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Advogado destaque no STJD tenta eleição no Flu: "clubes sem credibilidade"

Mario Bittencourt é um dos candidatos à presidência do Fluminense - Armando Paiva / Divulgação
Mario Bittencourt é um dos candidatos à presidência do Fluminense Imagem: Armando Paiva / Divulgação

Alexandre Araújo e Leo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

06/06/2019 04h00

Candidato à presidência do Fluminense pela segunda vez (foi derrotado por Pedro Abad em 2016), o advogado Mario Bittencourt, 40 anos, chega à eleição em uma chapa que tem como vice Celso Barros, ex-presidente da Unimed, que manteve longa parceria com o Flu. Com um discurso baseado na reorganização da estrutura e em um novo modelo para gerir os problemas de dinheiro, o profissional que se destacou em defesas importantes do Tricolor no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) terá como adversário no pleito do próximo sábado (8) Ricardo Tenório, que era seu aliado até o início de abril e que foi seu candidato a vice em 2016.

"Vamos trazer jogadores importantes sem desembolso do clube no ponto de vista de compra. Se você tiver o mínimo de criatividade e for respeitado no mercado, consegue montar um time um pouco mais forte com jogadores façam a torcida encher o Maracanã", afirmou ao UOL Esporte.

A entrevista com Ricardo Tenório será publicada amanhã. Confira a íntegra da conversa com o candidato da chapa "Tantas vezes campeão".

Qual será seu primeiro ato se eleito?
"Colocar os salários em dia. Os direitos de imagem e todos os salários dos funcionários do clube. Acredito que a diretoria ainda pague alguma coisa, mas, certamente, pelo menos as imagens estarão em atraso. Então, a primeira coisa que vou fazer é buscar recursos para colocar tudo em dia".

A dívida líquida do clube passa dos R$ 600 milhões. Um clube assim é governável?
"É. É governável desde que o Fluminense passe a definir metas de curto, médio e longo prazo de hierarquização da dívida. O que significa isso? Escolher o que o Fluminense vai pagar, ou seja, priorizar o pagamento das dívidas mais graves, que trazem mais prejuízos e mais bloqueios ao nosso fluxo de caixa, que são as penhoras. Então, um dos nosso primeiros atos, também, vai ser buscar uma nova negociação das dívidas do Fluminense, como por exemplo a da dívida trabalhista, que está fora da centralização de execuções. Tentar, de primeira, negociar isso. Se conseguirmos negociar esses parcelamentos novamente, voltamos a ter esse fluxo e fica totalmente governável".

Por que nunca ninguém conseguiu fazer isso, então?
"Conseguiu, sim, havia o ato trabalhista de 2011. Você vê que o Fluminense teve dois anos, até 2014, com bastante possibilidade de trabalhar seu fluxo de caixa. Só que, nestes dois últimos anos, a gestão foi fazendo novas grandes dívidas e essas grandes dívidas estão fora do parcelamento. Parcelamento tem data de corte. A data de corte é novembro de 2011. A nossa tentativa é ampliar essa data de corte justamente para que a gente consiga colocar as dívidas que estão fora para dentro do parcelamento. É voltar a pagar ele por mês e, aí, ter o fluxo de caixa. Então, aconteceu, sim, o parcelamento no passado, mas foram feitas novas dívidas além do parcelamento".

E as dívidas não-trabalhistas?
"Aí tem o parcelamento do Profut e a dívida cível, tem de tentar criar um condomínio de credores, como eu chamo. Fazer como se fosse uma centralização interna. Chamar os credores e criar um fluxo de pagamento com as receitas que o Fluminense tem. Por que não há centralização de processos cíveis, por exemplo, mas essa dívida é muito mais administrável porque ela é uma dívida com credores que tem dia a dia com o clube, pessoas envolvidas no futebol, clubes de futebol, empresas que investem no futebol. Dívidas do Fluminense são com esses entes do próprio futebol. Como são com os próprio entes do futebol, é mais fácil de negociar, por exemplo, do que a dívida trabalhista e a dívida fiscal. A gente voltando aos parcelamentos, colocando o Profut em dia, tendo as certidões negativas e colocando a dívida trabalhista em dia, começamos a ter fôlego e fluxo para buscar novas receitas".

