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Caso Daniel


Audiência tem depoimento de 2h de âncora e mães criticando Daniel

Edison e Cristiana Brittes na audiência de instrução do caso Daniel

Dimitri Valle e Karla Torralba

Do UOL, em São José dos Pinhais e em São Paulo

2019-04-03T20:48:12

03/04/2019 20h48

O terceiro dia de audiência de instrução do caso Daniel terminou no início da noite de hoje (3) após um longo depoimento do âncora da Rede Massa, afiliada do SBT no Paraná. Eleandro Passaia respondeu por mais de 2 horas a questionamentos dos advogados de defesa dos réus sobre reportagens exibidas em seu programa no curso do processo.

Nos últimos dias de oitivas, familiares dos Brittes chegaram a acusar a emissora de "fake news" ao abordar histórias sobre brigas e relações pessoais de Cristiana, Edison e Allana. Para a defesa, o conteúdo pode "influenciar jurados com informações erradas".

O advogado da família Brittes, Cláudio Dalledone Júnior, explicou que chamou Passaia para depor por causa da "espetacularização promovida pelo âncora nos programas", o que pode, segundo ele, ter efeito no julgamento do caso e na opinião pública. O âncora, por sua vez, afirmou que em nenhum momento "tomou partido" em seu programa Tribuna da Massa.

A juíza Luciani Regina Martins de Paula interrompeu algumas vezes o longo depoimento de Passaia e pediu objetividade ao advogado de defesa dos Brittes, para que as perguntas à testemunha aboradessem questões pertinentes ao caso Daniel. "Quero que a testemunha fale sobre fatos e não sobre fatos inúteis", disse em determinado momento, após Dalledone questionar o jornalista sobre "o que é testemunha".

Em outras ocasiões, jornalista e advogado bateram de frente e a juíza teve de pedir para que os dois se comportassem. Dalledone afirmou que "a forma de fazer jornalismo de Passaia não é correta" e foi rebatido pelo âncora com a acusação de "censura".

Dimitri do Vale/UOL
Eleandro Passaia é jornalista e foi arrolado como testemunha Imagem: Dimitri do Vale/UOL
Desde segunda-feira, quando teve início a segunda fase da audiência de instrução do caso, foram ouvidas 44 testemunhas. Para o advogado da família de Daniel e assistente de acusação Nilton Ribeiro, o dia de hoje foi "perdido". "Não acrescentou nada no processo. Testemunhas que não disseram absolutamente nada sobre o fato, sobre a morte. Só assuntos periféricos para tentar tirar o ponto principal que foi a morte do jogador Daniel. Perdemos um dia inteiro em discussões banais e sem seriedade", afirmou.

Dalledone avaliou os depoimentos de maneira positiva. "Tivemos um ato processual dos mais relevantes, ouvimos testemunhas, encerramos uma fase importante de caso rumoroso. O que a defesa trabalhou foi no sentido de que não vê admitido excessos da acusação", avaliou. Para a defesa dos Brittes, os "excessos" seriam a acusação de ocultação de cadáver, a qualificação de "meio cruel" e a acusação de homicídio contra Cristiana Brittes.

Ao final da audiência de hoje, a juíza afirmou que aguardará o depoimento de outras três testemunhas, as quais falarão por carta precatória, de Minas Gerais. Só depois dessas oitivas é que Luciani Regina Martins de Paula marcará a data dos interrogatórios dos sete réus acusados em diferentes níveis pela morte do jogador: Edison Brittes Júnior, réu confesso; Cristiana Brittes, Allana Brittes, David Vollero, Ygor King, Eduardo Henrique da Silva e Evellyn Perusso, que responde em liberdade por falso testemunho.

Mãe de Cristiana culpa Daniel

Gessi Rodrigues deu o primeiro depoimento do dia e culpou Daniel de ter causado a própria morte ao se deitar ao lado de Cristiana Brittes. A fala segue a linha de defesa dos Brittes, centrada no comportamento do jogador no dia do assassinato.

Cláudio Dalledone Júnior perguntou à mãe de Cristiana: "quem causou a morte?" "Ele mesmo. Sinto muito pela família dele, mas ele é o culpado. Essa brincadeira acabou com a minha família", respondeu a mãe de Cristiana.

