Amigo de Neymar, técnico do Inter visitou PSG em 2017 e diz o que aprendeu

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

  • Lucas Figueiredo/MoWa Press

    Odair Hellmann sorri ao lado do atacante Neymar em treino da seleção brasileira

    Odair Hellmann sorri ao lado do atacante Neymar em treino da seleção brasileira

Odair Hellmann pode bem se considerar amigo de Neymar. Não foi apenas a proximidade ganha na campanha na conquista da medalha de ouro dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, que uniu atacante e técnico do Inter. Após isso, o craque convidou o treinador para um estágio de oito dias no PSG no final de 2017.

Antes de assumir o comando do Inter, ele esteve lá acompanhando as atividades de Unai Emery, se aproximou e conversou com todos os jogadores brasileiros do time, e solidificou uma opinião externada em entrevista ao UOL Esporte: "Não há diferença entre os times médios da Europa e os do Brasil".

O treinador ainda defendeu Neymar das críticas e colocou o brasileiro entre os três melhores do Mundo. Confira a primeira parte entrevista exclusiva com o comandante vermelho. Na segunda-feira, o restante da conversa enfocará no Inter e sua arrancada às primeiras posições do Campeonato Brasileiro.

Ricardo Duarte/Inter

A sua relação com Neymar é bastante próxima. Chegaste a falar com ele após a Copa do Mundo, como você avaliou o que aconteceu com ele no torneio?

Não conversei com ele depois da Copa. Temos uma relação muito boa, fomos campeões olímpicos juntos (Odair era auxiliar de Rogério Micale). Só tenho coisas boas para falar dele, a respeito dele para o torcedor. Nos 40 dias de Olimpíada, foi profissional, treinava sempre, não era de ficar no departamento médico, se empenhava, queria muito ser campeão olímpico, jogou muito. Foi profissional ao extremo. Fez a diferença no quesito técnico e pessoal também. É ótimo profissional, uma ótima pessoa, sua experiência fez toda diferença.

Como você vê o que houve na Copa do Mundo?

O Neymar é um cara que quer vencer, quer muito vencer. Certamente ele ficou muito triste com a derrota da seleção na Copa. Precisamos chamar atenção ao fato que ele ficou três meses machucado. Isso é muito importante para o jogador. Foram três meses de preparação, tentando jogar a Copa no melhor nível. Ele encerrou a preparação dentro da Copa, tenho certeza que ele fez de tudo para jogar. No início não estava 100%, mas foi crescendo. Talvez tenha faltado tempo para que ele pudesse seguir crescendo. Ali na Copa ele deu tudo, tudo que tinha, conhecendo ele, tenho certeza que deu tudo. Mas prejudicou essa parada de três meses.

E o rótulo de cai-cai...

Primeiro que batem muito nele. E cada jogador tem uma forma de reagir. Tem o jogador que fica parado, o que cai e rola, o que rola duas vezes, é interpretação de cada um. Batem muito nele. Temos que olhar para o outro lado, tem que punir o jogador que bateu, ver se o árbitro deu cartão, e depois vamos olhar se ele rolou muito. Estamos olhando ele e esquecendo a pancada, o adversário, o cartão que deveria ter tomado. Então, eu acho que um jogador dessa visibilidade sempre vai ter crítica, ainda mais quando o time ou a seleção não ganhar, sair fora da Copa.... São jogadores visados que têm que saber lidar com isso. Não concordo (com o rótulo de cai-cai), mas respeito quem pense diferente.

Ele tem condições de disputar e até ser eleito melhor do mundo?

Tem todas as condições de disputar, qualidade para isso, mente forte para isso. É uma questão de seguir progredindo no seu clube, conquistar títulos na Europa com seu clube, porque a gente sabe que ir para as finais da Champions tem um peso, seguir disputando títulos com a seleção. Hoje ele é, está, um dos três melhores jogadores do mundo, com certeza.

Através dele você conheceu o PSG...

Eu fiquei oito dias no PSG. Voltei para fazer o curso da CBF, quando deixei de ser auxiliar, interino, e fui efetivado no Inter. Fui recebido por ele, pelo Marquinhos, o Daniel Alves, o Lucas (que hoje está no Tottenham), o Thiago Silva, todos os brasileiros me recepcionaram muito bem. E lá é muito fechado, a imprensa não vê os treinamentos, familiares não veem os treinamentos, e consegui isso. Vi treinos antes e depois de jogos da Champions, vi os métodos de trabalho. São situações importantes para abrir sua cabeça, aprendizados, métodos... É claro que não vou copiar as coisas, mas aprender, olhar, trazer o que visualizou para a realidade daqui. Foi muito importante

E uma vez lá, você acha que é muito diferente o trabalho de treinador na Europa e no Brasil? Por que há uma diferença tão grande entre o futebol praticado lá e aqui?

Não existe esta diferença, este 'buraco'. O que fazem os grandes clubes europeus, se faz no Brasil. Não se pode comparar o futebol brasileiro com Barcelona e Real Madrid, por exemplo. Porque eles contratam os melhores jogadores do mundo, são seleções mundiais, têm 10 jogadores de seleção jogando e mais 10 no banco. Temos que comparar com Valencia, Sevilla, Las Palmas... e aí não tem diferença, para mim, não. Com Barcelona e Real, claro, é óbvio que não dá para comparar. Mas o futebol brasileiro não é inferior ao Espanhol, por exemplo.

E, então, por que o técnico brasileiro não consegue trabalhar lá?

O técnico brasileiro tem todas as condições de conquistar o mercado europeu. Tem a questão da licença. Os cursos da CBF querem dar licença par ao mercado europeu, isso vai abrir o mercado. Hoje não temos essa licença, só se fizer o curso da UEFA. Os treinadores europeus podem trabalhar em qualquer lugar do mundo. Os brasileiro não podem trabalhar lá. Quando tiver isso, vai melhorar muito em qualquer lugar, porque capacidade os treinadores brasileiros têm de sobra

O mercado brasileiro aponta, hoje, um movimento de 'novos treinadores'. Muitos deixando de ser auxiliares, mais jovens, em detrimento de treinadores experientes que antes mudavam apenas de clube frequentemente e eram sempre os mesmos. Como você avalia esse crescimento dos mais jovens...

Eu acho que há espaço para todo mundo. O que acontece é um ciclo natural de mercado. Os treinadores mais experientes não estão deixando de ter oportunidade por falta de capacidade. Um Vanderlei Luxemburgo, um Oswaldo de Oliveira, um Abel Braga, todos são excepcionais treinadores, já fizeram grandes trabalhos e ainda podem fazer, já ganharam grandes títulos e ainda podem ganhar. A questão é oportunidade. Esse surgimento de novos treinadores é pela própria situação de mercado, acontece como em qualquer outro mercado, como lá fora também. Cabe ao profissional que receba a oportunidade, aproveitar ou não. É mostrando bons trabalhos, seguindo em frente. Não entro nessa de treinadores jovens ou mais velhos. Vi uma entrevista do Felipão (Luiz Felipe Scolari) esses tempos. E é claro que ele tem muito mais experiência do que eu, eu estou disposto a aprender, quanto mais tempo eu ficar trabalhando, mais oportunidade de aprender eu terei. Estou aberto a isso. Não podemos fazer este tipo de comparação. É uma questão mais de mercado, é natural o surgimento de outros treinadores. 

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