São Paulo com pinta de vencedor à la Muricy? Com Aguirre, não é por acaso

Bruno Grossi

Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Ale Cabral/AGIF

    Técnico uruguaio chegou ao Tricolor em março e rapidamente caiu nas graças da torcida

    Técnico uruguaio chegou ao Tricolor em março e rapidamente caiu nas graças da torcida

Se você vê semelhanças entre o São Paulo de Diego Aguirre e os times do Tricolor comandados por Muricy Ramalho neste século, você não está sozinho. O próprio clube tem reparado - e celebrado - na forma como o uruguaio resgatou princípios e métodos de uma era vitoriosa no Tricolor. E o melhor disso, na cabeça dos dirigentes, é que não se trata de uma mera coincidência. 

Tudo começou quando Aguirre, no início de sua trajetória como treinador no Morumbi, convidou Muricy para jantar. Em uma longa conversa, o atual comandante quis saber das peculiaridades do funcionamento do São Paulo. Do comportamento da torcida à influência de dirigentes, da estrutura às impressões sobre o elenco.

O clube não esteve por trás do encontro, idealizado apenas por Aguirre. Uma atitude que misturou humildade, para ouvir um ícone da história tricolor, mas também perspicácia. O uruguaio sabe que Muricy foi o último técnico a prosperar no São Paulo e que uma aproximação com a que se desenrolou poderia ajudá-lo a encontrar uma fórmula - ou pelo menos elementos dela - para reerguer a equipe.

Os dois passaram a conversar com frequência, e Muricy se sentiu extremamente respeitado e respaldado com a aproximação. No ano passado, já havia feito algo semelhante com Dorival Júnior, com a diferença de que ambos já eram amigos de longa data. O movimento de Aguirre é que chama atenção neste momento. E a ajuda só não é maior porque Muricy ainda tem suas obrigações como comentarista do SporTV.

A sensação no São Paulo é que Aguirre pôde potencializar algumas de suas características que já coincidiam com as que eram apresentadas nos trabalhos de Muricy. Isso passa pela dedicação à defesa nos primeiros jogos, quando foi preciso paciência diante das críticas pela falta de poderio ofensivo.

Aguirre conseguiu colocar em prática planos que nunca saíram do papel nos últimos anos no Tricolor. Ter um time aguerrido - e só isso - já havia sido alcançado por Edgardo Bauza em 2016. No mesmo ano, Ricardo Gomes arrumou o sistema defensivo, mas não foi além. O cobertor andava curto. Agora, o equilíbrio está mais próximo. Basta ver que a equipe não sofreu gols em 12 dos 27 jogos com Aguirre.

Ricardo Nogueira/Folhapress
Muricy Ramalho comemora o título brasileiro de 2008 pelo São Paulo

As semelhanças com os times de Muricy chegam ao desempenho do São Paulo como visitante. Ganhar fora de casa no Campeonato Brasileiro se tornou uma tarefa quase impossível para o clube, tanto é que o aproveitamento atual é o maior desde 2007 (55,5% contra 61,4%), quando Muricy levou o time ao pentacampeonato da Série A. Os números de agora podem melhorar ainda mais neste domingo, às 16h, no confronto com o Sport, no Recife, pela 18ª rodada do Brasileirão.

No geral de uma temporada, o desempenho longe do Morumbi é o maior em quatro anos: 46,9% de 2018 - contando Dorival e o interino André Jardine - contra 50% de 2014. E quem era o técnico na campanha do vice-campeonato? Muricy Ramalho, mais uma vez.

Ter equipes organizadas e aguerridas passou a ser uma obsessão dos torcedores do São Paulo diante dos recentes fracassos do clube, quase sempre agravados por derrotas sem o menor sinal de reação para grandes rivais. Um sentimento que atropela até mesmo o histórico de futebol bem jogado e ofensivo como no "Rolo Compressor" da década de 1940, nos "Menudos" da década de 1980 e, claro, no esquadrão de Telê Santana nos anos 1990.

Essa mudança de rota tem relação com o espírito do elenco campeão da Libertadores e do Mundial em 2005. Ali, apesar de jogadores de técnica conduzirem a equipe no ataque, a imagem que sobrevive é a do "time de guerreiros". Muricy chegou na sequência para alimentar esse estilo batalhador, que na base do "aqui é trabalho, meu filho!" foi tricampeão brasileiro depois de buscar 11 pontos de diferença para o Grêmio em 2008.

Essas duas formas de ver e montar um São Paulo vencedor passam por Muricy. O hoje comentarista, afinal, foi criado na década de 1970 em um grupo que aliava luta e técnica, com Pedro Rocha, Pablo Forlán e Serginho Chulapa. Depois, como auxiliar, viveu os espetáculos de Telê de perto. Poucos, então, conhecem as formas de prosperar no clube como ele.

Em meio ao jejum de dez anos sem um título nacional, calejado pelas apostas de jogo ofensivo que não vingaram, como Juan Carlos Osorio e Rogério Ceni, Aguirre optou pelo caminho que estava mais a seu alcance. Neste contexto, encontrou em Muricy um bom conselheiro.

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