Qual você acha que pode ser o número realista de arrecadação anual?
"Acho que hoje arrecada entre R$ 200 milhões/ R$ 220 milhões por ano. Nossa expectativa é fazer um grande plano de sócio futebol para tentar fazer com que, em médio prazo, o Fluminense possa aumentar esse faturamento para uns R$ 300 milhões por ano, que seria um número mágico, em nossa opinião, para o Fluminense sobreviver e, ao mesmo tempo, ter grande time de futebol".

Qual o papel da torcida neste momento delicado do clube?
"Primeiramente, tem o papel da diretoria. Depois vem o da torcida. Temos de criar mecanismos como um grande plano do sócio futebol para que os torcedores possam fazer adesão. E o Fluminense tendo um sócio futebol forte, pagaria a folha. Nosso sonho é ter 100 mil sócios, mas se conseguir fidelizar 40 mil a R$ 50 por mês, por exemplo, de tíquete médio, estamos falando de R$ 2 milhões por mês, o que já seria um bom aporte no futebol. Se conseguirmos aumentar esse tíquete ou aumentar o número do sócio futebol, chegar a um nível de clubes que têm 80 mil, 90 mil sócios futebol, a gente já teria uma grande receita. Então, papel da torcida é aderir aos planos de sócio futebol e ajudar o clube, tendo a certeza que 100% do sócio futebol vai ser destinado ao departamento de futebol".

A receita do sócio-torcedor não é investida apenas no futebol atualmente?
"Na verdade, o Fluminense tem um caixa único. Ninguém paga a conta de ninguém. A conta é única, todo dinheiro que entra de um lado e de outro é jogado em um caixa única e a nossa filosofia de gestão, um dos nossos mais importantes planos para gestão, é a divisão de centro de resultados. Ou seja, tem de pensar o lado inverso também. Temos sócios dentro do clube que pagam a mensalidade para poder usar o clube social. A nossa ideia é separar isso por centro de resultados, ou seja, o que é receita do futebol é só do futebol, o que é receita da sede social e esporte olímpico, é só sede social e esporte olímpico. E aí, damos sustentabilidade a essas outras áreas do clube com essa divisão de centro de resultado".

E o que você gostaria de implantar no sócio-futebol?
"Nosso programa de sócio-futebol é muito, muito extenso porque ele é baseado em planos como o do Benfica, o do Sporting e do Palmeiras. São muitas ações. Ficaria aqui uma hora destrinchando. Acho que a principal delas é o programa de pontuação que a gente quer fazer, ou seja, todas as vezes que o sócio futebol adquirir produtos do Fluminense ou for aos jogos, ele vai ter um sistema de pontos em que a cada pontuação que atinge, troca por novas experiências e por novos produtos. Sistema que se retroalimenta e vai fazendo com que o sócio que tenha cada vez mais interesse. A outra questão é trazer benefícios aos sócios, como por exemplo, desconto em faculdade, em lojas, no comércio em geral. Trazer possibilidade de, usando a carteira dele de sócio torcedor, possa ter desconto em uma série de situações que possam fazer com que ele faça a adesão e permaneça como sócio do Fluminense. Tem uma outra ideia muito bacana que é criar uma categoria que quer investir na divisão de base também, que é a categoria "Moleques de Xerém". Acho que seria bem legal criarmos essa categoria. E também a questão de viabilizar o voto online. Isso é um grande projeto nosso para que possa, o sócio-torcedor, exercer sua cidadania e votar nas eleições do Fluminense em todo o Brasil".

