Ídolos em necessidade financeira festejam ajuda do Bahia: "gratidão"

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

  • Felipe Oliveira / EC Bahia

    Guilherme Bellintani, presidente do Bahia e idealizador do projeto Dignidade aos Ídolos

    Guilherme Bellintani, presidente do Bahia e idealizador do projeto Dignidade aos Ídolos

Gratidão. O sentimento resume o recente projeto desenvolvido pelo Bahia, denominado "Dignidade aos Ídolos". Nele, ídolos tricolores que passam por graves problemas financeiros receberão uma ajuda do próprio clube. O programa, aprovado por unanimidade pelo Conselho Deliberativo, oferecerá auxílio – de um até três salários mínimos por mês – a ex-jogadores em dificuldade extrema. 'Uma forma de devolver um pouco a eles o tanto que fizeram pelo Bahia'.

A última frase é de Vitor Ferraz, vice-presidente do Bahia, que explicou ao UOL Esporte detalhes do projeto – inclusive citando que a ideia foi do presidente Guilherme Bellintani, que já havia conversado com a reportagem sobre o programa tricolor. Depois de eleitos, em dezembro de 2017, ambos deram vida ao programa que foi uma das promessas da campanha eleitoral.

"Foi uma ideia que surgiu no período de campanha eleitoral aqui do clube. A gente entendia a necessidade de a gente valorizar a história do clube, valorizar as pessoas que ajudaram a construir um clube tão tradicional quanto o Bahia, que ajudaram nas suas conquistas. E conhecendo um pouco dessa dificuldade pela qual passa muitos dos nossos ídolos que tanto orgulharam e honraram a nossa camisa, o presidente Guilherme Bellintani teve a ideia de a gente trabalhar com algum tipo de apoio àqueles ídolos que estivessem passando por uma situação de maiores dificuldades, e aí surgiu o programa de Dignidade ao ídolo", conta Vitor.

"Quando nós fomos eleitos, levamos a ideia ao Conselho Deliberativo, que abraçou a ideia prontamente e criou a regulamentação para que não se banalizasse a ideia do ídolo e, assim, o plano não fosse utilizado de maneira indevida, que realmente fosse um plano para auxiliar pessoas que tiveram feliz relevância prestada ao clube e que realmente tivesse passando por uma questão de dificuldade, pela qual o clube entendesse que caberia algum tipo de ajuda", diz.

COMO O BENEFICIADO É DEFINIDO?

O benefício para cada ex-jogador dependerá de uma aprovação do Conselho Deliberativo do Bahia, que avaliará dois itens em questão: a sua condição de ídolo e a sua real necessidade financeira: "Claro que tem um caráter subjetivo. O ídolo pode ser uma pessoa que, como atleta, conquistou muitos títulos pelo clube ou que não necessariamente conquistou, mas que teve uma história que engrandeceu o clube, que honrou muito as tradições do clube. Aí entra o espaço da subjetividade, uma análise de como se deu a história desse atleta dentro do clube".

Confirmado e aprovado o status de ídolo, o clube precisará atestar a situação financeira extrema do ídolo, e não apenas desconfortável, para então definir qual será a ajuda que ele receberá: de um, dois ou três salários mínimos.

QUEM SÃO OS PRIMEIROS BENEFICIADOS?

O Bahia chegou a cinco nomes para o início do projeto, com suas respectivas ajudas: Zanata, Jorge Campos e Alberto Leguelé, que receberão um salário mínimo, Naldinho, que tem problema na coluna e diabetes e vai ter direito a dois salários mínimos, e Maílson, inspiração para o projeto e que foi diagnosticado com uma doença degenerativa - receber três salários.

"Esses foram os cinco primeiros contemplados e que vai fazer com que o Bahia tenha uma despesa mensal inicialmente de 8 mil reais. Esse dinheiro vai sair do orçamento do clube mesmo", esclareceu Vitor Ferraz.

