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Caso Daniel


Caso Daniel: bate-boca e abraço em família Brittes marcam dia no fórum

Dimitri Valle e Karla Torralba

Do UOL, em São José dos Pinhais e em São Paulo

2019-04-02T20:00:00

02/04/2019 20h00

O segundo dia de depoimentos de testemunhas de defesa do caso Daniel foi marcado por tensão entre defensores da família Brittes e Nilton Ribeiro, assistente de acusação e advogado da família de Daniel. Antes dos depoimentos de hoje (2) terminarem, um bate-boca entre os advogados por causa de uma matéria jornalística interrompeu a sequência de testemunhas.

A matéria em questão foi veiculada pela rádio Banda B às 16h19. Por volta de 17h30, a defesa de Edison, Cristiana e Allana, liderada por Cláudio Dalledone Júnior, questionou as falas de Nilton Ribeiro à reportagem. Na matéria, Nilton critica o comportamento dos acusados e diz que "parece que eles estão continuando a festa da Shed aqui no Fórum". "Só faltou a bebida, porque o resto tem. Eles dão risada, fazem chacota? As poucas lágrimas que vi são de tristeza por estarem presos, não pelo crime bárbaro que cometeram", disse à rádio.

A fala irritou os advogados de defesa dos Brittes e de outros réus. Dalledone pediu manifestação à juíza Luciani Regina Martins de Paula e ao promotor do caso, Marco Aurelio Oliveira São Leão, sobre o comportamento dos réus e os dois afirmaram não terem visto tais atitudes.

"Ele desrespeitou nossa classe, desrespeitou o nosso código de ética, porque faltou com a verdade em um ato tão sério que foi a audiência. Infelizmente é colega, meu amigo, gosto muito dele e foi advertido por todos, porque foi um fato que ele criou. Isso ofende a dignidade da advocacia. Infelizmente, jogou para a plateia e isso ficou muito feio. Estamos escrevendo isso na ata", disse Cláudio Dalledone após o final dos depoimentos de hoje.

A juíza já ouviu 36 pessoas nos dois primeiros dias da segunda fase da audiência de instrução. Hoje, foram colhidos 11 depoimentos. A primeira fase foi em fevereiro, quando testemunhas de acusação falaram à Justiça.

O ritmo de depoimentos está acelerado e amanhã estão previstos os depoimentos de Cristiana e Edison Brittes Júnior. A ordem pode mudar, pois os réus só começarão a falar após todas as testemunhas serem ouvidas.

Ao todo sete pessoas são acusadas por envolvimento no assassinato de Daniel em 27 de outubro de 2018. Edison Brittes Júnior, que confessou ter matado o jogador; Cristiana Brittes; Allana Brittes; Eduardo Henrique da Silva, Ygor King e David Vollero, todos presos. Evellyn Perusso responde em liberdade por falso testemunho.

Discussão começa no corredor e termina na sala de audiência

O bate-boca entre defesa e assistente de acusação começou no corredor do fórum de São José dos Pinhais-PR em um intervalo da audiência. Dentro da sala da juíza, a defesa dos Brittes questionou novamente sobre o assunto.

"Longe daqui censurar a imprensa. O único desrespeito é do patrono dos acusados de que os réus promovem festa. Isto não ocorreu. Solicitamos humildemente a vocês, juíza e promotor, pois vai ficar na conta dos defensores. A informação é falsa e tenta criar um factoide", disse Dalledone.

Nilton se defendeu. "Está ofendendo minha honra. Hoje, pela manhã, os réus estavam sorrindo. Represento família enlutada. Não vou permitir desonra maior a Daniel. Disse, a meu ver, que réus estavam participando de festa e não de julgamento. A meu ver é sinal de deboche. Acompanho sofrimento de hora em hora. Se o doutor Dalledone não viu o que aconteceu, é porque está de costas".

Juíza e promotor se manifestaram dizendo que não viram tais cenas relatadas por Nilton e pedindo para que os depoimentos continuassem.

Em nota oficial divulgada na noite de hoje, a família de Daniel saiu em defesa de Nilton, elogiando a postura do advogado e criticando fortemente a atitude dos réus no caso. Confira o pronunciamento abaixo:

A Família Corrêa vem a público agradecer o empenho com que o Dr. Nilton vem conduzindo toda situação desde a morte brutal do nosso querido Daniel. Dr. Nilton tem se mostrado grande muito além do trabalho impecável prestado. Busca, com todo empenho, fazer valer a justiça e que paguem os réus pelo incontestável crime bárbaro que cometeram. Para além disso, zela pela família que hoje luta contra a dor e a saudade. Posicionou-se firmemente diante da imprensa manifestando seu repúdio a conduta desonrosa com que foram tratadas a mãe e a tia, na ocasião das primeiras audiências. Pela maneira desrespeitosa como os réus se portaram na audiência para com o Dr. Amadeu, delegado que, brilhantemente e de forma igualmente profissional, conduziu o trabalho policial. Dr. Nilton alia o lado humano ao profissional ao lamentar profundamente a atitude de pessoas que, além de deliberada e cruelmente tirarem a vida de um inocente, ainda procedam de maneira fria diante da dor dos familiares bem como de todas as autoridades ali presentes.