Parcerias recentes do Fluminense foram marcadas por fim litigiosos, casos da Dry World e Valle Express, por exemplo. Você atribui isso a que?
"Más escolhas. Por que essas más escolhas acontecem? Por que o Fluminense não tem um departamento, que nós vamos criar, que é a vice-presidência de Governança Corporativa e Compliance. Se você tem um setor de compliance, ou seja, que investiga os parceiros no ponto de vista positivo, o histórico, não significa que você não vai errar, mas vai minimizar os erros. Então, quando minimizar esses erros, passando pelo setor de complaince, e o Fluminense implementando uma governança corporativa, em que todos possam ter metas a cumprir e ter a quem se reportar, isso vai facilitar na hora da escolha. Por exemplo, não vamos fazer uma escolha única e simplesmente porque existe uma grande promessa que, talvez, não se saiba nem sequer a solidez dessa empresa. Fluminense fez algumas trocas que não foram boas, como por exemplo, o material esportivo. Então, sem nenhum tipo de crítica pejorativa ou destrutiva com quem passou, mas foram erros que aconteceram e não pretendemos ter esses erros. Como a gente minimiza? Tendo a vice-presidência de Governança e Compliance".

Fluminense é um clube sem credibilidade no mercado?
"O clube está sem credibilidade e sem crédito. Acho que muito em parte pela péssima gestão que foi feita do ponto de vista, inclusive, de gestão de pessoas e de crises. Fluminense teve atitudes, como aquela demissão em massa de jogadores por WhatsApp, que foi algo desastroso. Acho que a minha figura e a figura do Celso, dois caras que estão há muitos anos no futebol, trazem essa credibilidade de volta".

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Seus opositores dizem que o Celso estaria passando por dificuldades financeiras e o Fluminense seria uma forma dele se reerguer. O que tem a dizer? E qual exato papel que ele tem?
"Ele vai ser o vice-presidente eleito do clube. Vai ficar responsável, sim, pela parte institucional do futebol, ou seja, vai cuidar do futebol. Não vai ter, a princípio, um vice de futebol abaixo dele. Vai ser ele e, abaixo, a estrutura profissional. Ele vai ser a figura do presidente, que sou eu, no futebol. Ele vai ser o cara que representa o Fluminense no futebol institucionalmente e, abaixo dele, toda a estrutura executiva: diretor-executivo, coordenador, supervisor, como já existe hoje. A estrutura não será mexida. Com relação à vida pessoal dele, acho que é uma covardia das pessoas que estão do outro lado quererem falar da vida pessoal e financeira das pessoas. Tem a vida dele, continua vivendo na mesma casa, com os mesmos hábitos, e isso nada interfere o fato de ele vir para o Fluminense. Ele não será remunerado, é importante deixar isso bem claro. Não terá nenhum tipo de remuneração. Ele tem outras coisas da vida dele, outros projetos da vida dele que caminharam na área dele profissional, que ele trabalha e dizem respeito a ele. A questão financeira dele... essas pessoas, de forma maldosa, dizem que não é boa. Isso é uma questão de cada um. Cada um sabe de si. Ele está muito animado com a chance de ser vice-geral, poder contribuir com o Fluminense e dedicar o tempo dele de forma não remunerada".

Falam, no seu caso, sobre relações com empresas que agenciam jogadores. Como você lida com esse tipo de conflito?
"Não tem nenhum tipo de conflito. Nunca existiu conflito. Com todo o respeito, isso é uma falácia, uma fake news requentada da eleição passada, quando divulgaram os contratos sociais do estúdio de fotografia da minha mulher, da empresa de assessoria de imprensa do meu irmão, que trabalha para uma grande empresa de televisão e que recebe remuneração dele, que não tem nada a ver com futebol, e de uma empresa que eu tive que jamais funcionou. Uma empresa que eu tinha para poder trabalhar como diretor executivo do Fluminense, porque fui convidado pelo outro presidente, que acabou não efetivando a contratação e a empresa foi fechada oficialmente. Isso é intriga de pessoas que querem criar problema na eleição ao invés de fazer propostas".

