Muito chutão e pouca torcida: O que Keno e Valentim vão encontrar no Egito

Lucas Sarti e Pedro Sciola

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

  • Pedro Vale/AGIF

    Keno é um dos brasileiros a seguir para o Pyramids FC, do Egito

    Keno é um dos brasileiros a seguir para o Pyramids FC, do Egito

Nos últimos dias, o até então desconhecido Al Ahram Pyramids FC, clube do Egito, entrou na pauta do mercado da bola ao acertar as contratações de Keno, Ribamar, Carlos Eduardo e Arthur Caike, além do técnico Alberto Valentim. Destino até então improvável para jogadores brasileiros, o futebol do país vive à sombra de confusões de torcidas, público baixo e modelo de jogo baseado em muito "chutão".

Um dos principais nomes do Palmeiras de 2017 para cá, Keno terá dificuldades para mostrar no Egito seus dribles, característica que fez com que ele ganhasse espaço no Alviverde. Quem afirma é John Lennon, meia-atacante do El Daklyeh e único brasileiro a disputar a divisão de elite do Egito na temporada 2017/2018.

"Aqui temos um campeonato muito pegado, de marcação, muita força e chutão. O futebol não é muito técnico. Ele [Keno] é um jogador técnico, que gosta de receber a bola para pegar 'mano a mano'. Isso vai ser complicado, porque a marcação aqui é difícil, ainda mais sabendo que ele é um jogador bom, a marcação dobra", contou Lennon, em entrevista ao UOL Esporte.

O clube de Keno e Valentim é o "novo milionário" do futebol egípcio. O objetivo do clube, comprado recentemente por Turki Al-Sheiky, ministro dos esportes da Arábia Saudita, é formar um elenco que brigue pelo título do campeonato nacional, vencido pelo Al-Ahly nove vezes nas últimas dez edições.

Quem também encontrará dificuldades por conta do estilo truncado do futebol egípcio é o técnico Alberto Valentim. Conhecido por priorizar a posse de bola, o treinador precisará encontrar um jeito de implantar sua filosofia de jogo em uma equipe que, além de ter as raízes do futebol local, ainda está sendo montada pela diretoria.

Thiago Ribeiro/AGIF

Treinador do Botafogo em 2018, Valentim foi responsável por mudar o modelo de jogo do clube carioca, que jogava no erro do adversário com o antigo técnico Jair Ventura. Sob seu comando, a equipe começou a construir jogadas com a bola nos pés e impor o jogo diante de seus adversários. Para buscar protagonismo no Egito, o técnico terá à disposição um elenco formado majoritariamente por jogadores locais. O regulamento da competição nacional permite que cada time tenha quatro atletas estrangeiros no elenco, mas que apenas três entrem em campo ao mesmo tempo. Jogadores de Síria e Palestina não são considerados estrangeiros.

As barreiras que os brasileiros terão de superar não se restringem apenas às quatro linhas. Religião, culinária e costumes são empecilhos para os sul-americanos que moram no Egito. Há um ano vivendo no Cairo, capital do país, John Lennon dá um conselho aos compatriotas: "A dica que vou dar para eles é para vir com bastante feijão. Aqui não conseguimos encontrar", brinca o jogador, que no Brasil atuou por Assisense, Capivariano e Raça Sport Club.

Ao menos, Keno e companhia não terão de lidar com um problema que acompanha Lennon no Egito: a dificuldade de comunicação com os treinadores locais. "No começo foi meio difícil. Os técnicos geralmente passam vídeos ,e os jogadores que falam inglês vão nos explicando o que eles pedem. Eles falam bem pouco. Se o treinador está bravo, você também consegue perceber", contou o jogador do El Daklyeh.

Acostumado com arena lotada nos tempos de Palmeiras, Keno irá encontrar as arquibancadas quase vazias em seu novo clube. Em fevereiro de 2012, 74 pessoas morreram e 254 ficaram feridas no estádio Port Said, na tragédia mais marcante do futebol egípcio. Isso fez com que a federação local proibisse a presença de torcedores nos estádios.

Depois, em 2015, em meio a esforços para que o público voltasse aos estádios, nova confusão ocorrida, dessa vez em partida do Zamalek, 22 pessoas morreram. Desde então, a federação não permite que as partidas da liga recebam grande número de espectadores.

"Depois de Port Said, a Federação liberou, e há três anos morreram mais torcedores. Hoje tem pouca torcida. Está voltando aos poucos. Por enquanto, só uns dois mil torcedores acompanham os jogos", disse John, que afirma não ter visto confusões na temporada 2017/2018.

Solitário, brasileiro sofre com choque de cultura

"Pego o táxi sozinho, vou informando o caminho, às vezes o taxista já me conhece e me leva para o Centro de Treinamento sem falar nada. Volto para casa e fico o dia inteiro lá. Não saio muito, até porque aqui não tem nada para fazer. Para quem é brasileiro, aqui não tem nada. Minha rotina é ir para o treino e voltar para casa". Esse é o dia a dia de John Lennon, brasileiro de 25 anos de idade que atua como meia-atacante do El Daklyeh, da primeira divisão do Egito. Acostumado com o estilo de vida do interior de São Paulo, o jogador com nome de cantor famoso viveu um choque de cultura quando chegou ao Cairo, em 2017.

Morando sozinho em uma sociedade com costumes, língua e valores diferentes, o brasileiro contou sobre sua dificuldade de adaptação à cultura árabe quando chegou ao país: "O estilo de vida é muito difícil. Língua, cultura, comida, tempo... Tudo! É muito difícil. A língua (árabe) é impossível (de aprender)".

Além do ócio e da distância da família, o brasileiro também estranhou outros aspectos: "Aqui é proibido ingerir bebida alcóolica na rua. A religião deles não permite. Fumam muito cigarro, a cultura é de chá e narguilé. Não tem esse negócio de balada, nunca fui. Se tiver, deve ser escondido. São mais caseiros. Ficam em casa, reúnem amigos e comem".

Batizado com nome que presta homenagem ao britânico John Lennon, que fez parte da banda The Beatleso jogador também reclama do fuso-horário complicado e da péssima cobertura de sinal de celular, que atrapalham a comunicação com a famíliaApesar dos problemas já citados e de viver em um país de grande maioria muçulmana, o meia-atacante afirma nunca ter sofrido nenhum tipo de intolerância religiosa. Pelo contrário: seus companheiros de clube até procuram a inclusão do brasileiro.

"A religião deles não atrapalha em nada, não. Eles sempre falam para eu trocar de religião, que 'ser muçulmano é bom'. Nós brincamos muito. Falam para eu orar com eles, mas eu não vou. Eles respeitam muito", declarou.

Quando questionado sobre uma possível indicação do Egito para compatriotas, John Lennon demonstra-se entusiasmado e afirma que gostaria de ver mais brasileiros em campo no Egito.

"É um país tranquilo, gostam muito de jogador de futebol. São carinhosos, jogador não pode sair na rua que os torcedores querem tirar foto, tocar em você para ver se é igual a eles. São gente boa", elogiou.

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