Neto relembra desilusão que o fez trocar o Corinthians pelo Millonarios

Fábio Piperno

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Antônio Gaudério/Folhapress

O confronto entre Corinthians e Millonarios nesta quinta-feira será especial para um dos maiores ídolos da história do time brasileiro. No segundo semestre de 1993, o meia Neto trocou a equipe alvinegra pelo tradicional time de Bogotá. Único jogador do Brasil a ter vestido as duas camisas, o comentarista da Band admite, 25 anos depois, que aceitou a transferência porque não teria como trabalhar com Mario Sérgio, o técnico que o Corinthians havia acabado de contratar.

Em 1990, Neto liderou a equipe na inédita conquista de um título brasileiro pelo alvinegro. Com gols e atuações decisivas, foi alçado à condição de maior ídolo corintiano daquela geração. Mas o prestígio de craque intocável começou a ruir após a perda do título estadual de 1993 para o Palmeiras. Pouco depois, o técnico Nelsinho Batista, comandante corintiano em 1990, deixou o clube. Para surpresa de todos, o substituto foi o ex-jogador e então comentarista de futebol, Mario Sérgio, de quem Neto era desafeto. "Fiquei muito desiludido com o Corinthians quando ele chegou. Queriam me mandar embora. A nova comissão técnica e os que mandavam na época estavam loucos para que eu saísse. Então, já que não me queriam mais, resolvi ir para outro lugar. Foi quando surgiu a proposta do Millonarios", lembra o ex-jogador.

Como analista de emissoras de televisão, Mario Sérgio era um crítico rigoroso da forma de Neto jogar. Ele considerava o meia um jogador de talento, mas de pouca mobilidade. Um dos mais célebres momentos das ressalvas do comentarista ao futebol do craque corintiano ocorreu no confronto de volta pelas quartas de finais do Campeonato Brasileiro de 1990.

No Pacaembu, o Corinthians perdia para o Atlético Mineiro por 1 a 0, resultado que eliminava o time paulista. Aos 30 minutos do segundo tempo, logo após ser criticado por "participar pouco do jogo", Neto aproveitou cruzamento feito da direita e empatou o jogo. Cerca de 10 minutos depois, marcou o gol da virada. Com o resultado, o Corinthians se classificou para a semifinal contra o Bahia. Em seguida, derrotou o São Paulo na decisão. Neto foi considerado o melhor jogador do campeonato, tornou-se ídolo dos torcedores, mas nem assim escapou de ser poupado pelo comentarista.

Poucos dias após a chegada do novo técnico e antevendo problemas, Neto fechou com o time colombiano. Além da relação de incompatibilidade que provavelmente encararia sob o comando de Mario Sérgio, também pesou na decisão o boom do futebol colombiano naquele período. Na época, o prestígio da seleção local havia disparado por conta da antológica goleada de 5 a 0 sobre a Argentina, em Buenos Aires, resultado que catapultou o país ao seleto grupo dos favoritos para a Copa do Mundo de 1994.

Jorge Araújo/Folhapress

Um dos maiores ídolos do futebol colombiano era Carlos Valderrama, que Neto enfrentou quando o Millos, como o time da capital é chamado pelos torcedores, jogou contra o Junior de Barranquilla. O ex-corintiano também se recorda de um jogo contra o Nacional de Medellin, quando o Millonarios venceu empurrado por cerca de 70 mil torcedores.

O jogador permaneceu na Colômbia por cerca de seis meses. Atuou poucas vezes. Nos nove jogos que disputou com a camisa alviceleste, Neto diz ter marcado cinco gols. Todos de falta. "O futebol colombiano estava muito forte e o meu time era um Corinthians da Colômbia. Fui muito bem tratado e tenho as melhores recordações".

Apesar das boas lembranças, o craque diz que hoje não repetiria a opção por sair do Corinthians. "Para mim foi muito bom ter jogado lá. Respirei um ar diferente e aprendi mais sobre outro país. Mas deveria ter ficado no Corinthians e brigado. Se tivesse feito isso, teria disputado a Copa de 1994".

Na Colômbia, Neto disse que a vida era boa. Em pouco tempo, ficou amigo do cantor Carlos Vives, ícone da cumbia e ídolo em vários países da América Latina. O músico teria sido um dos maiores incentivadores de uma jovem cantora que começava a fazer sucesso na época. O nome dela era Shakira. "Ela era bem novinha. Estava começando. Meu irmão que morava comigo chegou a conhecê-la".

Neto admite que foi mais ativo na vida noturna de Bogotá do que em campo, a despeito da guerra contra os carteis do narcotráfico que o país travava. "O presidente do meu time era um baixinho traficante", lembra o ex-jogador. O choque de realidade para o brasileiro ocorreu em uma saída para um shopping center. Quando chegou em frente ao local, o carro parou sem entrar no estacionamento. Neto ficou então sabendo que era comum no país o uso de táxis-bombas para promover atentados. Por isso, a entrada dos veículos nos centros de compras era proibida por lei.

Na história, o Millonarios teve como grande craque e artilheiro o argentino Alfredo di Stefano, que em 1954 saiu de lá para brilhar no futebol espanhol. Desde então, o clube se tornou o mais popular do país. "É óbvio que vou torcer para o Corinthians na quinta-feira. Mas tenho paixão pelo Millonarios", admite Neto.

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