Como é ter uma relação cordial na disputa com um opositor que até ontem estava ao seu lado?
"Relação é cordial. Ele fez uma opção. Ele saiu do trio que tínhamos por uma questão pessoal. Ele não aceitou o fato de que todos os instrumentos técnicos de pesquisa, por exemplo, indicavam que ele não era o melhor candidato dentro do trio e, por isso, ele não aceitou participar do projeto se não fosse o cabeça da chapa. É isso. Não tem nada de diferente disso. É um direito dele sair e lançar candidatura. Tanto é verdade que dois sobraram, que fui eu e Celso, e conseguimos encontrar uma forma que foi eu como candidato e o Celso o vice. Então, ele não aceitou. Repito, é um direito dele. A gente ficou chateado com a saída, ficou triste, mas vida que segue. Vamos disputar a eleição, da nossa parte, do lado de cá, de forma limpa".

Acha que do lado de lá a forma não é limpa?
"Acho que algumas pessoas que cercam a candidatura, não especificamente ele, mas algumas pessoas estão levando para um nível ruim, um nível complicado. Os grupos que estão se aproximando da candidatura dele são grupos que trabalham com fake news, agressões nas redes sociais, e nossa equipe, não. Nosso grupo, não. Mas nem vem dele, vem das pessoas que o cercam e que fazemos questão que continuem longe da gente".

Quem são essas pessoas?
"Não vou citar nomes. São grupos que, na minha opinião, destroem o Fluminense há muitos anos".

Mas a chapa de oposição acusa você de ter imposto a sua vontade em ser o candidato...
"Essa é uma pergunta que deve ser feita ao Celso, né? Se eu impus minha vontade ou não. Certamente, o Celso era tão bem cotado nas pesquisas quanto eu. Se eu tivesse imposto minha vontade, o Celso também poderia ter saído e falado a mesma coisa. Se o Celso não saiu fora, é porque não impus minha vontade, foi uma vontade do grupo. O nosso grupo de apoio sempre defendeu os critérios técnicos e, em uma votação interna, ficou decidido que o melhor candidato seria eu e, por isso, eu sou o candidato. Não tem vontade alguma pessoal, imposição alguma. Até porque jamais conseguiria impor algo diante de um grupo com mais de 50, 60 pessoas. Houve uma deliberação e a deliberação foi essa. Com a anuência e a concordância do Celso também. Só para você saber, caso eu não quisesse ser o candidato, o candidato do grupo era o Celso. Se eu tivesse, por exemplo, desistido ou não quisesse ser o candidato, quisesse atuar em outra área, para o grupo, o candidato seria o Celso diante do instrumento que teve, que foi a pesquisa".

Você é vaidoso, Mario?
"Não. Sou um cara normal. Tanto é verdade que as pessoas que estão comigo, estão comigo há anos. Não só as que trabalham comigo no meu escritório como também as pessoas da minha campanha. Meu grupo é muito forte e muito fechado. Se eu fosse uma pessoa de difícil trato, certamente não teria chegado onde cheguei. Já fiz uma boa campanha em 2016, tive bons votos, e nossa candidatura e nosso nome só cresceu para 2019. Você há de convir que ninguém com o perfil arrogante ou vaidoso em excesso... Acho que qualquer uma dessas características teria me feito ficar pelo meio do caminho. Se chego em boas condições de disputar, é porque eu consigo ter o carisma o suficiente para ter as pessoas ao meu lado, incluindo, um outro grande nome do Fluminense, que é o Celso Barros".

