato não vai jogar. Vai ser dentro da estratégia para o momento, daquilo que estou precisando e querendo.

UOL Esporte: Nesse sistema que você gosta de jogar, o Renato não seria uma opção mais interessante para uma saída de bola do que o próprio Alison?
Jair:
Eu não gosto, estou jogando hoje. E tem essa variação, se observarem vão ver que ele faz essa troca com o Alison algumas vezes, mas o Alison evoluiu muito nessa situação de passe. Um jogador que estava emprestado no ano passado, mas que vive o seu melhor ano, agora. Faz parte do treinador, também, e fico feliz. Estamos quebrando uma série de coisas: o Alison jogar, o Rodrygo fez o primeiro gol, o mais jovem da história da Libertadores. Esse trabalho é importante para um treinador, fico feliz.

UOL Esporte: O Santos teve um líder nos últimos anos nos bastidores, o Ricardo Oliveira. Era um capitão que colocava os mais jovens na linha. Você acha que falta alguém assim no elenco de hoje?
Jair:
É importante. Foi uma perda que tivemos quando cheguei, era um cara com quem eu contava. Ele e o Lucas [Lima, do Palmeiras] foram responsáveis por mais de 50% dos gols do Santos em 2017. Hoje nós não temos [um líder], mas é um perfil de jogador importante, sim. O Renato faz um pouco essa função, é um cara que tem uma liderança muito boa. O Braz, também, assim como o Vanderlei. Perdemos o Ricardo, mas descobrimos outros líderes dentro do nosso elenco.

UOL Esporte: O Gabriel é o principal jogador, mas ele não tem essa característica? É algo que se fala do Neymar na seleção brasileira.
Jair: É uma referência técnica, é diferente. São características diferentes. Como o Lucas, por exemplo, não tem a característica de liderança do Braz. Como o Antonio é um bom observador, mas não é um bom treinador. É da pessoa, é algo para se completar. Ele é um líder técnico e motivacional. No vestiário tem uma participação importante, mas isso não vai para fora, não posso falar. É um cara importante, tem a sua liderança, mas é diferente. Ele joga o grupo para cima. Ele tem a sua importância para o grupo.

UOL Esporte: Você gosta muito da questão tática e é um inovador da nova geração de treinadores, mas não é só isso. Como age com relação a uma situação como a do Gabriel, que foi criticado pela expulsão? Como você é nesse sentido? Escuta pelo fato de que ser jovem?
Jair:
Autoridade tem a ver com conhecimento. Os jogadores me respeitam pelo que conheço de futebol e pela minha pessoa, pelo meu caráter. Simples assim. Não será pelos meus cabelos brancos e nem pelos mil títulos que conquistei. Se não for íntegro, que falo olhando nos olhos, que falo a verdade não vou ter respeito. Aqui que eu cativo eles, aqui que eles me respeitam. Não é só pelos meus cabelos brancos. A minha pouca idade fica mais próximo para lidar com eles porque tive a mesma idade a menos tempo que os mais experientes. Eu me preparei 13 anos para ser treinador de futebol. Essa parte, então, é a mais fácil, é ser o que eu sou. Sou um cara leal, transparente, que fala a verdade, que chama atenção quando tem que chamar, que sou paizão para protegê-los. Você não vai ver eu expondo os meus jogadores nunca. Eu perco o emprego, mas não perco o meu grupo. Porque estarei trabalhando com eles em outro lugar amanhã. Não tenho medo de perder o emprego, mas de perder a confiança deles. Por isso serei sempre a mesma pessoa.

UOL Esporte: E no sentido de disciplina? O Emerson Leão tirava mesa de sinuca. Como você lida com tatuagem, brinco e as noitadas?
Jair:
Equilibrado, eu sei até onde eu posso ir, mas tenho a minha função, também, de professor e educador. Então, quero ajudar todos os meus jogadores. Vou até onde eu posso, mas tenho o meu limite. E eles também tem o limite deles, ordens a serem seguidas dentro do clube e fora, também. Cobro algumas situações, mas tudo com equilíbrio. Não podemos ser hipócritas, sabemos que o jogador tem a sua vida fora de campo, mas também tem as suas obrigações que não pode deixar de fazer. Em todo o caso de indisciplina serão cobrados, pode ter certeza.

UOL Esporte: Com relação ao Cleber Reis (de saída para o Paraná) o próprio Dorival Júnior falou que ele não tem condições físicas para jogar. Como avalia?
Jair:
Aconteceu uma coisa, poucos sabem, mas ele ia jogar. Perdemos o Lucas Veríssimo e o David Braz, mas no treino de véspera se machucou. Agora os outros se recuperaram. O Gustavo está se recuperando, tem o Luiz Felipe, então o momento dele passou, agora precisa esperar por um novo momento. Só não usei ele e o Longuine, cheguei aqui com 44 jogadores.

UOL Esporte: Com relação ao Vitor Bueno ficou algum incômodo? Ele acabou falando no seu sentido tático.
Jair:
Zero, nenhum. Meus jogadores têm que falar o que pensam, não são robôs para falarem o que eu quero.

