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Times de menor orçamento do Brasileiro criaram alternativas em jogos sem TV

Cesar Greco
CSA x Palmeiras ocorreu em 1/5 no estádio Rei Pelé e não foi transmitido em nenhum canal de TV Imagem: Cesar Greco

Gabriel Carneiro e Thiago Tassi

Do UOL, em São Paulo

2019-05-26T04:00:00

26/05/2019 04h00

O Campeonato Brasileiro inaugurou a era das partidas "no escuro" do futebol nacional. Até agora, quatro jogos ficaram (e outros ficarão) sem transmissão de TV, fruto da demora no acordo entre Palmeiras e Grupo Globo para exibição em TV aberta e pay-per-view, que foi fechado só na quinta-feira, e (por enquanto) a falta de entendimento entre Athletico e a emissora por jogos no Premiere. Sem transmissão de seus jogos, times que não tem nada a ver com a briga sofreram. Tiveram, além de responder a reclamações de seus patrocinadores, encontrar alternativas para entregar resultados aos parceiros.

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Entre os seis clubes que tiveram jogos sem transmissão até agora, três têm receitas previstas em orçamento inferiores a R$ 100 milhões: CSA, Chapecoense e Goiás. São realidades bem distantes dos R$ 561 milhões do Palmeiras. "Do ponto de vista comercial, nós acabamos perdendo porque os parceiros esperam estar em todos os jogos. Quando tenho um, dois, três jogos que não serão transmitidos, nossos valores de patrocínio acabam caindo. Isso é ruim não só para o CSA, mas para o futebol brasileiro", explica Ricardo Lima, gerente comercial do clube alagoano, ao UOL Esporte.

Entre as 90 partidas marcadas para o período pré-pausa da Copa América, três não foram transmitidas em lugar nenhum: CSA 1 x 1 Palmeiras, Chapecoense 1 x 1 Athletico e Atlético-MG 0 x 2 Palmeiras. Uma ainda não foi disputada: Goiás x Athletico. Essa falta de transmissão é inédita em 30 anos.

Igor Pereira/AGIF
CSA, do meia Victor Paraíba, possui oito marcas expostas na camisa para esta temporada Imagem: Igor Pereira/AGIF

O CSA é exemplo de clube diretamente impactado pela falta de transmissão, pois tem receita prevista de R$ 40 milhões para 2019, já contando com oito patrocinadores fixos em camisa e shorts, e mais uma série de parcerias que ajudam a reduzir custos do dia a dia: "Tivemos um jogo contra o Palmeiras que não foi transmitido e que era um jogo com Rei Pelé lotado, que poderia ser melhor trabalhado, com maior exposição do patrocinador, até porque você está jogando com o atual campeão brasileiro. Perdemos muito, mas os parceiros entenderam. Claro, o clube teve que propor outras formas de compensar essa falta de exposição através de ativações", diz o dirigente.

Uma das alternativas encontradas foi exibir as marcas de patrocinadores na camisa de treino, algo que não estava previsto nos contratos originais, mas funcionou como uma espécie de compensação.

"Quem é menor sempre sofre mais, sempre é pior para o time de menor estrutura. Na verdade, os contratos (de transmissão) dessas equipes já estão assinados, então financeiramente elas não estão perdendo. Elas não vão deixar de ganhar. Agora, obviamente elas estão perdendo exposição para o patrocinador delas, que com certeza gostaria de aparecer. Esses clubes são vítimas", explica Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Bruno Fernandes/Jornal Extra de Alagoas
Estádio Rei Pelé recebeu mais de 15 mil pessoas na 2ª rodada do Campeonato Brasileiro Imagem: Bruno Fernandes/Jornal Extra de Alagoas

Chapecoense bomba web e "comemora" Palmeiras

O empate em 1 a 1 da Chape com o Athletico na Arena Condá não foi transmitido em lugar nenhum em razão da falta de acerto do clube paranaense com o Premiere. Ao contrário do CSA, os catarinenses dizem que não tiveram problemas com patrocinadores porque eles entenderam que a assinatura de outros clubes com a Globo não é algo sob controle da Chapecoense. Porém, o clube se preparou para a partida no escuro com ações nas redes sociais.