SAIBA SOBRE CADA UM DELES

Maílson, ex-lateral direito, 50 anos

Ídolo tricolor dos anos 90, o ex-lateral direito Maílson, que defendeu o Bahia entre 1988 e 1995, foi o primeiro ex-jogador a receber ajuda do clube. Ele foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em 2010, doença que limita os movimentos das mãos e pernas, além de atrapalhar a fala. Como ele não consegue se comunicar e já não fala há cinco anos, nossa reportagem conversou com Lícia Lima, esposa de Maílson, que falou sobre sua situação.

Divulgação/E.C. Bahia
"O Maílson não tem mais perspectiva nenhuma. É uma doença incurável. Ele já está todo paralisado, inclusive há dois meses foi a primeira vez que ele teve uma parada cardíaca, em casa mesmo, porque ele é acompanhado por home care, e quando o levamos para o hospital, ele fez alguns exames e foi constatado que ele já está com o pulmão bem comprometido", disse.

Maílson, de acordo com Lícia, já recebia ajuda de outras gestões do Bahia – é o único caso entre os cinco beneficiados. "Outros presidentes do Bahia começaram a ajudar. Na época até o Mailson ainda falava arrastado, e ele procurou a diretoria do Bahia e pediu ajuda, e o Bahia cedeu no mesmo instante. Não era uma grande ajuda, mas ajudava de alguma maneira. E desta vez o presidente Guilherme veio com esse projeto Dignidade ao Ídolo e pensaram no Mailson".

Recentemente, Maílson realizou o grande sonho de voltar a assistir a um Ba-Vi, direto da Fonte Nova (foto acima). "O Bahia já ajuda o Maílson há uns cinco anos e eu agradeço tanto ao Bahia e ao Bahia Home care que proporcionou isso para gente, realizar o desejo que ele tinha de ir na Fonte Nova, na nova Arena Fonte Nova e assistir ao jogo do time dele. Era o sonho dele e, através do Bahia Home Care e do Bahia, ele pôde assistir ao Ba-Vi. Ele ficou muito feliz", acrescentou.

Zanata, ex-lateral direito, 60 anos

Zanata é mais um ex-lateral tricolor a ser ajudado pelo Dignidade aos Ídolos. Tricampeão baiano em 1986, 1987 e 1988, ele mora no Rio de Janeiro com a filha de dez anos e receberá um salário mínimo. Ajuda bem-vinda para quem ainda convive com uma dívida com agiotas.

Arquivo pessoal/Zanata
"O que entrar ajuda. Hoje eu estou desempregado, mas eu sou treinador desde 2007, treinei o Icasa há dois anos, e o Icasa também não me pagou. Eu passo uma situação difícil com uma filhinha sozinha em casa. A mãe foi embora e aí eu tive que ir à luta. Até fora do futebol eu procurei um trabalho, corri para lá e para cá. O Bahia soube e deu essa ajuda entendeu", disse.

"Eu ainda tenho metade para pagar [aos agiotas], ainda não consegui pagar tudo. O que entrar para mim é festa. Ajuda para uma alimentação, a minha filha tem 10 anos. Eu sou pai e mãe para ela. Eu lavo, cozinho, faço tudo bravamente. É uma luta tremenda", acrescenta Zanata, que ainda pensa em pedir ajuda a outros clubes que defendeu ao longo da carreira.

"Eu já pensei até em pedir ajuda ao Palmeiras. É um clube que eu tenho um carinho muito grande por ele, apesar que eu joguei em 16 clubes, só clubes grandes, seleção brasileira. A CBF, por exemplo, podia ajudar, eu joguei em seleção brasileira. Mas quem me ajudou mesmo foi o Bahia, o meu clube de coração. A minha família era toda Bahia. Eu cheguei numa seleção brasileira pelo Bahia. Joguei no Flamengo, mas quem está me ajudando é o Bahia", completou.

Naldinho, ex-ponta direita, 50 anos

Com apenas 1,58m de altura, o baixinho Naldinho defendeu o Bahia no final dos anos 80 e no começo dos anos 90 e foi campeão baiano em 1991, 1993 e 1994. Ele é diabético, sofre de problemas na coluna e no joelho e receberá dois salários mínimos por mês do clube tricolor.

