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Testemunha volta atrás e inocenta jogador condenado a 7 anos por roubo

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

2019-03-14T04:00:00

14/03/2019 04h00

Uma testemunha voltou atrás na identificação do meio-campista Everton Heleno como autor de um roubo no ano passado em Camaragibe, região metropolitana do Recife. O jogador, que em dezembro de 2018 foi condenado em primeira instância a sete anos de prisão por supostamente ter participado de uma série de roubos de celulares na cidade, pode ter sua prisão revogada caso o Tribunal de Justiça de Pernambuco aceite o recurso feito pela defesa do atleta.

Com passagens por Santa Cruz, Botafogo de Ribeirão Preto e CSA, clube pelo qual foi considerado o melhor jogador do Campeonato Alagoano em 2017, Everton foi preso em agosto depois de ser identificado por vítimas e testemunhas de roubos praticados em Camaragibe. Na semana passada, a defesa do jogador mostrou à Justiça um vídeo no qual uma mulher que havia apontado Everton como autor de um dos roubos afirma ter acusado a pessoa errada.

A testemunha, que foi vítima de um assalto frustrado, sugeriu ter sido induzida a identificar Everton quando foi chamada a reconhecer o autor do crime. Ela teria percebido o erro ao ver na internet fotos de outro suspeito, um rapaz conhecido como Leandro "Samurai".

Divulgação
Imagem: Divulgação

"No nervosismo, eu disse que era Everton Heleno", afirma a testemunha, que terá seu nome preservado. Ela disse que foi posta na frente de quatro homens, mas entre eles apenas Everton tinha a pele escura e usava barba. A testemunha também afirma que na delegacia lhe disseram que o jogador havia sido visto em um veículo HB20 branco, o mesmo usado no crime: "Ele era a única pessoa morena de barba que estava no momento e que estava sob suspeita [de estar no] HB20 branco. No Instagram, tinha um boato de que era o Samurai. Quando fui ver, a ficha caiu e entrei em desespero."

A mulher afirmou que dias depois voltou à delegacia de Camaragibe para retificar seu depoimento. Procurada via assessoria de imprensa da Polícia Civil de Pernambuco, a delegada Euricélia Nogueira, que comandou o inquérito, não respondeu se levou em conta a retificação em sua investigação. Em nota, a polícia informou que o inquérito "foi concluído no prazo, cumprindo todas as diligências necessárias para a apuração dos diversos casos de roubo, tendo sido o citado reconhecido por quatro vítimas como o autor dos roubos de celulares efetuados em um veículo HB20, de cor branca."

"Eu sou crente, eu tenho que falar a verdade. Não posso julgar uma pessoa que não foi real. Quem me assaltou foi o Samurai. Pode ver as fotos no Facebook. Ele tinha óculos de armação preta e barba feita", afirmou a testemunha. "Tenho absoluta certeza."

Aldo Carneiro/Folhapress
Imagem: Aldo Carneiro/Folhapress

Logo após a prisão, a família de Everton começou uma campanha nas redes sociais para tentar provar a inocência do meio-campista. O caso chamou a atenção do advogado Djailton Melo, do Instituto Ajuda, uma ONG que oferece defesa a condenados de forma aparentemente injusta.

"O caso do Everton é uma aberração", definiu Djailton, que diz ter anexado ao recurso à segunda instância uma séria de provas que inocentariam seu cliente. Uma das principais é uma foto que o atleta teria postado no Instagram no dia 22 de maio, em São Paulo, no mesmo em dia em que um dos assaltos atribuídos a ele estava acontecendo em Pernambuco. A defesa também afirma que o jogador não tem carteira de habilitação porque não sabe dirigir carros manuais e, portanto, não poderia estar na condução de um HB20. As testemunhas e vítimas dizem que o autor dos assaltos dirigia sozinho o próprio carro.

De acordo com o advogado, o único erro de Everton Heleno foi estar no HB20 branco de Leandro Samurai no momento em que o veículo foi interceptado pela polícia. Os dois teriam participado de uma pelada momentos antes. O carro estava sendo procurado por policiais que investigavam a onda de assaltos na região. "O Everton é um jogador conhecido, tem um carro importado, para que vai roubar celular?", disse o advogado.

O defensor questiona o motivo de, segundo ele, a delegacia ter colocado no jogador um boné e um par de óculos de grau no momento em que as testemunhas foram levadas a reconhecer os supostos autores dos assaltos. "O Everton nunca usou óculos. Foi uma série de fatos estranhos que aconteceram no inquérito. Não acredito que a delegada tenha agido de má-fé, mas ela errou e prejudicou uma pessoa inocente". Djailton abriu uma representação contra a delegada na corregedoria da Polícia Civil de Pernambuco.

O advogado espera que o Tribunal de Justiça de Pernambuco avalie o recurso com celeridade.

Nota da Polícia Civil de Pernambuco

A Polícia Civil de Pernambuco informa que o inquérito, sob a responsabilidade da Delegacia de Camaragibe, foi concluído no prazo, cumprindo todas as diligências necessárias para a apuração dos diversos casos de roubo, tendo sido o citado reconhecido por quatro vítimas como o autor dos roubos de celulares efetuados em um veículo HB20, de cor branca. O inquérito foi remetido para a Justiça e o citado foi condenado a pena de sete anos e oito meses. O mesmo homem é réu em inquérito de mesma espécie no município de Jaboatão dos Guararapes, onde se encontra com mandado de prisão preventiva expedido.

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