UOL Esporte: Você disse que não expõe os seus jogadores nunca, mas e se o jogador fizer isso com você?
Jair:
Ele tem o direito, não precisa falar o que eu quero, tanto que joga no outro jogo. Não vi nada demais no que ele falou. Perguntaram sobre o que o Gabriel havia falado e ele falou que se confundiu, acabou induzido pela pergunta a falar algo. Se ele faz, também, não posso cobrar o cara, é um direito dele. Aí vou deixar de utilizar um jogador que vai me ajudar? Eu vou ser pequeno. Isso é birrinha.

UOL Esporte: A pressão maior no Santos é por reforços ou para utilizar os jogadores da base?
Jair:
Ganhar jogos, isso é igual a qualquer clube. Com relação a base favorece, achei bom porque temos mais paciência com os jovens. De 30 jogadores inscritos para a Copa Libertadores da América, 15 foram formados pelo clube.

UOL Esporte: E a política no Santos, como vê isso? Existe hoje uma divisão dentro do clube, você já notou isso. Como fica para trabalhar?
Jair:
Lembra que falei que quando o jogador faz alguma coisa eu tenho o meu limite? Eu tenho o meu limite, né? Sei até onde eu vou.

UOL Esporte: E o Bruno Henrique?
Jair:
A grande perda da minha chegada. Me deu vontade de chorar, agora (risos). Quando o Santos me procurou pensei: 'vou trabalhar com o Bruno Henrique'. É um jogador que sou apaixonado e perdi ele com oito minutos na estreia. E, até agora, nada. As pessoas não vão esperar ele voltar para me cobrar. Aqui é o Santos, mas faz muita falta.

UOL Esporte: Você também não pode cobrar essa volta?
Jair:
Não posso, pois é uma lesão raríssima. Não temos parâmetro para saber como está, como funciona, o que pode fazer ou o que não pode. Precisamos ter paciência.

UOL Esporte: Mas a posição dele está garantida, então?
Jair:
Aí é você que está dizendo. Depende do treinador, não é? Todos têm chances comigo. Me perguntou como eu ganho o grupo? Como me respeitam? Assim, pelo que eu falo. Como vou falar aqui que meu jogador é titular absoluto? E o outro? Já fui jogador e se ouvisse pensaria: 'vou ficar aqui completando treino?". Todos têm a mesma chance.

UOL Esporte: Sobre a polêmica entre o Diego Aguirre e o Fabio Carille na semifinal do Paulista. Como seria a sua postura?
Jair:
Eu falo sempre [com o treinador adversário] quando sou mandante, mas já fui visitante e os treinadores não falaram comigo. Paciência. Vou obrigá-los a falar comigo? Mas eu falo, gosto de falar. Cada um tem o seu método. Se eu passar em frente ao banco, vou falar. Mas se eu for visitante não vou até o banco adversário falar, entendeu? Não muda nada o fato de ser estrangeiro.

UOL Esporte: Você deu uma declaração marcante sobre os técnicos estrangeiros, por sinal. O que quis dizer na ocasião?
Jair:
Quis dizer que o brasileiro não pode sair [para trabalhar] por conta de uma licença. Licença essa que os argentinos e sul-americanos tem direito, que o curso da Uefa dá para eles trabalharem em todo o mundo, mas o nosso, brasileiro, não dá. É o ir e vir, eles podem vir, mas nós não podemos ir. Só queria os mesmos direitos, nada contra os estrangeiros. A minha mãe é polonesa, o meu capitão no Botafogo era o Joel Carli, o jogador que mais jogou comigo aqui foi o Vecchio. Não há xenofobia, só queria os mesmos direitos de poder trabalhar. Eu quero abrir o meu mercado para trabalhar. Por que não posso trabalhar fora e os treinadores estrangeiros podem trabalhar aqui? Só queria igualdade.

UOL Esporte: A Europa, então, é um projeto que você tem?
Jair:
Não, o meu projeto é o Santos. Quero fazer história e ficar o maior tempo possível, como no Botafogo. Quero fazer história por onde eu passar, não tenho pressa. Não posso pensar em Europa trabalhando no Santos. Estou no Santos, vou pensar em Europa? De jeito nenhum, nem passa pela minha cabeça. O que passa é o Estudiantes, agora, e fazer o meu melhor. Quero aproveitar cada minuto, cada jogo e cada jogo é o mais importante.

UOL Esporte: Como que é a conversa com o seu pai? É um encontro da velha guarda do futebol com a nova geração de treinadores?
Jair:
Imagine se eles tivessem essa tecnologia? Essa parte física? Eu e o meu pai nos vemos muito pouco e temos um acordo desde que virei treinador. Todas as vezes que nos encontramos não falamos de futebol. Falamos do PIB, do que está acontecendo na América, mas não de futebol. Nós vivemos no futebol, ele é o cara que vive isso desde que nasceu. Imagine chegar em uma mesa e ficarmos falando de 4-4-2, que tem que jogar fulano... a gente se curte, curte cada momento. Dá certo desde que assumi em 2016. Nos falamos pouco, infelizmente, até gostaria de estar mais com ele.

