Cabeças treinadas: Corinthians estimula força mental para suportar a hora H

Dassler Marques e Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

  • Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians

    Rodriguinho comemora, Lucas Lima lamenta: preparo para decisão

    Rodriguinho comemora, Lucas Lima lamenta: preparo para decisão

Em seu smartphone, Fábio Carille carrega um vídeo com o gol marcado por Rodriguinho contra o Palmeiras, domingo, no Allianz Parque. Os movimentos errados de Marcos Rocha e principalmente Antônio Carlos, zagueiro formado no clube, se tornaram exemplo (.do que não pode se fazer) para a comissão técnica do Corinthians. Desconcentrado, a 1 minuto do dérbi, Antônio deixa a defesa para perseguir Sidcley, e depois Mateus Vital, e o efeito vem em cascata: o meia ganha a jogada e serve Rodriguinho, no espaço deixado pelo defensor rival, para o gol que se tornaria crucial. 

A concentração e a força mental, aspectos normalmente relegados a segundo plano na análise do esporte, são parte dos mantras que guiam o Corinthians a conquistas dentro da trilogia Mano Menezes, Tite e Fábio Carille dos últimos 11 anos. Tomadas de decisão tão equivocadas, como as de Antônio Carlos e Marcos Rocha no gol do dérbi, raramente ocorrem em um time treinado e preparado para ser mentalmente rígido em todas as etapas do jogo, o que permitiu três reviravoltas nos jogos eliminatórios do Paulista e, já no mesmo clássico de domingo, ter força para segurar a vantagem na casa do rival. 

Entre os jogadores, as respostas sobre o que estimula tanta concentração normalmente direcionam para o CT Joaquim Grava. Os treinamentos do Corinthians são disputados em alto nível de intensidade, de maneira séria, e tentam reproduzir cada detalhe do que vai acontecer nos jogos. "É o nosso dia a dia", explica o goleiro Walter, um dos mais antigos do elenco, com seis temporadas de casa. "A cobrança nos trabalhos é muito grande. Se cobra, se briga e xinga, faz parte, mas aqui fora temos uma amizade muito grande", explica. 

Esse tipo de tema, explica Walter, é frequente no contato dos atletas. "Depois do primeiro jogo, que perdemos em casa, conversei no Whatsapp com o Balbuena e dissemos: 'Vamos ganhar lá dentro. É concentrar e trabalhar bem'. Acabou sendo assim, com concentração nos treinamentos, sem brincadeira, porque o jogo seria difícil. Sabemos sofrer muito, e mesmo pressionados fomos pouco ameaçados e o Cássio fez poucas defesas no jogo", analisou o goleiro. 

No treinamento, a regra já é não incomodar o árbitro Carille

Daniel Augusto Jr. / Ag. Corinthians
Treinamentos são a origem de tudo e reproduzem o que vai ocorrer nos jogos

Exceção feita ao lance mais polêmico do dérbi, quando jogadores corintianos foram para cima do árbitro Marcelo Aparecido e pressionaram para que o pênalti em Ralf fosse revisto, são poucas ou raras as reclamações do time de Fábio Carille para a arbitragem. Um cenário diferente do rival Palmeiras, que teve em seu capitão Dudu um dos 'pilhados' a cada jogada assinalada. Balbuena, um dos capitães corintianos, explica que isso também vem do dia a dia. 

"A parte mental também é trabalho. A gente é repetitivo nessa questão da parte mental em treino e jogo. Vou te dar um exemplo: em treinos, o Fábio atua de juiz e a gente, mesmo sem concordar e querendo reclamar de decisão dele, já começa a treinar de não ligar para essas decisões e se preparar para situações que podem ocorrer no jogo. Tentamos não perder o foco e manter a concentração alta para não sair do [foco no] jogo", definiu o paraguaio. 

A concentração para evitar o aborrecimento com a arbitragem é algo praticado há muito tempo no Corinthians. Como tudo no futebol e na vida, não é infalível, o que remonta às últimas eliminações na Copa Libertadores e Sul-Americana, contra Guaraní-PAR, Nacional-URU e Racing-ARG, sempre com expulsões. Mas, muitas vezes, dá certo: quem não se lembra do colorado D'Alessandro, em final de Copa do Brasil, em perseguição com socos a William Capita, que observava de forma passiva e inteligente à agressividade do rival expulso? Ou o duelo Sheik x Caruzzo na final da Libertadores 2012? 

Tite, em especial, ajudou a disseminar essa mentalidade em que os fatores externos [arbitragem, torcida, imprensa...] precisam efetivamente ficar do lado de fora e não interferir. Um fator fundamental para manter Danilo há tanto tempo no clube é justamente esse alto poder de concentração, que fazia com que o hoje treinador da seleção o classificasse como "gelo". Hoje, o trabalho de Tite na seleção é reduzir a ansiedade - e os cartões - de Neymar, seu craque, com os mesmos argumentos dos tempos de Parque São Jorge. 

Cássio, outro dos mais experientes, acredita em transmissão de filosofia. "É um amadurecimento. Se consegue manter os jogadores, o grupo, cabe a nós jogadores mais velhos chegar nos mais novos e falar como funciona aqui. E da diretoria, que tem contratado jogadores que são comprometidos com o Corinthians dentro e fora do campo", definiu o goleiro, que parou quatro de 11 penalidades nas finais. 

Como fazer no pênalti decisivo? Maycon se lembrou do Sub-17

Miguel Schincariol/Getty Images
Mais jovem da disputa por pênaltis, Maycon fez a cobrança do título

Período de maior dramaticidade da decisão, a disputa por pênaltis terminou nos pés daquele que era o mais jovem jogador a completar os 90 minutos da final. O Corinthians havia tido três chances seguidas de carimbar o título, mas o erro de Fagner e os acertos de Marcos Rocha e Moisés fizeram com que Maycon se tornasse o encarregado de fechar a série. Aparentemente tranquilo, ele bateu sem qualquer chance para Jaílson. 

Notadamente um jogador concentrado e que tem a regularidade como virtude, ele explica que isso se construiu há muito tempo. "Eu sempre trabalho concentração, desde a época que um treinador que tive no sub-17, Rodrigo Leitão, me ajudou bastante. Ele é um grande treinador e falava muito de concentração, de que manter foco nos deixaria perto de títulos. Fico feliz por minha regularidade. Fico feliz por ter feito, fui tranquilo do que iria fazer, estava claro o que iria fazer", contou Maycon. 

Quando partiu para a bola, já era claro na cabeça dele: o que havia sido treinado e como ele deveria cobrar. "Como o Cássio estuda a forma dos adversários baterem, eles nos estudam. Perdi contra o Inter [na Copa do Brasil 2017], bati forte contra o São Paulo e concluí dessa vez. Ele [Jaílson] saiu muito forte antes de eu chegar na bola, imaginando que eu iria bater forte. Dessa forma que bati, poderia aumentar minha possibilidade e por isso treinei a semana assim", descreveu o jovem, sempre visto na base do clube como atleta preocupado com correções, auto-desenvolvimento e com grande nível de concentração. O sucesso, no caso dele, já veio do berço. 

Receba notícias pelo Facebook Messenger

Quer receber notícias de esporte de graça pelo Facebook Messenger?
Clique aqui e siga as instruções.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos