Brasil x Argentina vira 'cortina de fumaça' para Arábia em meio a escândalo

Pedro Ivo Almeida

Do UOL, em Jeddah (Arábia Saudita)*

  • Lucas Figueiredo/CBF

    Estrela do jogo, Neymar cumprimenta membros do governo saudita em chegada à Arábia

    Estrela do jogo, Neymar cumprimenta membros do governo saudita em chegada à Arábia

Brasil e Argentina entram em campo nesta terça-feira, às 15h (de Brasília), no estádio King Abdullah, em Jeddah, na Arábia Saudita. E mesmo com toda a promoção pelo espetáculo armado pelo governo local, o duelo de craques como Neymar e Dybala está longe de ser o foco do noticiário envolvendo o país no cenário internacional. Simultaneamente, o mundo se interessa mais pelo esclarecimento do escândalo envolvendo o desaparecimento de um jornalista saudita crítico da família real árabe.

Seja na América, na Europa ou em outros cantos do mundo, o nome do colunista do jornal americano "Washington Post" Jamal Khashoggi dominou as manchetes. Perseguido pelo príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, ele desapareceu após dar entrada no consulado do país na Turquia no último dia 2. O governo turco garantiu aos Estados Unidos ter áudios e um vídeo que comprovam a tortura e o assassinato do jornalista.

Os árabes, em um primeiro momento, informaram que ele teria saído por conta própria do consulado. Na última segunda-feira (15), no entanto, em novo desdobramento do caso, a rede americana CNN noticiou que os sauditas, diante da proporção do caso, já preparam um relatório reconhecendo a morte de Jamal, fruto de um suposto "interrogatório que deu errado".

O silêncio ainda dá o tom no noticiário saudita, praticamente todo regulado pela monarquia local. Mas o caso faz enorme barulho ao redor do mundo, especialmente nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump informou que enviará o secretário de estado americano, Mario Pompeo, para tentar esclarecer o caso e vem sendo pressionado para impor sanções ao parceiro comercial caso se confirme o assassinato. O mandatário ainda prometeu punições severas.

Com a imagem novamente arranhada, a Arábia, que luta para modernizar sua economia e seus costumes, tem no clássico sul-americano de futebol uma nova arma para tentar limpar sua barra e passar uma melhor impressão ao resto do planeta.

"O jogo certamente serve como propaganda, mas não é uma novidade. A Copa das Confederações, por exemplo, começou como Copa Rei Fahd, um dos irmãos do atual Rei. Usar o esporte como propaganda é algo importante há décadas, é uma máquina de propaganda", explicou o jornalista especialista no Oriente Médio e doutorando em Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP) José Antônio Lima.

"A CBF então tem ciência do peso político que a seleção representa. Quando você vai para o país e aceita o convite, você está de certa forma anuindo com aquele governo. Não consigo ver nesta situação saudita uma separação entre a política e o esporte, embora entenda que os dirigentes, por defender o esporte ou querer o dinheiro da Arábia Saudita, possam optar por este tipo de compromisso", completou.

Jogadores, comissão e estafe da seleção fizeram passeio no deserto a convite do governo saudita

Rivalidade com o Qatar

O especialista em política do Oriente Médio ainda explica a relação de promoção do esporte com uma disputa interna com o rival Qatar.

"A ida da Copa para o Qatar é excelente do ponto de vista do termo soft power, que usamos nas Relações Internacionais como uma forma de convencer o outro. Se o hard power é formado pelo poder militar e econômico, o soft se dá pela cultura, cinema, diplomacia e esportes. O soft power do Qatar é fortíssimo, enquanto o da Arábia é pequeno. Esse amistoso serve para melhorar este quesito. Não tenha dúvida que a ida de Brasil e Argentina é uma forma de fazer propaganda da Arábia Saudita, ainda mais com essa rivalidade do Qatar; é uma forma de comprar influência".

Ainda que "comprados pela influência", os jogadores brasileiros revelam não ter familiaridade com o assunto e tentam passar longe de qualquer polêmica.

"Difícil responder algo que não tenho domínio. Não tenho elementos para te responder. Viemos aqui para jogar futebol", respondeu o capitão Neymar. "Estamos aqui para este grande jogo. Brasil e Argentina é especial em qualquer lugar", se esquivou o zagueiro e líder Miranda.

Alheios aos problemas mais graves, os jogadores vêm recebendo homenagens e participando de passeios por desertos e jantares oferecidos pelo governo saudita.

Questionada se não se preocupa em ter um jogo comprado pelo governo local e servir como propaganda de grupo tão criticado no cenário internacional, a CBF, que tem poder de veto perante a agência que negocia tais amistosos, respondeu que "o critério para a escolha de adversários dos amistosos da Seleção Brasileira leva em conta aspectos técnicos. Neste caso, as seleções preenchem os requisitos desejados pela Comissão Técnica, no sentido de enfrentar equipes de bom padrão e que participaram da última Copa do Mundo. No que toca a negociação destes jogos, a empresa detentora dos direitos dos amistosos é responsável pela viabilidade administrativa e logística. Cabe ressaltar que as partidas na Arábia Saudita foram realizadas em clima de total tranquilidade e que a torcida local foi muito gentil e carinhosa com a delegação brasileira".

Divulgação
Para impressionar: suntuoso estádio de Jeddah receberá Brasil x Argentina

Força máxima em campo

Dentro das quatro linhas, ignorando qualquer tema político, o técnico Tite só pensa na vitória contra a maior rival. O caráter decisivo ficou explícito na decisão de nem sequer revelar o time titular para o confronto. "Precisamos desse componente, dificultar para eles", comentou o comandante brasileiro.

A expectativa é por força máxima, com Alisson, Danilo, Miranda, Filipe Luis e Roberto Firmino retornando ao time titular nas vagas de Éderson, Fabinho, Pablo, Alex Sandro e Gabriel Jesus. A dúvida fica na segunda vaga do meio: Fred e Arthur disputam a titularidade no setor. A espinha dorsal formada por Marquinhos, Casemiro, Renato Augusto, Philippe Coutinho e Neymar segue na formação principal.

A combalida Argentina, por sua vez, não terá a sua maior estrela. Em crise após a Copa e sem Lionel Messi, a aposta do técnico interino Lionel Scaloni será por Paulo Dybala.

Com taça em jogo, o "Superclássico", como vem sendo chamado pelo governo local, prevê disputa de pênaltis em caso de empate no tempo normal.

BRASIL x ARGENTINA

Data e hora: 16 de outubro de 2018 (terça-feira), às 15h (de Brasília)
Estádio: King Abdullah, em Jeddah (Arábia Saudita)
Árbitro: Felix Brych (Alemanha)
Auxiliares: Mark Borsch e Stefan Lupp (ambos da Alemanha).
VAR: Gunter Perl e Robert Hartmann (ambos da Alemanha)
Transmissão na TV: Globo e Sportv

Brasil
Alisson, Danilo, Marquinhos, Miranda e Filipe Luis; Casemiro, Arthur (Fred), Renato Augusto, Philippe Coutinho e Neymar; Roberto Firmino
Técnico: Tite

Argentina
Sergio Romero; Saravia, Otamendi, Germán Pezzella e Tagliafico; Paredes, Battaglia, Dybala e Lo Celso; Icardi e Correa (Lautaro Martínez)
Técnico: Lionel Scaloni

*Colaborou José Edgar de Matos, do UOL, em São Paulo

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