Ex-engraxate, ele fez relógio da Copa e pode assumir marketing do Cruzeiro

Thiago Fernandes

Do UOL, em Belo Horizonte

  • Divulgação/Cruzeiro

    Renê Salviano é diretor de Novos Negócios e Negócios Internacionais do Cruzeiro há três meses

    Renê Salviano é diretor de Novos Negócios e Negócios Internacionais do Cruzeiro há três meses

O Cruzeiro criou uma pasta de novos negócios e negócios internacionais há cerca de três meses e a entregou para um nome conhecido no mercado do futebol. Ex-agente Fifa, o cruzeirense Renê Salviano é quem toma conta desta área no clube. O profissional agora pode deixá-la para assumir o marketing, que não conta mais com Bernardo Pontes desde essa quinta-feira.

Mas quem é este mineiro que recebeu a chance de integrar a diretoria do time de coração? Empresário de futebol por quase dez anos (2007 a 2016), ele relembra as dificuldades que enfrentou. 

"Perdi meu pai muito cedo, tinha quatro anos. Morei com minha mãe e três irmãos em uma casa de 40 metros quadrados, num ambiente propício para coisas erradas. A gente comia arroz, arroz e ovo, ou arroz e farinha. Tive que trabalhar muito cedo. Com sete anos de idade, eu já estava na rua. Vendi bala, picolé, cartão de natal, engraxei sapato, fui do trenzinho da alegria... Até brinco com o Raposão que já fui Mickey. Essa época, eu acho que foi a mais importante da minha vida", disse o diretor ao UOL Esporte.

Renê conta que sonhou em ser jogador, mas não teve uma trajetória bem-sucedida dentro dos gramados. "Eu tinha uma vontade, joguei futsal, mas sempre trabalhei muito e não deu. Não tinha qualidade para ser jogador profissional", declarou.

A falta de trato com a bola nos pés fez com que Renê adotasse um novo caminho profissional. Formado em Administração de Empresas, passou a atuar em agências de publicidade, se especializando nas áreas de marketing e comercial.

Anos antes da Copa do Mundo, deu um susto em Thierry Weil, diretor de marketing da entidade, e desenvolveu um marco para o torneio na capital mineira. Ele foi responsável pelo Relógio da Copa, instalado na Praça da Liberdade e que fazia a contagem regressiva para o início da competição, realizada no país em 2014. O evento para a inauguração, ocorrido em 2011, contou com a presença até da então presidente Dilma Rousseff (PT).

"Criei o relógio de Copa do Mundo na Praça da Liberdade. Criei a ideia, fui à Prefeitura de Belo Horizonte e ao Governo de Minas Gerais. Eles não tinham dinheiro para pagar. Peguei o desenho do relógio, fui à Coca-Cola e vendi ao vice-presidente da Coca a ideia. E o relógio ficou três anos ali. Eu lembro que o diretor de marketing da Fifa brincou comigo que quase perdeu o emprego dele. Veio todo mundo para a inauguração do relógio e foi um projetaço", contou.

Apaixonado por esportes e sempre envolvido com a área no trabalho, decidiu dar um passo mais ousado na carreira. Criou uma empresa de agenciamento esportivo - a Meio di Campo - em 2007. Trabalhou com jogadores como Daniel Morais, do Náutico, Bruno Tabata, tido como o novo Bernard no Portimonense, de Portugal, e Nonoca, que pertence ao Cruzeiro e está emprestado ao Sport. Porém, decidiu deixar a área após a mudança no regulamento da Fifa.

Em maio de 2015, o órgão que regulamenta o esporte em âmbito internacional vetou a presença de investidores e proibiu que agentes tivessem direitos econômicos de atletas. O fato tirou o brilho dos olhos de Renê.

Preocupado com a nova regulamentação do mercado, o então representante de jogadores de futebol optou por um novo caminho. Passou a estudar com o intuito de trabalhar em um clube de futebol. Entre 2015 e 2017, estudou gestão esportiva na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e se especializou em outras áreas, como direito desportivo e formação de atletas.

"A mudança de lei me fez mudar de ideia. Antes, os agentes poderiam ter direitos econômicos sobre o jogador. E quando muda isso, eu sempre gostei de trabalhar dentro da formalidade. Eu pensei: "preciso trabalhar dentro da formalidade". Conheço poucos profissionais do mercado brasileiro que tenha noção de marketing, contrato, comercial e ande em todos os territórios. Eu fiquei dois anos trabalhando e me preparando para essa transição, tanto que, no ano passado, nem atuei como agente Fifa", disse.

Divulgação/Cruzeiro

No início de 2018, recebeu convite para se tornar dirigente remunerado do Cruzeiro. Teve que abdicar da condição de conselheiro do clube para assumir o novo cargo. Mas não teve problemas, já que poderia ajudar o clube do coração.

"Eu tenho uma foto ao lado do meu pai do período em que eu tinha três, quatro anos, com a camisa do Cruzeiro. Quando pequeno, fui ao jogo com ele. Eu não lembro disso, mas sempre fui ao campo e aos jogos. De 100% dos jogos do clube no Mineirão, eu fui a pelo menos 60%. Aliás, 61% (risos). Agora não tem como nem mensurar. Você torce para um clube e trabalha nele? Não tem como explicar", afirmou.

Há quase três meses no clube, Renê tenta mudar algumas diretrizes. Mas o primeiro passo é explicar o que faz no cargo, não tão conhecido pelo torcedor.

"Hoje, eu tenho a diretoria de novos negócios, de projetos incentivados e de negócios internacionais. Eu fiz a reformulação de todas as escolinhas licenciadas do Cruzeiro. Penso sempre na marca fortalecida. Quanto maior o número de escolinhas, é melhor. Não só captar jogador, mas prestar o bem à sociedade. Falamos da questão da violência, do combate ao racismo... Nos projetos incentivados, a gente está criando um banco de dados para captar doadores. Vai ser usado para o resto da vida. Vamos conversar com patrocinadores, entender o que eles querem. Nós temos 150 atletas na base e vários não vão ser atletas. A ideia é pensar o que ele será se não for jogador", explicou.

"Como a área internacional pode ajudar mais? Posso criar uma rede de relacionamento para auxiliar na venda de atletas da base e até do profissional. Vamos buscar o que o clube necessita e trazer para dentro do Cruzeiro. Se o clube é da Segunda Divisão do Japão, já sei qual o perfil do jogador. Temos que nos relacionar com essas pessoas e com os clubes. E novos negócios é algo que vive no meu cotidiano por 20 anos. As marcas, hoje, querem experiências novas, ações baratas com viralização dos vídeos, imagens e ações", completou.

O caminho seguido por Renê Salviano, semelhante, por exemplo, ao de Gilmar Rinaldi, que trocou o agenciamento de atletas pelo cargo de coordenador técnico da CBF durante a segunda passagem de Dunga pela seleção, poderia gerar críticas e dúvidas. Mas não foi o que aconteceu. Renê garante que não sofreu com qualquer tipo de problema e explica que o passado como agente só pode beneficá-lo no cargo.

"O fato de eu ter sido agente só tem a contribuir porque eu vivi o outro lado, sei como funciona contrato, sei como funciona a questão do atleta e sei onde ele pode acertar mais. Atuei com clube de fora, tenho uma rede de relação no mundo inteiro. Não consigo enxergar algo que não fosse benéfico para o clube. Eu não tive crítica de ninguém. Eu não contrato jogador, mas posso muito bem dar uma ideia para não perder um", concluiu.

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