Arquivo pessoal/Naldinho
"Eu sou muito grato ao Bahia e a todos da diretoria, de coração, por esse projeto. Eu não estou passando fome, mas é uma soma para dar uma força para nós jogadores do passado que fizemos muito pelo clube. Eu acabei adquirindo algumas doenças: sou diabético, tenho que tomar remédio diariamente, tenho problema de coluna e joelho devido aos problemas dentro de campo no passado. A diabetes é uma coisa que vem me prejudicando muito e eu estou cuidando disso juntamente com a família, para que não venha acarretar coisa pior", declarou.

"Eu recebo um benefício do Governo por invalidez e essa ajuda do Bahia será muito válida, vai me ajudar muito Eu sou muito grato ao Bahia. Nós demos a alma pelo clube, vestimos com coração essa camisa e, graças a Deus, saiu este projeto. Se não me engano é o único clube do Brasil e do mundo que tem esse projeto de ajudar a dignidade ao ídolo", acrescentou Naldinho, que é pai de três filhas e hoje mora com o sogro em Marília, interior de São Paulo.

Alberto Leguelé, ex-meio-campista, 65 anos

Arquivo pessoal/Alberto Leguelé
Jogador que atuava tanto como volante como meia, Alberto Leguelé fez parte da histórica campanha do heptacampeonato estadual (1973 a 1979). Com o salário mínimo que receberá, ele pretende ajudar o filho e a filha, que sofre de Síndrome de Down.

"A gente tem um benefício de auxílio do INSS, é o que segura a gente, e a minha esposa também faz as coisas dela, do lar, sempre trabalhou também, e agora o Bahia vai dar essa ajuda para gente e que chega em boa hora também. Foi uma grande sensibilidade da diretoria atual. E foi o presidente Guilherme quem deu essa grande tacada", disse Leguelé, hoje com 65 anos.

"Eu já sei o que vou fazer com esse dinheirinho; vou ajudar a minha filha e o meu filho, vai ser uma renda extra até dezembro de 2018, então eu vou aproveitar ao máximo para ajuda-los. Ela é especial, tem Síndrome de Down", contou o ex-jogador tricolor.

Jorge Campos, ex-ponta-direita, 64 anos

Arquivo pessoal/Jorge Campos
Jorge Campos (esq.) e Alberto Leguelé (dir.)
Prata da casa do Bahia, Jorge Campos defendeu o time tricolor de 1972 e 1977 e conquistou cinco títulos estaduais. Hoje aposentado, ele também receberá um salário mínimo para ajudar nas contas.

"Este presidente atual me surpreendeu, porque os outros não fizeram nada. E a ajuda veio a calhar. Bela atitude do presidente e de cada conselheiro, que escolheram os ídolos. O Bahia é um exemplo, e os outros clubes devem seguir isso. Tem outros jogadores precisando", disse Jorge.

Segundo Cláudia, sua mulher, o ex-jogador mora hoje em Salvador na casa dos filhos. Seu último emprego foi em uma casa de carnes, há 11 anos. Ele se afastou quando teve diagnosticada doença de Parkinson, controlada por remédios e médicos em tratamento do SUS (Sistema Único de Saúde).

ATUAL GESTÃO TORCE POR SEQUÊNCIA DO PROJETO

A gestão do presidente Guilherme Bellintani vai até dezembro de 2020. Até lá, o projeto segue firme. Porém, só irá continuar caso o futuro novo mandatário dê sequência ao projeto. É o que espera a atual direção tricolor, incluindo o vice Vitor Ferraz.

"Não é uma coisa estatuária, perpétua, é realmente uma plataforma de gestão, um compromisso. Claro que a gente tem que ter um cuidado para que este benefício seja concedido para as pessoas que realmente estejam passando por uma situação de dificuldade e que não tenham uma forma de se manter, e que consiga manter o nome do programa de uma maneira digna. Então é uma atitude pioneira que a gente tem com muito orgulho, mas que a gente espera servir como exemplo para outros clubes para que os seus ídolos continuem a ter uma qualidade de vida digna", afirmou o vice-presidente.

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