Como a estatística ajudou a fazer 3 campeões: Palmeiras, Athletico e Grêmio

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL 

  • Arte/UOL

    Três clubes, três taças e o mesmo parceiro

    Três clubes, três taças e o mesmo parceiro

Billy Beane ficou conhecido mundialmente como "o homem que mudou o jogo" em Moneyball, filme de 2011 que conta a história sobre como o Oakland Athletics, time de beisebol dos EUA, consegue competir com as grandes forças financeiras da Major League Baseball usando-se de um sistema de estatísticas de desempenho e monitoramento de atletas.

O sistema e o filme inspiraram uma empresa de consultoria financeira do Equador a desenvolver um programa para o futebol. E três campeões recentes no Brasil utilizaram os índices da Kin Analytics nas conquistas do Brasileirão-2018 (Palmeiras), Copa Sul-Americana-2018 (Athletico-PR) e Copa do Brasil-2016 (Grêmio).

"Sabe o gordinho do filme? Sou eu", contou aos risos o diretor de esportes da empresa, Paulo Castro. Com sede em Quito, a Kin Analytics já havia trabalhado com o Independiente Del Valle fornecendo alguns dados na campanha do vice-campeonato do time na Libertadores em 2016, o que fez com que o clube contratasse a empresa posteriormente, e chegou ao Brasil no Grêmio comandado por Roger Machado e posteriormente por Renato Gaúcho.

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Twitter da Kin Analitycs destaca parceira com o Grêmio, que abriu portas no Brasil

"A gente tinha uns contatos de umas empresas de Porto Alegre e o Diego Gerhardt, amigo meu sócio do Grêmio, conhecia o vice-presidente Antônio Dutra, que entrou com o Romildo Bolzan, e que estava envolvido com inovações, como a SAP no Grêmio. Eles tinham comprado dados muito crus e nós nos apresentamos como parceiros para explicar essas informações. E ele gostou muito e nos deu a chance de fazer um trabalho-piloto no clube", relembra Andrés Perez, CEO da Kin Analitycs, que também trabalha no mercado financeiro com empresas como o Rabobank, banco holandês.

Trabalho no futebol consiste em averiguar informações, como no mercado financeiro

"A gente faz duas semanas de treinamentos com a comissão técnica e com os analistas de desempenho. Fazemos estatísticas diferentes das normais. No jogo tem os disparos ao gol, a posse de bola, mas isso não diz muito da qualidade de jogo", relata Castro, sobre o método.

O futebol que se discute nas mesas-redondas tem cada vez mais estado longe do que se pratica nos campos, ao menos em termos estatísticos. Se a discussão é sobre "posse de bola" e como "Guardiola tem um time dominante", os clubes trabalham com uma gama enorme de índices específicos. "A gente vai além e pega o ritmo de passes dos jogadores. A gente fez isso muito com o Grêmio, eles eram uma máquina de passes. Passes bons para a frente, não ficar com a bola por muito tempo, jogar com a mesma qualidade na esquerda e na direita. E a gente entrega relatórios, por exemplo: vocês querem um acerto de 78% em passes para frente e nesse jogo foram 60%. Tem que melhorar."

Não apenas isso: Grêmio, Athletico-PR e Palmeiras recebem os índices, mas o monitoramento é global. A empresa faz a análise dos rivais, com os mesmos KPIs (Key Performance Indicators, ou Chaves de Desempenho Pessoais, em tradução livre). Isso permite que a comissão técnica possa identificar correções no time. "Se o time joga mais para um lado, se cruza muito a bola", exemplifica. A Kin Analitycs fechou contrato para monitorar todas as partidas da Florida Cup, com Flamengo, São Paulo, Eintracht Frankfurt e Ajax - o Fla, aliás, recebeu proposta de trabalho da empresa.

Processo complexo resulta em aprimoramento, mas encontra resistências

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Parte de relatório enviado aos clubes aponta com precisão locais e resultados dos cruzamentos

"Os times que trabalharam conosco atingiram os títulos. A gente gosta de falar que faz parte disso, mas é um trabalho muito maior, os times que tem Kin Analitycs conseguem mais títulos, mas não apenas por isso, a gente não vê assim. É um conjunto de trabalho", disse Paulo Castro, ao pegar os méritos da empresa que, não por coincidência, trabalha com os clubes citados. 

Esse sistema inclui variáveis como os métodos de treinamento, a gestão de grupo, o trabalho do fisiologista, dos médicos, nutricionistas, as reações dos próprios jogadores. O que a empresa oferece, nas palavras dele, "é um caminho para que os clubes cheguem ao modelo de jogo idealizado e possam entender e escolher melhor os treinos e as peças para isso". 

Por exemplo, se um clube quer jogar no contra-ataque, precisa de jogadores que respondam a esse estilo de jogo; se é posse de bola e trocas de passe, idem. "A gente também faz um relatório de scout que procura jogadores mais alinhados com a fiolosfia do clube. A gente procura no mercado jogadores que tenham essas características".

