"Eu e Andrés erramos", admite goleiro Felipe sobre saída do Corinthians

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

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    Felipe passou por Vitória, Corinthians e Flamengo. Hoje defende o Kisvárda, da Hungria

    Felipe passou por Vitória, Corinthians e Flamengo. Hoje defende o Kisvárda, da Hungria

Campeão paulista, da Copa do Brasil e da Série B com o Corinthians, Felipe deixou o clube em 2010 após um atrito com a diretoria, em especial com o presidente Andrés Sanchez. Oito anos depois, o goleiro que hoje atua na Hungria admite que também teve uma parcela de culpa na saída conturbada do time que o projetou para o cenário nacional. Mas não tira a responsabilidade do mandatário alvinegro no que resultou em sua ida para Portugal (Braga).

Felipe chegou ao Corinthians em 2007 após se destacar pelo Bragantino, que, naquele ano, chegou às semifinais do Campeonato Paulista. Logo virou titular, mas, apesar das boas atuações no Campeonato Brasileiro, não conseguiu evitar o rebaixamento. Em 2008, seguiu como destaque do time na campanha do vice da Copa do Brasil e do título da Série B.

Em 2009, teve seu melhor ano no Corinthians com os títulos paulista e da Copa do Brasil, mas a situação no clube começou a ficar insustentável a partir de 2010, durante a parada para a Copa do Mundo. Felipe foi acusado de forçar uma saída para o Genoa, da Itália, e depois de discussões públicas com Andrés Sanchez acabou deixando a equipe rumo ao Braga, de Portugal. O carinho pelo Corinthians não mudou, mas hoje o goleiro de 34 anos acredita que muita coisa poderia ter sido feita diferente. Mas não só por ele.

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"Eu sempre acompanho o Corinthians, estou sempre vendo os jogos, e, querendo ou não, foi um clube que marcou a minha vida, foi onde eu apareci para o cenário nacional. Foram quase 200 jogos, então não tem como não falar do Corinthians. Eu deixei muitos amigos lá ainda, estou sempre vendo os jogos, comento as fotos quando o site do Corinthians posta... Foi um problema com uma pessoa, não foi problema com o clube, o clube é maior que qualquer um, então o meu problema foi direcionado a uma pessoa que até a gente se encontrou depois disso, várias vezes. Não voltamos a ser melhores amigos, mas quando a gente se encontrou nos falamos, sem problema", recorda Felipe em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

"O problema não é perdoar um ao outro ou não, todo mundo errou, todo mundo teve a sua parcela, é normal o atleta sempre sair mais culpado, né? Mas depois de muito tempo a gente acabou se encontrando no Rio de Janeiro, no hotel onde o Flamengo estava, quando ele estava na CBF, e a gente acabou sentando, tomando um café. Não tocamos no assunto porque era uma coisa que não interessava a ninguém mais. Então, na época, foram as duas partes que erraram, a minha e a diretoria, mas passou e o que ficam são as boas lembranças porque foram muito mais boas lembranças do que ruins", acrescenta o goleiro.

Quando chegou ao Corinthians, Felipe precisou passar por um dos anos mais difíceis da história do clube: o primeiro e único rebaixamento da história. De acordo com o arqueiro, uma série de fatores culminou com o descenso para a Série B.

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"Em 2007, a gente tinha um time que não era o que representava o Corinthians. O Corinthians vivia um problema financeiro, tinha problemas extracampo com o presidente sendo preso [Alberto Dualib], era só notícia nas páginas policiais. E dentro de campo a gente sabia o que representava a história do Corinthians", conta o goleiro, que, apesar da má fase do time, ainda assim conseguiu se destacar com boas atuações.

"Mesmo 2007 sendo um ano ruim para o clube, para mim foi quando todo mundo me conheceu, com vários jogos ali podendo ajudar, especialmente contra o Goiás no Serra Dourada. Se a gente perdesse ali praticamente já estaria rebaixado, e acabamos empatando e eu ainda peguei o pênalti do Paulo Baier, e a gente teve a chance de não ser rebaixado. Mas pensando em títulos, o meu ano foi em 2009, onde nós conseguimos ganhar a Copa do Brasil e o Paulista", diz.