UOL Esporte; E já precisou de algum conselho dele como treinador? E com o Pelé, como é a relação?
Jair:
Não, ainda não. Com o Pelé gravei um comercial para a Copa de 2002. Eu fazia um gol de bicicleta. Era como se o Pelé estivesse em casa, como treinador. Na época coloquei as minhas fotos com um amigo que tinha uma empresa e fui escolhido o perfil do jogador. Queriam um boa pinta como eu, que soubesse jogar bola. Depois, ele me deu as boas-vindas. A diretoria deseja trazer o meu pai e o Pelé.

UOL Esporte: Qual a maior dificuldade na carreira como treinador? Quando você imaginou que não ia dar?
Jair:
Como treinador? Sou um privilegiado, a minha maior crise foi a pressão para classificar para a Libertadores, ainda não passei um momento ruim. No início foi melhor, venci no meu jogo de estreia no Morumbi. Tiro o time da zona de rebaixamento, na 17ª colocação, e deixo em 5º com o orçamento de Série B.

UOL Esporte: Você sempre quis ser técnico?
Jair:
Desde 2005, quando fiz o meu primeiro curso para treinador.

UOL Esporte: Como jogador a luta foi muito maior?
Jair:
Eu fui um operário. Acho que Deus está me abençoando hoje de tanto que sofri para ser jogador, corri errado demais. Joguei dois anos no Gabão. Fui jogar no Gabão, o meu pai era treinador da seleção, estava sem clube, fiquei treinando na seleção deles. Daí veio um presidente perguntou por que eu não jogava ali, falou de naturalizar, jogar a Copa do Mundo. Fiquei dois anos jogando lá. No primeiro jogo concentramos em uma casa abandonada na África. A concentração era uma sala gigante com colchonetes e dois ventiladores para um calor que você nem imagina. Daqui a pouco senti vontade de ir ao banheiro, me falaram que era em baixo. O banheiro era um buraco. Me perguntei: 'onde eu estou'. O jogo era a noite, 7 horas da manhã o treinador me acorda para fazer uma movimentação ofensiva. Isso me deu experiência, aprendi a falar francês. Morei fora muitos anos, com 16 anos fui para a Holanda fazer testa no PSV. Eu tinha tudo para dar certo, mas quando chegava perto não dava.

UOL Esporte: E a sua relação com o Tite? Vocês trabalharam juntos no Caxias?
Jair:
Ele foi o meu treinador no Caxias, me mandou embora. Falei para ele que arrumou um adversário, tinha que ter deixado eu seguir. Lá fiz um período de experiência, fui reprovado em tudo o que é lugar. E ele foi campeão esse ano, em 2000, depois foi para o Grêmio. Foi legal, já vi que ele era diferente, gostei muito. Na minha situação ruim não coloco a culpa nos outros. Eu não fui suficiente. Não me sinto injustiçado, só não consegui. O Tite já mandava marcar os laterais, era um gestor diferente. Não fico com raiva. Depois ainda joguei no Mesquista, no Rio de Janeiro. Depois do Gabão falei chega. Meu pai já me mandava estudar há anos. Entrei na faculdade com 26 anos. Estagiei no América-RJ, em Edson Passos. Depois no Madureira, cheguei no Botafogo como estagiário. Pega bola, cones, de vez em quando alongava os jogadores e já ficava feliz. Eu sempre gostei da área tática, uma entrada no futebol era a educação física. Eu pensei em ser preparador físico, mas o meu sonho sempre foi ser treinador.

UOL Esporte: Algum treinador te marcou nesse período?
Jair:
Um pouco de cada, não tem como ter uma só referência. Eu falei que o meu trabalho no Botafogo se assemelhava ao do Simeone, nunca é o meu espelho. Espelho só o meu pai, como caráter, homem e ser humano. Como treinador não tenho. No campo, como jogador, eu tive o Ronaldo Fenômeno.

UOL Esporte: Tem algum trabalho com a base para que siga uma filosofia semelhante a sua?
Jair:
Isso é uma utopia. Há na Europa, mas como posso implementar o meu modelo de jogo na base sendo que eu mesmo posso mudar? Eu mudei recentemente. No Botafogo, eu jogava no 4-3-2-1 e o treinador do sub-20 no 4-4-2 e quando os jogadores subiram me disseram: 'nesse sistema eu não sei jogar'. Então, é legal que passem pelos mais diversos sistemas de jogo, assim não engessamos o cara. O Manchester United só joga no 4-3-3, mas só contrata jogadores com características para se encaixar nesse sistema. Quem é o 10 hoje do Barcelona? Não tem. O do Brasil? Não tem. O Paulinho está dentro da área mais do que todos. Era assim com o Elias, com o Bruno Silva comigo. Esses caras estão acabando com o cara do último passe.

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