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Brasil divide hotel com Itália, e "espiã" evita papo com colegas de Milan

divulgação/CBF
Marta realizou reconhecimento do gramado do Stade du Hainaut Imagem: divulgação/CBF

Ana Carolina Silva

Do UOL, em Lille (França)

2019-06-18T04:00:00

18/06/2019 04h00

As equipes femininas de Brasil e Itália medirão forças hoje (18), às 16 horas (de Brasília), pela Copa do Mundo, mas foram tratadas com igualdade nos dias que antecederam a partida decisiva. Usaram os mesmos tipos de sabonetes, travesseiros e colchões. Ambas estão hospedadas no hotel Mercure Lille Aéroport, mas a seleção brasileira tem pequena vantagem de antemão: a "espiã" Thaisa, meio-campista do Milan.

"Há alguns dias, no caminho para o almoço, eu acabei encontrando algumas companheiras. Dei um abraço, parabenizei pelo feito [da classificação antecipada]. Isso está sendo muito grande lá na Itália. Mas é só uma caminhadinha aqui, um 'oi' ali. Temos bastante foco na partida. Amizade fica para depois do jogo. Por aqui, é só um 'oizinho' e parabéns", respondeu.

A jogadora não tem acompanhado os treinos da seleção adversária, mas sabe quais são as potenciais ameaças daquele time. Seis das 24 italianas convocadas são suas companheiras de Milan. Como Thaisa terá de atuar mais recuada do que o normal para suprir a ausência de Formiga, deve viver duelos particulares com as colegas Manuela Giugliano e Valentina Giacinti.

"Não digo que sou espiã, porque a gente tem um grupo de analistas que têm avaliado a Itália faz um tempinho. Mas é lógico que dou algumas dicas sobre algumas jogadoras, passo alguns detalhes. Eu acho que o meio de campo delas é o coração, a Giacinti foi artilheira do Campeonato Italiano", alertou.

Marta comentou as informações que Thaisa tem passado: "A gente está sempre falando sobre isso. Ela apontou uma ou outra atleta que se destaca, mas o nosso foco é na equipe inteira". Ao ser questionada sobre como é dividir um prédio em Lille com as adversárias, a camisa 10 ergueu os punhos e, com um sorriso, gesticulou como se houvesse troca de socos. Esta foi apenas uma brincadeira e não há confronto físico no hotel, mas o jogo deve ser competitivo.

"Por incrível que pareça, não sei se a Marta cruzou muito com elas, mas eu não cruzei. O hotel é muito grande. Os refeitórios são separados, a gente não come com todo mundo. É servido café da manhã, almoço e jantar em outra sala. Inclusive, a Marta ajudou o cozinheiro a fritar ovo e bife. Eu, particularmente, não cruzei com elas ainda. Só vi quando chegaram", contou Vadão.

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images
Thaisa convive com as italianas no Milan e sabe que terá um jogo difícil Imagem: Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images

O que preocupa sobre a Itália é a imprevisibilidade. É evidente que a seleção segue a filosofia local e tem sido reconhecida nos últimos dois anos por um sistema defensivo eficiente, mas a tendência é de que saia para o jogo com intensidade. Afinal, o terceiro colocado deste Grupo C pode encarar França ou Alemanha nas oitavas de final. Ninguém quer isso. "Acho que virão montadinhas para propor jogo", disse Thaisa.

O lado brasileiro tem suas cartas na manga. Cristiane já fez quatro gols nos dois primeiros jogos desta Copa, e Marta começará a partida em campo mais uma vez - embora tenha resistido em confirmar isso. "Ai, prô", reagiu a camisa 10, olhando para Vadão e pedindo socorro ao ser questionada sobre sua própria titularidade. "Obviamente, ela começa jogando", confirmou o técnico.

"Esperamos que possa jogar um pouco mais, mas no intervalo a gente vai conversar para ver como ela está. A gente não vai fazer nenhum tipo de loucura e forçá-la, independentemente de como estiver", explicou ele, que espera que seu ataque consiga superar a defesa italiana: "Todo mundo marca no time delas, todo mundo ajuda. É a tônica do futebol moderno, mas elas têm isso dentro da cultura delas".

Marta e Cristiane formam a dupla veterana. Formiga normalmente tem o nome citado com os delas, mas, desta vez, não será titular. A volante cumpre suspensão por acúmulo de cartões amarelos e será substituída por Andressinha, famosa pela qualidade do passe e pelo desempenho nas bolas paradas. Consequentemente, Thaisa terá de atuar mais recuada.

Rener Pinheiro / MoWA Press
A meio-campista Andressinha será titular contra a Itália Imagem: Rener Pinheiro / MoWA Press

"A Formiga é incomparável, tem uma liderança que eu dificilmente teria. A Andressinha é aquela meio-campista clássica, uma das melhores jogadoras que a gente tem. Eu não tenho o que a Formiga tem, ou mesmo o que a Andressinha tem, mas tento orientar bem as meninas para manter a formação do jogo, conversar muito, orientar as que têm entrado no segundo tempo", explicou a atleta do Milan.

O Brasil foi o último país a vencer a Itália em uma Copa feminina, em 1999. Não havia como as italianas terem perdido outras partidas desde então, pois só voltaram a jogar o Mundial em 2019. Aquela seleção brasileira tinha Sissi, Katia Cilene e... Formiga. A volante disputava o segundo Mundial de sua carreira, mas agora, em sua sétima edição do torneio, não vai encarar as italianas.

Pelo menos, não na fase de grupos.

"Eu me lembro muito bem daquela partida. Foi um jogo muito combativo. Tivemos até a possibilidade de empate. Eu me recordo do público daquele jogo, um público bom. Era o momento de explosão do futebol feminino na América", recordou a treinadora Milena Bertolini. Sara Gama, capitã de sua equipe, tinha nove anos de idade: "Olha, não me lembro dessa partida [risos], eu era pequena e nem sabia que existia uma Copa feminina".

A seleção italiana tem crescido lado a lado com o Campeonato Italiano feminino. "Não é à toa que estão fazendo uma belíssima Copa. Quando a gente coloca trabalho à frente dos objetivos, as coisas acontecem. Existem tantos exemplos de clubes e seleções que passam uma década sem ganhar nada, mas quando o trabalho está sendo bem feito, as coisas acontecem", disse Marta.

Do lado de lá, não interessa quem joga e qual é a fase atual das duas equipes. O embate é tratado com a pompa de um Brasil x Itália e pega "emprestada" a rivalidade do futebol masculino. "É belíssimo, um confronto de grande história sempre. Há um valor simbólico muito importante", opinou Milena. "É um jogo importante para o imaginário coletivo do futebol italiano. Nos dará visibilidade", concordou Sara.

Mas Marta quer voltar do estádio com a vitória e deixou isso claro durante a entrevista coletiva. Enquanto caminhava até a saída da sala de imprensa, a camisa 10 percebeu que jornalistas brasileiros estavam traduzindo a informação sobre Andressinha para repórteres italianos e deu uma "bronca" bem-humorada: "Para de falar, ele é italiano! Não conta nada, não!".

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