"Eu entendo que ela [Cristiana] é uma vítima. Culpado é quem foi provocar, se deitar na cama com ela. Tinha banheiro lá fora. Não tinha que ter ido lá dentro do quarto", continuou Gessi Rodrigues. "O que aconteceu foi uma fatalidade, aconteceu porque foi provocado, ninguém foi atrás", afirmou.

Mãe de Edison Brittes explica por que registrou B.O contra o filho

Doralice Ferreira dos Santos depôs em defesa do filho, o réu confesso Edison Brittes Júnior. Ela explicou que registrou um boletim de ocorrência contra ele por injúria em fevereiro, mas que isso é assunto resolvido na família.

"Emprestei dinheiro para ajudar o comércio do meu filho. Dependo do meu filho, ele me manda dinheiro. Nos acertamos. Na semana da fatalidade, eu ia fazer acordo com ele", falou.

Ao final do depoimento, Doralice abraçou Edison Brittes Júnior, conhecido como Juninho Riqueza.

Polícia não viu as imagens da boate Shed

As imagens das câmeras de segurança da boate Shed, em Curitiba, não puderam ser vistas e analisadas por policiais envolvidos na investigação do assassinato do jogador Daniel. Segundo depoimento do escrivão Mateus Henrique Cunha de Faria, que ouviu e escreveu os depoimentos de testemunhas e acusados, o arquivo enviado pela casa noturna "estava corrompido".

"Informaram que Shed se comprometeu [a entregar as imagens] em HD, mas liberaram em 'pen drive'. A polícia trabalha com [o sistema operacional de computadores] Linux. Não conseguimos visualizar as imagens, estavam corrompidas. Mas o que aconteceu na Shed não era o alvo da nossa investigação. Conseguimos identificar quem teve participação na festa e agressões", disse o escrivão.

A fala dele diverge, em partes, do depoimento de Marcelo Guerra, segurança da boate, que trabalhou durante a festa de Allana na noite de 26 de outubro. Guerra afirmou que as imagens foram entregues em um DVD e que, apesar de alguns arquivos apresentarem problemas para exibição, um deles mostra uma confusão na saída da casa noturna envolvendo Daniel, que teria "importunado uma menina".

Mãe de Evellyn diz que filha teve medo após crime

Rosangela Perusso, mãe de Evellyn, que é ré por falso testemunho, reforçou o depoimento da filha à polícia durante o inquérito sobre a participação de Eduardo Purkote nas agressões a Daniel na casa da família Brittes. Seu depoimento foi baseado nos relatos feitos pela filha, em casa, após o crime.

Segundo Rosangela, Evellyn teve medo de relatar o que aconteceu após a comemoração do aniversário de 18 anos de Allana na boate Shed. "Em casa, conversamos. Ela ficou no quarto e perguntei o que tinha acontecido. Ela me relatou algumas coisas, mas com muito medo disse: 'mãe, eu estou com medo, não posso contar'. Ela chorava muito e começou a relatar algumas coisas que viu", contou.

"Disse que ouviu que Cris e Alana gritavam pedindo ajuda. Foram até o quarto e comentou que viu uma briga, que estavam realmente batendo no Daniel. Comentou comigo que um dos irmãos Purkote batia e o outro pedia pra parar, junto com o Mineiro. Quem não bateu foi o irmão de Purkote e o Mineiro [Lucas]", relatou.

"Mudou tudo do dia para noite, com medo de sair. A Evelyn que era loira agora está morena, pediu demissão, pois não conseguia trabalhar", disse.

Testemunha falta a depoimento em Minas Gerais

Uma das testemunhas arroladas pela defesa da família Brittes em Belo Horizonte, Ludmila Garrid, faltou ao depoimento, que seria prestado por carta precatória. A juíza ainda espera que a testemunha seja ouvida em outra data.

"Segundo foi dado nota sobre isso, seria uma testemunha de suma importância que daria revelações sobre o Daniel e estamos aguardando, constada em ata a negativa da pessoa. Inclusive temos desconfiança de que seja um factoide. Ela pode ter nome e endereço, mas saber algo sobre a índole do Daniel, não existe", disse Mithelle Weber, advogada da família de Daniel e assistente da acusação em Minas Gerais.

Cláudio Dalledone Júnior disse que a testemunha está de férias. "Ela justificou a ausência, porque está em período de férias. Seremos intimados para indicar novo endereço. É uma relevância determinante, ela vai compor o processo e terão amplo acesso para saber a relevância. É uma testemunha que falará do Daniel", explicou.