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Índice de gols esperados (Expected Goals) dividido por métricas de 15 minutos

Uma das dificuldades é exatamente a mudança constante de decisões e comandos no futebol brasileiro. Roger Machado utilizou muito das estatísticas no Grêmio campeão da Copa do Brasil de 2016, porém acabou demitido e vendo Renato Gaúcho levantando a taça. Levou as ideias ao Palmeiras. Enquanto isso, o Grêmio seguiu com convênio com a empresa, mas a linha de trabalho de Renato era outra.

No Palmeiras, encontrou apoio do departamento de desempenho. "Consideramos um software moderno, útil e com o diferencial de produzir métricas não tão comuns em outras ferramentas, como por exemplo o tempo gasto por um determinado jogador para realizar um passe", comentou Cícero Souza, que trabalha com a ferramenta. O clube negocia a renovação do contrato.

Mas, o que explica o fato de Roger Machado ter levado o sistema ao Palmeiras e o time só ter conseguido resultados com Felipão? "O Palmeiras era muito reativo. Quando estava empatando, tinha dificuldades em criar. Mas perdendo ou ganhando, criava muito mais. E é um trabalho psicológico a fazer com os jogadores", comentou Castro, citando o momento que o Verdão vivia antes da chegada da empresa. "Os técnicos têm diferentes formas de ver o jogo. A gente não diz o que não fazer, mas jogamos os dados para eles da forma que eles precisam nesse momento. Eles são os profissionais, tem a sua filosofia. A gente não tenta mexer com as ideias deles mesmos. A gente dá os dados que eles precisam para analisar da melhor maneira".

No Athletico, a correção foi outra. O time não jogava em direção ao gol e os jogadores, embora retivessem a posse de bola, eram lentos nas trocas de passes. Tiago Nunes assumiu, recebeu os índices e realizou treinos de campo reduzido para corrigir o problema, sem que se perdesse a identidade projetada pelo clube para a equipe. Essa, aliás, é outra prorrogativa do trabalho da Kin Analitycs: uniformizar o estilo de jogo das equipes dos clubes. "Trabalhamos com o Athletico Paranaense uma só linha de jogo, desde que os jogadores são pequenos. E eles vão comparar se o primeiro time joga igual ao sub-20." 

No Furacão, o trabalho de idealização uniforme de jogo começou com Paulo Autuori e seguiu até hoje. "Os times bons estão virando uma empresa, trabalhando com processos e metodologias. Mesmo que mude, ficam com a mesma estrutura de jogo. Tem muitas metodologias implantadas."

Analistas de futebol estão vendo outro jogo

Para Castro, o jogo que é discutido não é o mesmo que é jogado. "Você tem escutado que os times com maior posse nem sempre são os que mais ganham. É uma análise mal feita dos analistas. Quem está ganhando pode ter a bola muito mais tempo, quem está perdendo quer recuperar o mais rápido. Não é possível analisar essa maneira. O importante é ver quem gera mais gols com a posse de bola quando o jogo está empatado. E aí, é muito fácil ver que quem tem mais posse acaba fazendo os gols quando empatando", argumentou, citando um dos índices mais debatidos no meio atualmente.

"O sistema do jogo de futebol é incrivelmente complexo. Podemos ver quando um está ganhando e o outro perdendo, no início ou no fim, nos 15 minutos finais, no terço final do campo ou quando está defendendo", comentou o analista da empresa, dizendo que nada disso, afinal, garante resultados: "Seria muito mecânico, é impossível. A gente é praticamente um controle de qualidade dos clubes. Se idealiza um time que tenha posse de bola alta, muito domínio e muita criação, então a gente colhe os dados e diz: 'para isso, você tem que melhorar isso'. Mas nem sempre o melhor ganha. Você assistiu Moneyball e eles não ganharam."

Na opinião de Castro, o futebol está chegando atrasado ao mundo das "KPIs". "A análise já é aplicada na NBA. Todos os jogadores conhecem suas estatísticas. O futebol ficou um pouquinho atrasado nisso, em pegar estatística de maneira profissional. Mas estamos tentando fazer isso acontecer. É muito importante ter uma identidade de jogo. A gente aponta para isso. Os títulos vêm com o trabalho dos times. A gente fala como eles vão atingir os objetivos de jogo."

Empresa abriu clube para implementar conceitos desde a base

Kin Analitycs/Site oficial
Andrés Perez e Luiz Greco, ex-diretor do Athletico: parceiros também no Atlético Kin, do Equador

Além das parcerias, a Kin Analitycs resolveu comprar um clube e implementar suas convicções de cabo a rabo. O Atlético Kin atualmente joga a Segunda Categoria do Equador, espécie de terceira divisão regionalizada. O time conseguiu um acesso em 2017, mas nesta temporada acabou em quarto na sua chave e manteve-se na divisão. Para a Série A, faltariam dois acessos.

"Aplicamos todos esses conceitos no clube também. Procuramos jogadores que se enquadram, aplicamos essa filosofia porque confiamos nela. Essa é a forma de dirigir um clube. A gente ganhou um campeonato já e espero que nos próximos anos esteja na primeira divisão do Equador. Temos objetivos ambiciosos", disse Castro.
 

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