Matheus Sebenello/AGIF
Chapecoense x Athletico teve público de 6 mil pessoas na 3ª rodada. Só elas viram o jogo Imagem: Matheus Sebenello/AGIF

"Fizemos uma transmissão mais intensa no Twitter, no Facebook colocamos alguns lances, principalmente do início e gols, e no Instagram tivemos uma intensidade ainda maior, pesamos a mão nos Stories e no feed também publicamos mais que o normal. Tivemos, assim, uma audiência um pouquinho maior ao que temos com jogos na TV. O que teve também foram nossos torcedores um pouco confusos com o jogo não estar sendo transmitido nem no Premiere, então fizemos alguns tweets de informação e isso foi o que mais chamou atenção", diz João David De Nes, diretor de marketing da Chapecoense.

A Chape recebe o Palmeiras no próximo dia 2, pela sétima rodada do Brasileirão. Até quinta-feira, não havia perspectiva de transmissão desta partida na TV, o que atrapalharia os planos do time catarinense, como explica De Nes: "Tínhamos programado para o dia 31 a inauguração da nova loja do clube e lançamento das novas camisas 1 e 2. Essas ações, organizamos para que fossem casadas com o jogo contra o Palmeiras, como fizemos ano passado com o Flamengo, para estrear a camisa verde justamente no domingo. Então, para nós é superpositivo que seja transmitido, aumenta nossa exposição. Vemos com ótimos olhos."

Goiás tem plano de web rádio: "Canal direto"

O próximo jogo escondido do Brasileirão será entre Goiás e Athletico, pela nona rodada - a última antes da pausa da Copa América. Como a TV Globo não transmitirá, o Goiás assinou com o SporTV e o Athletico com a TNT, será mais um jogo sem transmissão em qualquer canal. O time do Centro-Oeste já se prepara para jogar "às escuras" no estádio Serra Dourada. Uma das alternativas pensadas pelo clube é agilizar o projeto de uma rádio pela internet para transmitir a partida.

"O Goiás tem o projeto de lançar uma rádio web, porque ela consegue atingir pontos que nem as rádios convencionais conseguem. É assim que podemos manter o torcedor ligado minuto a minuto. É um projeto embrionário, mas é vontade de todos. Estamos bolando e muito em breve vamos estar com ela funcionando. É uma experiência muito rica, um canal direto do clube com o fã", diz Eduardo Rezende, responsável pelo marketing do Goiás.

Reprodução/Facebook
Somente quem comparecer ao Serra Dourada poderá ver Goiás x Athletico no próximo dia 13 Imagem: Reprodução/Facebook

"Em questão de visibilidade você perde, é claro. Mas os clubes têm que se virar. Se a marca está fora da mídia, escondida, ela vai ter dificuldade no mercado. Então é preciso ser criativo, e o que conseguimos fazer é minimizar (o prejuízo). Vamos bolar um plano para os jogos sem transmissão, neste ano ou nos próximos, e potencializar os jogos que temos transmissão. Não é porque não está sendo transmitido que o torcedor vai se afastar, e a obrigação do marketing é manter a chama acesa."

Especialistas criticam amadorismo e alertam clubes

A transmissão de jogos na TV tem que estar associada a diversas outras ações que um clube pode fazer para expor seus patrocinadores, segundo especialistas em marketing esportivo. Ainda que a TV seja o principal canhão de retorno para uma marca, há, sim, outras formas de estreitar a parceria. E elas precisam cada vez mais ser feitas.

"É preciso lembrar que patrocínio não é só visibilidade, ou não deveria ser só isso. É dever do marketing do clube criar outras coisas para não depender só de visibilidade", afirma Martinho, que ainda reforça o poder das redes sociais neste processo.

Divulgação/CBF
Apenas as nove primeiras rodadas do Brasileirão já foram desmembradas pela CBF Imagem: Divulgação/CBF

A questão pode ir além. João Henrique Areias, consultor e professor de gestão e marketing esportivo, e que já trabalhou em clubes como Flamengo e Avaí, diz que em 30 anos não houve evolução no conceito da distribuição das cotas de transmissão no Brasil, e isso prejudica quem tem menor orçamento.

"A falta de um planejamento bem feito (entre as equipes) faz eles sofrerem, porque eles são mais fracos e, na hora de uma discussão, prevalece o desejo das equipes mais tradicionais. Tem que haver mudança no modelo de gestão de todos."

Martinho lembra que as más gestões no esporte historicamente impediram a discussão sobre valores de transmissão. "A subjetividade (de quanto valem os direitos de transmissão de cada clube) não era discutida até então, porque todos os clubes precisavam do dinheiro da Globo. Então ninguém perdia tempo, até porque esse dinheiro muitas vezes já tinha sido usado."

Thiago Ribeiro/AGIF
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

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