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Grupo de mães faz até bingo de leitoa para filhos jogarem na Europa

Time de garotos tenta juntar dinheiro para jogar campeonato na Europa - Reprodução Facebook
Time de garotos tenta juntar dinheiro para jogar campeonato na Europa Imagem: Reprodução Facebook

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

25/04/2019 04h00

Os meninos do sub-16 do Bugrinho Ouro Verde, projeto licenciado pelo Guarani em Campinas, conseguiram uma raridade no futebol: vaga para um campeonato na Europa. Mais difícil está sendo as famílias juntarem dinheiro para conseguir pagar as passagens para a Suécia. Neste momento, vale apelar para qualquer coisa, de bingo com leitoa à ajuda de um craque brasileiro do Liverpool.

A organização da Gothia Cup banca hospedagem e alimentação, mas não há recursos para desembolsar US$ 2,2 mil (R$ 8,7 mil) do bilhete aéreo, o que está custando o sono e os finais de semana dos pais. "Está difícil. Sou diarista e acabo fazendo duas diárias por dia. Chego em casa e faço pão recheado para vender", explica Andrea Godoy Silva, 45 anos.

Ela é mãe de Natan Cleiton da Silva, 16 anos, e junto com outras 13 famílias criou um grupo para arrecadar dinheiro aos finais de semana. Chamado de Mães em Ação, elas e os maridos montam barracas em festas de igreja, jogos de várzea e conjuntos habitacionais de Campinas. Os homens pilotam a churrasqueira de espetinhos e as mulheres vendem pastel e bolo.

No feriado de 1º de maio haverá um evento especial. A igreja Dom Bosco cedeu o salão paroquial para um bingo. Os prêmios são produtos doados por comerciantes da região. Tem R$ 500 em dinheiro, bicicleta, televisão, curso de autoescola, seis meses de escolinha de futebol e uma leitoa de 30 quilos limpa.

O dia será de trabalho intenso porque haverá a venda de produtos mais o bingo, mas qualquer dinheiro que entra é festejado. Andrea diz que a média é fazer R$ 2 mil por final de semana. "No final das contas, não sobra muito para cada família porque precisa dividir o total por 14. Dá quase nada".

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Não existe plano B

Andrea ressalta que o grupo de pais descarta a possibilidade de não reunir os US$ 2,2 mil. Eles já bancaram duas das cinco parcelas e dizem que darão um jeito para as que faltam. A diarista afirma que eles torcem mais que o ministro da Economia para o dólar cair.

"A gente não pensa em não conseguir. A gente caminha com fé. Sabemos que é muito dinheiro, um valor que foge da nossa realidade. É o preço de um carro. Mas a gente não vai desistir nunca do sonho dos nossos filhos".

Andrea faz todo o esforço possível porque a ela e o marido estão longe de ganhar o suficiente para comprar a passagem. O marido é ajudante de funilaria. A renda mensal da família depende do número de faxinas que ela consegue fazer, mas nunca vai muito dos R$ 2 mil.

Isto com ela saindo da cama às 5 horas da manhã e voltando para casa somente no final da tarde. O marido chega um pouco depois e, junto com Natan, se envolve no turno extra da família. Fazem bolo até tarde da noite e só então vão descansar.

"A rotina está bem cansativa, você não tem noção! Aproveitei que na Páscoa teve bastante encomenda. O normal da nossa vida era deitar cedo, mas agora meia-noite, uma hora e só então estamos indo deitar. A gente não descansa. Vou dormindo no ônibus os 40 minutos até o centro e depois tem outro ônibus com mais meia hora de sono. Na volta é a mesma coisa."

Reprodução Facebook
Imagem: Reprodução Facebook

Ajuda estrangeira

A mãe diz que Natan faz a parte dele ajudando aos pais e treinando forte. Ela tem certeza que o time dele fará bonito na Suécia. Ressalta com orgulho que ano passado venceram oito competições, sendo cinco invictos. O desempenho rendeu convite para um torneio em Florianópolis.

Houve uma mobilização dos pais, mas o custo era R$ 1,2 mil e foi mais tranquilo conseguir bancar a viagem. O troféu conquistado em Santa Catarina valeu a vaga na Gothia Cup. Agora a tarefa é mais árdua e Andrea mobilizou gente que joga o Campeonato Inglês. Fabinho, jogador do Liverpool, também está na corrente para permitir que Natan viaje para Suécia.

'Conheço o Fabinho desde pequenininho, morava perto da minha casa. Sou secretária do pastor João Roberto Tavares, que é o pai dele. Ele começou nos campinhos da região, fez teste em Paulínia e apareceu depois de uma Copa São Paulo. Vi o Fabinho crescer e os meninos que moram por aqui se espelham nele".

Ela conta que em duas ocasiões o jogador do Liverpool soube que Natan estava precisando de chuteira e mandou um par novinho para o garoto. Agora não foi diferente. "Ele mandou outra e a gente vai fazer uma rifa. Ainda falta muito dinheiro, mas será de grande ajuda".

A família também começou uma vaquinha na internet. O resultado está aquém do esperado e até o momento houve somente R$ 150 em doações. Mas ela, o marido e todos os outros pais seguirão tentando. Andrea com a ajuda que cada pessoa consegue oferecer. De um par de calçado, que poderia estar nos gramados da Liga dos Campeões, até uma leitoa.

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