Ao fazer 18 anos, DJ Ronald encara seu grande medo: falar em público

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

  • Thiago Duran/Divulgação

Quando o DJ sobe ao palco, parece não dar atenção ao universo girando em volta dele. Na casa noturna de pé direito alto em um bairro rico de São Paulo, o sábado vive sua última hora. Jatos de luz refletem em um flamingo pintado na parede; o cheiro de vodka e energético se desprende no ar. Amigas com a cabeça ornada por chifres vermelhos abraçam uma noiva em sua despedida de solteira. Um bêbado aborda mulheres desacompanhadas, trançando as pernas e sendo enxotado. Um casal se beija como se o mundo fosse acabar amanhã.

Alheio a isso, o DJ espeta seu pen drive na mesa de som. A música que ele escolheu por volta das 9h30 da manhã, quando acordou, preenche o ambiente com uma melodia cheia de tuntz tuntz tuntz. O público estica o pescoço para ver melhor. O DJ veste camiseta preta, tem barba falha na altura das bochechas e o tênis inteiramente negro, no estilo levemente militar. Sua calça jeans alguns números mais larga deixa ver um palmo da cueca branca, e ele precisa puxar a calça para cima enquanto aperta o fone de ouvido entre a orelha e o ombro.

Olhando de longe, o DJ parece um adolescente comum. O que ele não é.

Uma moça de blusa e saia justas sobe ao palco. "Como é seu nome?", pergunta ela, chifres de plástico piscando na cabeça.

O DJ responde, sem tirar os olhos e os dedos da mesa de som.

"Ronald?", devolve a moça, os olhos esbugalhados, os dedos apertados em volta de um copo de bebida transparente. "O Ronald?"

O Ronald

Nós conhecemos Ronald Domingues Lima, o Ronald, desde que ele nasceu. Filho dos ex-jogadores Ronaldo e Milene Domingues, ele é provavelmente – ao lado do palhaço Ronald McDonald – o único Ronald que conhecemos. Estamos acostumados a vê-lo como o primogênito de um dos maiores jogadores de futebol da história e uma das pioneiras do futebol feminino no Brasil. Mas o herdeiro de uma realeza do futebol agora quer ser conhecido apenas como Ronald, o DJ.

Ao longo da noite, abordado no palco para fotos, beijos e abraços, ele vai dar um jeito de gentilmente driblar o assédio e se concentrar na sua missão: tocar a melhor música que aquelas pessoas merecem ouvir. Muita gente acha que o DJ é o cara que está ali apenas para apertar o botão de play e manejar a alavanca do volume. Mas Ronald sabe que ser DJ é mais que isso.

Reprodução/Instagram @ronald_lima

Aos 17 anos, ele é visto por outros profissionais não como uma celebridade que "ataca" de DJ na balada. Ele é visto como um colega.

"Dá para ver que ele sabe o que está fazendo", me diz um dos outros DJs da noite.

As férias em Ibiza

Ronald começou a discotecar aos 14 anos, depois de conhecer a música eletrônica nas férias com o Pai em Ibiza. Ao voltar ao Brasil passou tardes e noites ensaiando viradas, truques e técnicas para levantar o público em uma festa. "Minha mãe entrava no meu quarto e me encontrava ali sentado com os fones no ouvido por horas", disse ele antes de subir ao palco. "Ela fazia as coisas que tinha que fazer e eu nem via, tão concentrado que estava, estudando."

Amauri Nehn/Brazil News

Se você perguntar, ele vai dizer que entrou nessa pela adrenalina que toma seu corpo quando seu som invade a pista. Em sua primeira apresentação tocou para três mil adultos, e ali percebeu que perseguiria aquela carreira. E logo descobriu do que se trata o trabalho de DJ. O trabalho de um DJ tem, obviamente, tudo a ver com som, mas também tem tudo a ver com silêncio.

A melhor coisa que pode acontecer a um DJ, me conta Ronald, é quando ele baixa todo o volume de uma música e o público, que está tão empolgado (ou na vibe, como ele diz) leva a canção por conta própria, à capela. A capela é a prova da comunhão entre DJ e público. É como em uma experiência religiosa, como quando um padre diz O Senhor esteja convosco, e os fiéis respondem Ele está no meio de nós.

No meio deles, Ronald sabe que para chegar nesse estado de pura sincronia, ele precisa estar muito atento ao que acontece na pista. Um passo em falso e o silêncio se instala pesado como em uma catedral abandonada. Imagine o constrangimento na balada quando o DJ baixa o volume no momento errado e ninguém canta!

Vitor Milanez/Divulgação

"Acontece", ele me disse. "Já aconteceu comigo. É melhor não acontecer. Mas acontece."

Mas essa não é a pior coisa que pode acontecer a um DJ.

A Pior Coisa Que Pode Acontecer A Um DJ

A apresentação de Ronald estava saindo conforme o esperado quando, de repente, não estava.

Entre uma música e outra algo aconteceu no equipamento e o som acabou, graças a uma falha do software na leitura de seu pen drive. Ronald dedilhava a mesa de som à procura de uma solução, o corpo curvado para frente, as mãos tateando a máquina. A pane inundou a casa noturna de um silêncio constrangedor. As vozes indistintas subiram de tom, se chocando em desencontro. De uma hora para outra, a festa que estava tão animada tinha se transformado em uma reunião de condomínio.

"Porra, Ronald!", atacou um homem. "Bota esse som aí!"