Advogado dos Brittes cita falhas em investigação

Cláudio Dalledone Júnior avaliou os dois primeiros dias de depoimentos: "A questão cronológica dentro da casa ficou muito bem citada, principalmente as falhas da investigação. Deixou-se de ouvir muita gente, pessoas que estiveram na casa e simplesmente foram desprezadas pela autoridade policial. Pessoas que viram que a casa estava salvaguardada, a parte intima da casa, e que Daniel invadiu a parte intima da casa, assim como invadiu o quarto e deitou na cama e acabou importunando sexualmente a Cristiana".

O advogado se refere a três depoimentos em especial. Do gesseiro Vilmar Coniegner, que esteve na casa dos Brittes na manhã do crime para deixar material de construção no local, do comerciante Douglas Silveira, que vendeu bebidas a Edison Brittes Júnior antes do assassinato acontecer, e de Guilherme Henrique Santos, primo de Cristiana, que afirmou que as visitas recebidas em casa pela família Brittes usavam um banheiro social e não o da suíte do casal, onde Daniel foi encontrado por Edison.

Pai de Cristiana abraça família Brittes após depoimento

O pai de Cristiana Brittes, Pedro Rodrigues, falou à Justiça sobre a postura de Daniel no dia do crime e criticou o comportamento do jogador, que foi espancado após ser visto na cama de Cristiana Brittes.

"Peço perdão para a mãe do Daniel, mas, se fosse meu filho, tinha passado outro tipo de educação: 'meu filho, nunca vá na cama de uma mulher casada, pois você pode ter problemas'. Do meu modo de ver, minha filha foi vítima do Daniel", afirmou Pedro Rodrigues.

Algumas partes do depoimento que falaram do perfil e caráter da família emocionaram Edison Brittes Júnior, que permaneceu de cabeça baixa.

No final, Pedro Rodrigues pediu e abraçou filha e neta e deu a mão para Edison Brittes Júnior. Foi o primeiro abraço público da família.

Médico legista diz que Daniel foi emasculado após morte

O médico legista aposentado Carlos Beltrame disse que Daniel foi degolado e depois emasculado, já sem vida. Beltrame foi testemunha de defesa arrolada por Alexandre Stadler, advogado de Eduardo Henrique da Silva, um dos ocupantes do Veloster preto que levou o jogador para a morte. O laudo oficial do IML, anexado ao inquérito policial foi inconclusivo sobre a ordem dos fatos.

O depoimento procurou derrubar o agravante de meio cruel. Eduardo Henrique da Silva é acusado de homicídio, ocultação de cadáver e fraude processual. "Com sangue acumulado ou não no local do ferimento, é possível provar que a lesão é post-mortem. Se não tem leucócitos no local da lesão, indica que ela foi feita sem reação, ou seja, o corpo não tinha sinal vital", afirmou o médico.

Para o assistente de acusação Nilton Ribeiro, o momento da morte não é suficiente para afirmar que Daniel não foi morto com o uso de meio cruel. "Nos depoimentos dados na delegacia, os acusados disseram que ele gritava que nem um porco e se engasgava com o próprio sangue. Não deixa dúvida que o que aconteceu foi muito cruel. Com todo respeito, o médico legista está equivocado", comentou.

Apresentador de TV é proibido de dar entrevista

O apresentador da Rede Massa, afiliada do SBT, Eleandro Passaia, foi proibido pela juíza Luciani Regina Martins de Paula de dar entrevistas enquanto estiver na condição de testemunha do processo. Passaia foi arrolado como testemunha de defesa da família Brittes para explicar reportagens exibidas na emissora durante o processo sobre assassinato do jogador.

No fórum de São José dos Pinhais-PR, policiais militares que fazem a segurança do local abordaram o apresentador para que ele parasse de falar com repórteres da sua própria emissora e ficasse no lugar reservado a testemunhas. A atitude dos PMs cumpriu ordem da juíza, que por sua vez acatou pedido de Cláudio Dalledone Júnior, advogado dos Brittes.