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Mini-Fagner faz avô viver história que não pôde ter com lateral corintiano

Acervo pessoal
Fagner, lateral-direito do Corinthians e da seleção, ao lado do pai, na década de 1990 Imagem: Acervo pessoal

Diego Salgado

Do UOL, em São Paulo

2019-03-20T12:00:00

20/03/2019 12h00

Faz um ano que Calixto vive de perto uma história que remete a uma outra, tão importante quanto, mas que ele não pôde acompanhar como gostaria. Ver o neto Henrique em ascensão no futebol de salão do Corinthians é como voltar à década de 1990. É rever os primeiros passos de Fagner e enfim senti-los de todas as formas possíveis.

Vinte anos depois, Calixto usufrui daquilo que a falta de tempo lhe impedira no passado: é ele quem leva Henrique, com quase nove anos, aos treinos no Parque São Jorge às segundas e quartas-feiras. A semelhança física ajuda nessa espécie de reconstrução da bela trajetória de Fagner no futebol, pois pai e filho são idênticos - não à toa o carismático Henrique ganhou o apelido de Mini-Fagner.

Assistir de forma completa à arrancada de Fagner no esporte não foi possível quando o lateral tinha a mesma idade de Henrique. Calixto criou os filhos sozinho [Fagner tem um irmão quatro anos mais velho] e tinha de trabalhar todos os dias. Aos nove anos, então, em vez do banco confortável de um carro, o lateral da seleção brasileira enfrentava uma longa viagem de transporte público rumo à sede do Corinthians. Saía sozinho do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e atravessava a cidade para treinar.

"Ele pegava dois ônibus, um metrô, descia no Carrão [estação próxima ao Parque São Jorge] e caminhava até o clube sozinho. Muita gente achava um absurdo, mas não tinha como trazê-lo, porque eu sempre trabalhei em comércio e a mãe dele não vivia com a gente", disse Calixto em entrevista ao UOL Esporte.

O pai do lateral conta que só levou o filho ao Parque São Jorge na primeira viagem, para lhe mostrar o caminho que o ônibus iria percorrer. "Ele pediu para eu ensiná-lo e disse que iria sozinho. Eu controlava pelo telefone. Ele chegava no terminal e me ligava. Descia do ônibus e me ligava. Aí tranquilizava. À noite a gente se encontrava no metrô e voltava junto", relembrou, sem esconder a felicidade e a realização com o papel de avô.

"Agora posso viver tudo intensamente. Não tive essa chance com o Fagner. Para mim é muito gratificante, estou realizando um sonho", contou.

No passado, restava a Calixto acompanhar apenas os jogos de Fagner e os treinos ocorridos em feriados, quando ele tinha folga no trabalho. Quando o lateral migrou para o futebol de salão, as atividades no período noturno também garantiam a presença do pai no Parque São Jorge. Agora, aposentado, o avô consegue ver tudo, de treinos a amistosos e partidas disputadas por Henrique.

O campo é logo ali

Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians
Henrique, filho de Fagner, é presença constante no CT Joaquim Grava há pelo menos três anos Imagem: Rodrigo Gazzanel/Ag. Corinthians

Henrique tem apenas nove anos, mas já acumula experiência rara entre as crianças da sua idade. Nos últimos meses, o menino já bateu bola com Neymar, Jadson e Pedrinho, treinou com os jogadores do Corinthians no campo, deu entrevistas e até ganhou um vídeo com melhores momentos na TV oficial do clube alvinegro. Na última sexta-feira (15), o Mini-Fagner também bateu bola com o atacante Gustagol em um dos gramados do CT Joaquim Grava.

Apesar da coincidência de terem começado no Corinthians com a mesma idade, Fagner e Henrique deram os primeiros passos no futebol de maneira distinta. O lateral do Corinthians começou no campo e depois passou ao futsal. O filho faz o caminho inverso e deve migrar para os gramados daqui a dois anos - o garoto, apesar disso, mostra intimidade no terreno: em janeiro, deu chutes certeiros em um treino no CT corintiano.

Henrique, que vai completar nove anos no próximo dia 25, iniciou a segunda temporada no Corinthians. De acordo com Maurício Segatto, coordenador da base do futsal, o ponto forte do jogador é a "boa relação com a bola e a inteligência" em quadra. Ele atua como fixo ou ala na quadra. No ano passado, quando ainda estava no sub-8, ganhou a camisa 2 das mãos do técnico - o número foi usado por Fagner no salão.

O lateral corintiano, por sua vez, teve de conviver com incertezas no começo da sua trajetória no Corinthians, pois ele apenas treinou no clube entre abril e dezembro de 1998. "Ele só disputava campeonatos por um time de Santo Amaro, perto de onde a gente morava", relembrou Calixto.

Bastou uma semifinal contra o próprio Corinthians, porém, para Fagner decolar. Na ocasião, mesmo derrotado, ele ganhou o prêmio de melhor jogador do torneio. O clube alvinegro, em alerta, chamou-o em definitivo, e ele não saiu mais do time. Inicialmente, o jogador atuou na meia direita, depois passou à posição de volante, até chegar à lateral. Henrique, segundo o avô, tem aptidão para ser um meio-campista, pois tem "habilidade e boa visão" de jogo.

Calixto, que já foi testemunha de uma história de sucesso, mantém os pés no chão, tal como fez com Fagner. Ele ressalta que o neto deseja ser um jogador de futebol, mas que usará o mesmo discurso do passado. "É uma caminhada muito longa, muita coisa muda no caminho. Não basta saber jogar, tem outros fatores que fazem dar certo", frisou, sem deixar de mostrar otimismo e torcida em relação ao segundo boleiro da família.