Chegada e saída ao Fla a pedido de Luxa

Depois de passar alguns meses em Portugal, Felipe chegou ao Flamengo em dezembro de 2010, indicado por Vanderlei Luxemburgo. Curiosamente, segundo o goleiro, a saída, em 2015, deu-se depois de um atrito com o próprio treinador, que tinha voltado ao comando rubro-negro.

REUTERS/Sergio Moraes
"Eu estava jogando em Portugal e acabei chegando com o Flamengo através do pedido dele. Eu tinha saído há pouco tempo do Corinthians, em agosto de 2010, e em 28 de dezembro eu já estava chegando ao Rio de Janeiro para fazer exames médicos no Flamengo. Foram quatro anos de Flamengo", recorda Felipe, para depois dar detalhes da conturbada saída do clube.

"Quando eu saí do Flamengo, eu tinha mais um ano de contrato ainda, então eu saí pela opção da pessoa que me trouxe, né? Quem me trouxe acabou pedindo para que eu saísse. Falam que teve festa depois que ele [Luxemburgo] saiu e que vários jogadores fizeram festa comemorando, mas todo mundo sabe que não foi isso, não é isso. O problema dele todo mundo sabe com quem foi. E meses depois ele tirou o Léo Moura, e os remanescentes daquele ano acabaram saindo, então foram coisas que acontecem no futebol", acrescenta o arqueiro de 34 anos.

Racismo no Vitória e também na Hungria

Em 2005, ainda no início da carreira, Felipe deixou o Vitória, clube pelo qual foi revelado, depois de acusar o então presidente Paulo Carneiro de racismo. O caso foi parar na Justiça e o goleiro conseguiu a quebra de contrato para deixar a Toca do Leão – e seguiu para o Bragantino.

"Foi com o ex-presidente do Vitória, o Paulo Carneiro, em 2005. Mas foi bem resolvido. Hoje em dia a gente se fala. Não somos melhores amigos, mas a gente conversa, principalmente em redes sociais. Quando eu posto alguma coisa ele comenta, então a gente voltou a se falar. Não como era antes, mas eu acho que ele se arrependeu, sim, ainda mais porque eu era cria da base, foram dez anos de Vitória, então foi um momento complicado, mas passou e hoje a gente se fala normalmente.    Quando ele posta alguma coisa relacionada ao Vitória eu estou sempre acompanhando, porque é um clube em que eu me formei. Então a gente está sempre postando algumas coisas e as pessoas até comentam: 'Pô, que legal, lá no passado vocês tiveram aquele problema e hoje em dia vocês conversam', então é uma coisa que ficou para trás", diz.

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"Foi uma coisa que me machucou, me magoou na época, mas que me deixou mais forte. Na época eu tinha mais três anos de contrato com o Vitória e, a partir disso, eu consegui a quebra de contrato com o clube na Justiça. Se eu não me engano, eu fui um dos primeiros jogadores a conseguir isso", afirma o goleiro.

Apesar do caso superado, Felipe admite que há racismo na própria Hungria: "Tem, mas é muito pouco, eu esperava mais. Mas aqui na cidade todo mundo me conhece, então aonde eu vou todo mundo fala 'capucho'. Capucho em húngaro é goleiro. Quando a gente vai jogar fora de casa sempre tem um ou outro fazendo som de macaco, mas isso não incomoda, e é pouco dentro do que eu esperava. Antes de eu vir para cá eu perguntei como era o racismo, e me falaram que era alto. A maioria dos clubes daqui tem negros".

VEJA MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA

Chegada ao Kisvárda

Eu estava voltando de lesão, tinha acabado de operar o joelho. É um clube novo e é a primeira vez que joga a primeira divisão. Apareceu essa oportunidade e eu vi com bons olhos, e o que estava aparecendo para mim no Brasil não era interessante.

Brasileiros ajudam na adaptação

O próprio capitão do time, que é brasileiro, joga aqui já há uns 7 anos. Veio o [Anderson] Pico, lateral esquerdo, que já atuou comigo no Flamengo e já jogou no Grêmio, e tem o Sassá, atacante que jogou nos clubes do Rio de Janeiro, Cabofriense e Madureira. Então foi o que deu uma ajudada, porque a parte mais difícil aqui é o idioma. Nós estamos sempre juntos. Tem o Lucas, nosso capitão, que fala a língua deles. Ele saiu do Brasil novinho, está há 10 anos na Hungria, passou pelo Atlético PR. Então antes de a gente vir para cá nós conversamos com ele, como era a cultura, se era muito complicado, e é o Lucas que dá todo o suporte para gente. E antes mesmo de a gente acertar, o próprio clube passou o número do telefone do Lucas, então a gente estava sempre em contato.