Não correram mais que um punhado de minutos até que a música voltasse. Ronald também não demorou para se recompor e logo já estava de volta ao plano inicial. Sua playlist alternava música pouco conhecidas com sucessos pop remixados. Quando ele achou que já era hora, quando ele percebeu que já tinha levado o público ao nível de vibe que ele gosta, Ronald jogou na mesa uma de suas cartas preferidas.

Thiago Duran/Divulgação

A voz da espanhola Cecilia Krull saiu das caixas de som misturada a notas de piano e uma batida agitada. Quando "My Life is Going On", trilha de abertura da popular série "La Casa de Papel", chegou a seu refrão, o DJ virou a alavanca do volume e teve que esperar apenas uma fração de segundo antes que o melhor momento da noite acontecesse:

"I don't care at all", cantou um coro de vozes harmônicas, a de Ronald entre elas.

"I don't care at aaaalllll..."

Ele seguiu dançando, cantando e interagindo com público durante o resto da canção. Eu não dou a mínima.

A experiência à capela se repetiu ainda algumas outras vezes, em versões eletrônicas de sucessos da MPB e do funk brasileiro. Quando Ronald desceu do palco, ele parecia exultante, satisfeito com o sucesso da apresentação.

O que ele não se vê capaz de fazer

Tudo que sabe sobre ser DJ ele aprendeu vendo tutoriais técnicos no Youtube, além de apresentações dos seus ídolos na música, como os DJs Alok e Vintage Culture. Mas tem uma coisa que esses profissionais fazem que até hoje ele nunca conseguiu fazer. Os melhores DJs costumam pegar o microfone e, no meio das músicas, falar com o público, tentando estabelecer uma conexão mais pessoal.

Ronald gostaria de ser assim também. Mas ele sofre de uma timidez acachapante desde o início da adolescência, e parece incapaz de pegar um microfone para falar à coletividade.

Amauri Nehn/Brazil News

Sua mãe Milene acredita que sua timidez tenha relação com o fato de que o garoto cresceu com pouco contato com outras crianças. "Eu sempre fui do futebol, e em um esporte coletivo, você não pode ser tímido", me disse ela quando conversamos sobre o filho. "Mas o Ronald foi diferente. A gente morou muito tempo na Europa e lá éramos apenas nós dois. Acho que por isso ele ficou uma pessoa mais reservada."

Nas primeiras apresentações, ele costumava se esconder atrás de um boné e evitava fazer contato visual com as pessoas. Com o tempo, acabou se soltando mais. Mas ele sabe que para ser um DJ completo precisa dar um passo adiante. "Um dia vou ter que vencer isso, pegar o microfone e falar", disse ele naquele sábado.

E esse dia já estava marcado: 5 de abril, dali a duas semanas, quando seus amigos e parentes lhe fariam uma grande festa para comemorar seus 18 anos.

A festa

Ronald voltou à mesma casa noturna no banco de trás de um Mercedes conversível prateado. Posou para fotos na entrada, abraçou os amigos. Tomou um shot de tequila, fez careta, circulou pela balada cumprimentando conhecidos e desconhecidos. Se disse muito empolgado por finalmente chegar à maioridade.

Quando seu nome foi anunciado, subiu mais uma vez ao palco, ficou de frente para a mesa de som, mas não tocou nela. Sorriu quando descobriu que um vídeo seria projetado na parede.

Na parede, ele viu sua mãe chamando-o de "meu anjo" e sua namorada de "príncipe". Viu seu pai mostrando o crânio de uma caveira verde que ele costumava temer quando era menor. Viu um amigo mostrando a credencial de um de seus primeiros shows, quando ser DJ profissional ainda parecia um sonho distante. Viu seu padrasto recomendando que ele sempre "honre seu pai, sua mãe, sua família e seus amigos."

No meio de tudo isso, ele precisou levar os dedos ao rosto para limpar as lágrimas que começaram a escorrer. E no final, quando a parede da balada deixou de refletir o rosto das pessoas que ele mais amava, o DJ sentiu o silêncio mais uma vez e percebeu que tinha chegado àquele momento que ele tanto temia.

O microfone o observava enorme ao lado da mesa de som.

Ronald o segurou e o aproximou da boca. Finalmente falou, ainda com os olhos inchados:

"Quem me conhece sabe que eu odeio isso aqui", disse ele mostrando o microfone e se inchando de coragem. "Esse é um dia muito especial pra mim. É um dia que eu vou levar pro resto da vida. Queria agradecer a presença de todos aqui. Queria que vocês..."

[Gritos]

"Queria que vocês entendessem o quanto isso é importante pra mim. Eu vou lembra de cada um de vocês, 10, 20, 30, 40 anos daqui."

[Lindôôô!]

"Sempre vou lembrar de vocês aqui para celebrar a minha independência, a minha chegada na maioridade. E cara..."

[Silêncio]

"Eu queria agradecer a todo mundo envolvido em fazer esse vídeo que me deixou sem chão. Na metade do vídeo eu já estava chorando. E realmente hoje está sendo uma noite de muitas e muitas emoções. E eu só tenho vocês a agradecer, só tenho vocês a agradecer mesmo."

[Urros] Uhuuu!

Quebra tudo, Ronald!

"E agora eu quero saber..."

"Quem quer música eletrônica?"

Uuuhhll! Uhuuull!

[Tuntz tuntz tuntz]

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