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Ex-Flu diz que sofreu preconceito por ser nordestino em carreira no Sudeste

Nelson Perez/Fluminense FC
Imagem: Nelson Perez/Fluminense FC

Marcello De Vico

Do UOL, em Santos (SP)

30/03/2019 04h00

Natural de Touros, Rio Grande do Norte, Edson iniciou a carreira na base do ABC aos 17 anos, depois de ser convencido por amigos a fazer um teste no time de sua cidade. Aos 22, chamou a atenção do futebol paulista e acabou aceitando a proposta para jogar o Estadual pelo São Bernardo. Deixar o Nordeste, porém, não foi tão fácil para o volante, que diz ter sido alvo de preconceito ao longo da carreira que acumula clubes como Fluminense e Ponte Preta, seu atual.

"Incomoda. Por você ser nordestino, pelo sotaque, as pessoas às vezes têm um certo preconceito. Não aconteceu só lá [Fluminense], aconteceu em outros lugares também. A gente tem um jeito de ser, nordestino, até de acolher bem as pessoas quando chegam ao Nordeste, e não gostaríamos que isso acontecesse. Mas são águas passadas. Nunca entendi o motivo de isso acontecer. Sempre recebemos muito bem os atletas que vêm de fora. Mas isso vai de cada um", contou o volante de 27 anos em entrevista ao UOL Esporte.

Um dos lugares que Edson diz ter sofrido preconceito por ser nordestino é o Rio de Janeiro, durante a sua passagem até longa pelo Fluminense. Foram três anos nas Laranjeiras, quase 100 jogos com a camisa tricolor e dez gols marcados, número considerável para um volante. Mas apesar do problema fora das quatro linhas, dentro delas tudo correu bem para o jogador.

"A minha passagem pelo Fluminense foi boa. Eu cheguei, de um jogador desconhecido no cenário nacional, e foi onde pude mostrar todo meu trabalho para o Brasil inteiro. Guardo um carinho muito grande pelo Fluminense, mas tudo na vida tem um início, meio e fim. A gente achou que seria o momento ideal para sair e foi bom para as duas partes. É um clube de muita tradição e fui muito feliz em defender as cores do Fluminense. Vou guardar para sempre", disse.

Do Flu para o Bahia: "fui muito feliz lá"

Depois do Fluminense, Edson atuou por duas temporadas com a camisa do Bahia. Ao fim da primeira, em 2017, o volante pediu para continuar no time baiano para o ano seguinte - apesar da vontade do Flu em voltar a contar com o seu futebol.

"No fim de 2017, conversei muito com as pessoas responsáveis pela minha carreira, com o clube, com a minha família, e chegamos à conclusão de que seria o melhor a se fazer, a permanência no Bahia. Vinha de uma temporada bacana no Bahia, com muitos jogos, e ainda tinha objetivos e a pretensão de ajudar a equipe, por isso achei que seria mais interessante ficar lá. 2018 não foi da forma que eu gostaria, por várias circunstâncias, mas é aquilo que falei do Fluminense: águas passadas, e o carinho permanece com o torcedor do Bahia."

"Fui muito feliz lá, campeão da Copa do Nordeste, classificamos para a Sul-Americano, chegamos à final do Baiano, em 2018 fomos campeão baiano e vice da Copa do Nordeste, então tenho certeza que fiz um trabalho individual bacana lá, e gostei bastante", completou.

Carreira veio após insistência de amigos

Na adolescência, o futebol era encarado por Edson apenas como uma forma de diversão. Não passava pela cabeça do jovem potiguar fazer carreira no esporte. Porém, a insistência de alguns amigos para participar de uma peneira no time de sua cidade deu certo, e ele foi convencido a fazer o teste. Curiosamente, todos os amigos reprovaram, e só Edson chamou a atenção do ABC.

"Foi no interior de Natal. A gente estava jogando uma pelada, e um amigo meu chamou para fazer teste. Aí eu falei: "vou nada, não estou afim de ir, não" [risos]. E depois que ele chamou um monte de vezes eu acabei indo. Fomos eu e mais quatro amigos, mas só quem ficou fui eu, que não estava querendo ir. Foi bem bacana", recordou.

Rápida adaptação na Ponte e líder de estatísticas

Dono dos melhores números nos quesitos desarmes e interceptações da Ponte Preta em 2019, Edson ajudou o time a fazer uma boa campanha na primeira fase. Foram 19 pontos somados em 12 jogos e a sexta colocação na classificação geral. O regulamento atual da competição, porém, fez com que o time campineiro não garantisse uma vaga para as quartas de final.

PontePress/ÁlvaroJr
Imagem: PontePress/ÁlvaroJr
"Fico muito feliz pelo bom início na Ponte Preta. Graças a Deus pude ter bons números, e isso é fruto de trabalho com toda equipe porque individualmente a gente só tem acrescentar, mas coletivamente cada um vai ter a produtividade muito maior do que imaginávamos", disse.

"Faltou um pouco de sorte para gente. O mais importante é saber que o trabalho está sendo bem feito, bem desenvolvido e, infelizmente, pelo regulamento da competição, não podemos nos classificar. Em outros grupos a gente classificaria, mas isso não foi possível devido ao regulamento. Mas sabemos que ainda temos o ano inteiro ainda para fazer um grande trabalho e colocar a Ponte Preta na Série A, que é o lugar onde ela merece. Mas é uma pena não classificar sabendo que a gente fez a pontuação necessária", acrescentou o volante da Ponte, que segue viva na disputa do Troféu do Interior.

VEJA OUTROS TRECHOS DA ENTREVISTA

Trabalho com Jorginho: "cara espetacular"

Tinha trabalhado com o Jorginho no Bahia, mas pouco tempo, uns dois meses. Ele é uma pessoa muito boa, todo grupo gosta dele. Na chegada dele, a equipe deu uma alavancada boa, não desmerecendo o trabalho do Mazola Jr., mas ele consertou a equipe em termos de ela jogar mais, e está sendo uma experiência muito boa no dia a dia. É um cara espetacular, do bem, que procurar dar moral para todo mundo. Ele, com a experiência dele, com certeza vai nos ajudar bastante.

ABC, São Bernardo e Fluminense

Foi um início um pouco difícil devido às circunstâncias do clube, mas aos poucos foi melhorando. Depois de subir as coisas foram acontecendo e, em 2013, fizemos uma campanha muito boa na Série B e o São Bernardo me contratou. Fiz um bom Paulista e o Fluminense me contratou. Pude ser feliz lá, onde passei três anos, de muita intensidade. Só tenho que agradecer a todos, especialmente ao torcedor que me abraçou da melhor maneira possível.

Futuro e objetivos na carreira

Meu contrato vai até 30 de novembro, até o final da Série B. A princípio tenho o objetivo de estar sempre evoluindo, melhorando meu futebol e me tornando um jogador cada vez mais completo e maduro. A nossa grande meta é fazer um ótimo Brasileiro para garantir o retorno à Série A, que é a vontade do nosso torcedor, da diretoria e da comissão técnica. Também temos a Copa do Brasil que deixa vivo nosso sonho de uma competição que é mais curta e tudo pode acontecer. Então vamos trabalhar para que esses objetivos sejam alcançados com muito trabalho.

Ponte pronta para voltar à elite

A Ponte Preta já está com um padrão bem definido de jogo, bem interessante, onde as coisas estão acontecendo da melhor maneira possível. Estamos, sim, preparados para voltar à Série A, claro, com humildade e pés no chão.

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