Você fala muito na necessidade de ter time forte, gerar ídolos, mas Fluminense parece incapaz de fazer dinheiro a curto prazo. Como faz isso?
"Acho que não tem magia. É um sistema que se retroalimenta. Você também não consegue ter patrocinador master, não consegue ter novos investidores se também não tem jogadores que atraiam os investidores. Ou o Fluminense trabalha, minimamente, com coragem e arrojo para fazer alguns investimentos de criatividade, não necessariamente financeiros... E te garanto que nós vamos fazer. Vamos trazer jogadores importantes sem desembolso do clube no ponto de vista de compra. Se você tiver o mínimo de criatividade e for respeitado no mercado, consegue montar um time um pouco mais forte, com jogadores façam a torcida encher o Maracanã. Enfim, aí vai ter investimento no futebol, empresa que queira estampar o patrocínio. Vou te dar um exemplo: em 2015, quando renovei o contrato do Fred, a Frescatto (ex-patrocinadora do clube) só fez o contrato de dois anos por causa da permanência do jogador. Se o Fred não ficasse, não teriam feito de dois, teriam feito de um. Interessava para eles expor a marca em um jogador do tamanho do Fred. O Fluminense não pode criar novas dívidas que inviabilizem o clube, mas trazer ativos, trazer jogadores que possam ganhar títulos é importante. O título da Copa do Brasil dá uma premiação de R$ 70 milhões. Quando faz um time muito fraco, você abre mão de disputar algo que pode te dar R$ 70 milhões".

E o time atual é fraco?
"Não. Não acho que o time atual seja fraco, mas acho que para um Campeonato Brasileiro, por exemplo, que é uma competição longa, precisa de mais duas ou três peças ali. Minha opinião, acho que com dois ou três jogadores de mais peso, especialmente de mais experiência e qualidade técnica, vão ajudar muito o sistema do Diniz. Vamos entrar com mais de 20% do campeonato jogado, a maioria dos jogadores já terá jogado as sete partidas. Então, como o Fluminense não tem dinheiro para ir à Europa buscar jogadores, vai ter uma certa dificuldade de contratar. Se a gente conseguir pelo menos um jogador importante ainda esse ano... A gente tem esse interesse e já estamos trabalhando para isso. Caso a gente vença a eleição, temos algumas ideias e alguns contatos. O trabalho mesmo de mais contratações fortes vai ficar para 2020".

E você sonha com quem no time?
"Acho que tem uns três ou quatro jogadores que eu gostaria de ver de novo no Fluminense. Gostaria de ver de novo o Thiago Neves, o Fred, o Thiago Silva e o Marcelo. Todos dentro das condições do Fluminense, para deixar bem claro. E todos eles sabem que, se um dia formos buscar, vamos buscar dentro das possibilidades do Fluminense. Não dá nem para comparar com Europa. A gente gostaria muito. Tem outros dois que prefiro não falar. Esses eu falo porque foram jogadores que jogaram no Fluminense e já é corriqueiro falarmos nestes quatro nomes, mas tem outros dois que eu também ando pensando e, quem sabe, se arrumarmos alguns patrocinadores para camisa, tenho vontade de fazer essa vinculação de empresas que já queiram fazer a operação de trazer o atleta e trazer o atleta como imagem, garoto-propaganda. Tenho algumas ideias nesse sentido".

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Você pretende entrar e fazer uma mudança profunda no quadro funcional do clube?
"Acho que, antes de qualquer coisa, o Fluminense tem de criar uma organização interna. Por isso que falo da vice-presidência de Governança. Então, preciso ter um plano na mão para poder reorganizar. Fluminense é muito desorganizado. Fluminense é uma bagunça. Então, antes de falar de pessoas, gostaria de falar de estrutura. Pode colocar, com certeza, que vamos fazer uma reformulação enorme na estrutura do Fluminense, no organograma, na forma de trabalhar, na forma de cobranças dentro do plano de metas. E, aí sim, pensar em pessoas. Que vamos mexer, é óbvio que vamos mexer, mas sem nenhum tipo de conotação pessoal ou política. Pessoas que têm capacidade serão avaliadas e seguirão. Pessoas que não se adequem à nossa filosofia de gestão vão sair. Tem mais funcionário do que precisa, com certeza".