Assinatura só veio depois do acesso

Eles estavam na segunda divisão do futebol da Hungria, e na segunda divisão não pode jogar estrangeiro, o Lucas tem nacionalidade húngara. E quando começaram os contatos eu tive que esperar o acesso do time. Estava muito próximo, mas não 100%, então eu sempre ficava perguntando como tinham sido os jogos, como o time estava, então a gente ficou amigo antes de eu vir para cá. A gente estava acostumado com o Brasil, mas eu estou gostando muito daqui. Tenho me destacado bastante. Tenho contrato aqui de dois anos, até maio de 2020, e estou bem feliz aqui.

Pegador de pênaltis

Eu sempre tive essa facilidade, no Corinthians, no Flamengo. Aqui, nos três primeiros jogos, foram três pênaltis defendidos. A gente nunca gosta [risos] [quando tem pênalti], mas se tem a gente tenta pegar. Mas é uma média boa que eu tenho. É uma coisa que a gente não gosta muito porque a chance do atacante é bem maior que a nossa, mas quando tem a gente faz o possível para pegar.

Encerrar a carreira no Vitória?

Ah, sem dúvida, até porque foi onde eu comecei. Foram dez anos, mas como profissional eu tive poucos jogos pelo Vitória. Quando eu comecei a jogar eu tive o problema com o Paulo Carneiro, então eu gostaria, sim, de um dia voltar para o Vitória, voltar a jogar onde eu comecei. Eu sempre penso nisso. Não sei se será possível, mas a gente sempre espera.

Superou rótulo de substituto de Bruno no Fla

Alexandre Vidal/Fla Imagem
Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo... Qualquer goleiro nesses clubes vai jogar sob pressão, a não ser que o goleiro tenha dez anos de clube igual ao Rogério Ceni tinha. O Weverton entrou agora no gol do Palmeiras e entrou muito bem, mas sempre vai ser a sombra do Marcos ou do Fernando Prass, que jogou algum tempo no Palmeiras. O Grohe, quando começou a jogar no Grêmio, jogava com a sombra do Victor, é normal isso. O São Paulo agora tem o Sidão e o Jean, e eles sofrem com isso, por tudo que foi o Rogério Ceni para o São Paulo. Eles sempre vão jogar com o peso do Rogério. Quando eu cheguei ao Flamengo, todo mundo só falava do Bruno, e aos poucos eu fui fazendo o meu trabalho e o pessoal foi me reconhecendo como Felipe, e não como o substituto do Bruno.

Muralha: "no Flamengo você não pode errar"

A gente acabou jogando junto no Figueirense. É uma excelente pessoa, um excelente profissional. Fez um ano muito bom pelo Flamengo, chegou a ser convocado pelo Tite, só que é aquele negócio: a cobrança é muito grande. Não tem como o goleiro ser convocado para a seleção brasileira e não ter qualidade. Se ele não tivesse qualidade, o Tite, que é a unanimidade de treinadores dos últimos tempos na seleção, certamente não iria convocá-lo, então o Muralha foi convocado por méritos. E no Flamengo você não pode errar. Você começa a errar, errar e errar e o pessoal só lembra dos seus erros, não vai lembrar que há meses atrás, por exemplo, o cara tinha sido convocado. Falhou num jogo e depois no outro, infelizmente é assim, mas ele é um excelente goleiro, tem o nível muito alto. Falhou como qualquer pessoa está sujeita a falha, mas quando você falha num time grande as pessoas veem mais as suas falhas do que outra coisa.

Por onde andou...

Eu saí do Figueirense e fui para o Bragantino, disputei o Paulistão em 2016. Depois fui para o Boa Vista-RJ, e foi quando eu tive a lesão nas costas. Joguei dez jogos só, aí fiquei tratando quase seis meses, e em novembro me apresentei no Uberlândia-MG para jogar o Campeonato Mineiro de 2018. Aí eu joguei 5 jogos e foi quando eu operei o joelho. Agora eu estou aqui há quase seis meses jogando na Hungria, e sem problema nenhum.

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