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Copa do Mundo Feminina - 2019


Filha de goleira que fugia de casa para jogar, zagueira Kat sonha com Copa

Ana Carolina Silva

Do UOL, em São Paulo

2019-05-16T04:00:00

16/05/2019 04h00

Hoje (16), Vadão anunciou as convocadas para defender o Brasil na Copa do Mundo. Kathellen Sousa, zagueira de 23 anos e incluída no grupo para o Mundial, tem um ponto que joga a seu favor: ela até já está na França, onde o torneio ocorrerá a partir de 7 de junho. A atleta do Bordeaux carrega nas costas os seus próprios sonhos e os da mãe, que foi goleira quando o futebol feminino era proibido no país.

Hoje aos 53 anos, Severina Antonia de Sousa passou a juventude fugindo de casa para jogar futebol às escondidas com os meninos porque seu pai não aprovava este comportamento. Esta restrição não era exclusividade de Pernambuco, onde a mãe de Kat cresceu. Era a realidade para o Brasil inteiro. Para as mulheres, jogar bola foi crime até 1979.

"Na época, havia muita discriminação e mulher não podia jogar bola... Ela só conseguiu jogar futebol mesmo nos anos 80, quando foi para o estado de São Paulo por trabalho para conseguir uma vida melhor, mas sempre jogou futebol nas ruas. Não existiam clubes ou lugares para a prática de futebol feminino", contou Kat ao UOL Esporte.

arquivo pessoal
Kat tem um sonho. E é o mesmo de sua mãe Imagem: arquivo pessoal

"Desde que eu me conheço como gente, ela sempre jogou futebol. Essa paixão veio dela, por vê-la jogar e por jogar com ela. A gente ainda bate uma bolinha no tempo livre", completou. Uma geração mais tarde, a zagueira começou a realizar o sonho da mãe jogando futsal na Baixada Santista. Mas a falta de caminhos no Brasil a levou para o futebol universitário dos Estados Unidos, onde começou a jogar e estudar aos 18 anos.

Severina tem acompanhado de perto a trajetória da filha, que agora veste a camisa do Bordeaux, da França, e terminou a temporada na quarta posição do nacional - é difícil competir com Lyon e Paris Saint-Germain (campeão francês e vice, respectivamente), duas potências internacionais do futebol feminino.

A atleta se emociona com a ideia de jogar uma Copa ao lado de estrelas como a camisa 10 Marta, a goleadora Cristiane e a volante Formiga, que, aos 41 anos, defende o rival PSG. Kat tem 23 e fala sobre as veteranas com evidente admiração; assim como outros de sua idade, ela acha difícil não tremer diante de ídolos.

"Eu diria que estar com elas dá tremedeira toda hora. São jogadoras de alto nível, então você tem de treinar e jogar no mesmo nível que elas. Então sempre tem aquele pensamento de 'você não pode fazer nada errado, tenta fazer tudo certo sempre e joga seu futebol'. Mas é bom, é um friozinho na barriga bom", afirmou.

Antes de ser anunciada como uma das 23 jogadoras que defenderão a seleção, Kathellen falou sobre a ansiedade que vinha sentindo.

"A expectativa é grande... É claro que a gente nunca sabe o que pode acontecer, porque não é a gente que decide e fala 'me convoca'. Eu estou de dedos cruzados para ser convocada. Espero poder vestir a amarelinha em breve, é o sonho de toda mulher que joga futebol", disse ela, antes de ouvir seu nome ser chamado por Vadão no fim da manhã de hoje.

divulgação/CBF
Imagem: divulgação/CBF

Com Vadão, o time do Brasil chegará à Copa com nove derrotas consecutivas; o técnico tem sido criticado pelo desempenho da seleção, mas a CBF decidiu mantê-lo no cargo para o Mundial. Convocada, Kat é mais uma jovem atleta em uma equipe que tenta encontrar um caminho. E ela admite: "Dá um pouquinho de medo".

"Mas, ao mesmo tempo, a ideia do nosso treinador era enfrentar equipes grandes, de nome, que pudessem mostrar o que a gente deveria melhorar antes da Copa. Apesar de não termos tido os resultados esperados, fomos melhorando com o tempo", avaliou a zagueira.

"(A preparação) Foi um pouco difícil porque a gente não teve muito tempo para treinar juntas, as meninas não jogam todas no mesmo lugar. É difícil manter o pessoal com o mesmo pensamento. Mas o nosso treinador conversou sobre isso, e as meninas estão em seus clubes trabalhando para melhorar isso e ir com tudo na Copa", acrescentou a filha de Severina.

A ideia de disputar uma Copa do Mundo na França, país em que atua com o Bordeaux, a deixa ainda mais animada. "Eu ficaria honrada. Eu gostaria de mostrar para eles (franceses) que as minhas colegas de equipe estão aqui para mostrar que o meu país é o país do futebol mesmo", concluiu.

Mike Egerton/PA Images via Getty Images
Imagem: Mike Egerton/PA Images via Getty Images

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