E como faz uma candidatura sem "pagar" os favores dos grupos que se aliaram a você?
"Não tem favor algum. Você está conversando comigo a 10 dias da eleição e eu não tenho nenhuma vice-presidência prometida. Zero. Os únicos dois que têm cargo somos eu e Celso. Nossa candidatura cresceu de tal forma que não houve nenhum tipo de acordo. Todos os apoios foram conquistados por projetos, com defesas de ideias. Falamos para vários grupos, todos tiveram oportunidade de falar, todos os candidatos ou pretensos candidatos tiveram oportunidade de apresentar os projetos e o nosso foi considerado o melhor, até o momento, por grande maioria dos grupos do clube. Então, não tem troca de favor alguma".

E a candidatura do Tenório também "acusa" sua campanha de ser rica e luxuosa...
"Essa campanha está sendo bem mais barata do que a que ele fez comigo em 2016. Por vários motivos. Primeiramente, porque aprendemos a fazer de uma maneira mais sólida, ou seja, tem a experiência de quase três anos atrás. Segundo, minha junção com o Celso trouxe muito mais apoiadores do que tivemos em 2016. Isso faz com que tivéssemos mais doação de material. Só para você saber, o caminhão de led que mostra nossa imagem na rua foi uma doação, os outdoors foram gratuitos, a folheteria, grande parte dela, feita por amigos nossos que têm gráfica e estão nos ajudando, há pessoas que fazem doações de camisa, outras que fazem até doações em dinheiro. Normal. Para podermos fazer as coisas. Mas pode ter certeza que nossa campanha está sendo mais barata. Não que a de 2016 tenha sido cara, foi uma campanha também toda de doação, e conseguimos fazer uma candidatura, agora, tão bonita quanto a outra, mais barata e com mesmo processo de doação. Por exemplo, a equipe que fez a festa de lançamento da chapa é toda de sócios do Fluminense. Os profissionais que fazem a campanha são remunerados, mas dentro dos limites do mercado. A gente jamais poderia gastar em uma campanha de clube algo que não fosse condizente com o que merece uma campanha de clube".

E como vai viver financeiramente tendo que administrar o Fluminense 24 horas por dia?
"Todos os presidentes tem um emprego. Todos os presidentes de clube no Brasil tem um emprego. O Campello (Vasco) é médico, Mufarrej (Botafogo) é perito, atua na Justiça do Trabalho. Ele trabalha todos os dias e é presidente do Botafogo. Essa pergunta é uma pergunta que só vai deixar de existir quando os clubes forem 100% profissionais, ou sociedades empresariais e tiverem um presidente remunerado".

Você é a favor disso?
"Com a legislação atual, não. Com uma legislação própria para isso, e existe até um projeto em Brasília para transformar os clubes em sociedades empresárias de futebol específica, acho que sim. Aí, sou a favor. Mas, pode ficar tranquilo, darei expediente no Fluminense, meu escritório é perto do clube. Virei trabalhar todos os dias e irei ao Fluminense. Óbvio que há a questão dos jogos fora, mas aí tem 30 advogados que trabalham no escritório, tenho mais dois sócios. E foi o que aconteceu quando fui vice de futebol. Nas minhas ausências, as pessoas me cobriam e eu sou dono do meu negócio. Acho importante isso ficar claro. Eu sou dono do meu escritório, não sou funcionário, não trabalho para ninguém. Trabalho para meus clientes. Mesmo estando fora com o Fluminense, estarei com meu computador, WhatsApp, orientando meus clientes. Não vou abrir mão absolutamente de nada, muito pelo contrário. Vou continuar advogando e ganhando meu dinheiro".

Teme pela sua vida pessoal? teme perder a liberdade se eleito?
"Não, porque minha família está totalmente de acordo em seguirmos nessa caminhada. A caminhada é de todos. Minhas filhas estão muito animadas, minha mulher também, totalmente de acordo. Todos sabemos que ficarei um pouco privado do convívio com eles, de festas, escola, algumas situações, mas é algo que faz parte da realização de um objetivo, de uma meta, uma missão. E acho que essa é uma missão de um cara que é apaixonado pelo clube, que é sócio desde o início da década de 90, trabalhou no clube por quase 20 anos. E minha família entende que isso faz parte da minha vida, que é, depois da minha família, a coisa mais importante da minha vida, que é meu clube de futebol. Vamos juntos, sem problema nenhum. Estaremos juntos no momento de alegria e juntos no momento que for difícil, de tristeza".

Você tem a clara noção que vai precisar promover um pacto para pacificar um clube tão dividido?
"Eu espero, caso vença a eleição, que as pessoas possam entender que essa politica fratricida, essa política de agressões, acusações, de fakes, como esse que você citou de que eu tenho relação com alguém, que o Celso está com problema financeiro... Isso é campanha de quem não tem nada a acrescentar ao clube. Ou seja, isso é campanha de quem não tem nenhum tipo de proposta para melhorar o Fluminense. Pelo que estou sentindo, a grande maioria das pessoas querem essa mudança, de que o Fluminense possa ser um clube transparente, limpo, claro, que deixe de ser um clube escuro. Passe a ter um ambiente limpo. Pode ter certeza, mesmo as pessoas que não estão com a gente, que farei de tudo para que tenham esse entendimento, caso a gente vença a eleição, e a gente possa pacificar o clube. Mas pacificar com ideias, não com pressões ou trocas políticas".

Você ganhou notoriedade naquele caso da Portuguesa, mas tem muita gente que torce o nariz para esse episódio...
"Acho que o Fluminense... Primeira coisa que quero fazer é que as pessoas voltem a ver o Fluminense com alma e respeito. Antipatia é uma antipatia que foi construída de forma maldosa porque em todos os episódios em que o Fluminense é acusado, de ter participado de algo, de virada de mesa, o Fluminense nunca foi o clube que gerou o problema. Caso de 99 foi o Sandro Hiroshi, que acabou gerando a Copa João Havelange. Em 97 foi o caso Ivens Mendes. É uma série de situações que o Fluminense jamais foi responsável. E em 2013 foi a mesma coisa. Flamengo e Portuguesa escalam jogador irregular, 100% das decisões do tribunal era neste sentido e parte da opinião pública e imprensa pegaram o Fluminense para Cristo. Então, penso que a melhor forma do Fluminense manter sua imagem forte é tendo um presidente que represente o Fluminense institucionalmente. Neste caso, teremos duas pessoas se a gente ganhar: Eu e Celso".

Qual maior obsessão em relação ao seu possível mandato?
"O que mais gostaria de realizar? Dentro do campo, um título internacional. E também quero voltar a ganhar Carioca. Fora, transformar o Fluminense em um clube a ser gerido como uma empresa, apesar de não ser uma empresa, por isso falei tanto em estrutura organizacional. E ter um grande programa de sócio futebol e o Fluminense ter o seu departamento de futebol custeado pelo seu torcedor. Que o torcedor seja o grande patrocinador master do Fluminense. Acho que esse é meu grande sonho. Se pudesse transformar em uma frase, queria que o torcedor fosse o grande patrocinador master do Fluminense".

A recuperação financeira do Flamengo é inspiração?
"Do ponto de vista administrativo, tem coisas boas que podemos tirar dali, mas não vejo como inspiração porque o Flamengo tem uma receita muito maior que a dos outros. A diferença de dinheiro é tão grande que se torna um pouco mais fácil. Gerir com dinheiro no caixa é mole. Alguns outros clubes no Brasil, hoje, me servem mais de inspiração, como o Bahia, Athletico-PR, que tem receita semelhante a do Fluminense. Enfim, outros clubes de fora, clubes de menor porte. Obviamente, temos de enaltecer o fato de o Flamengo, mesmo sempre tendo receita maior, ter passado a ser muito bem administrado e, hoje, como uma sobra de caixa que faz com que esteja muito à frente dos seus adversários. Se o Fluminense faturasse o mesmo, com a dívida que tem hoje, a gente acertava o Fluminense em três anos".

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