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Cidade de Brasil x França foi comunista e idolatra Niemeyer, não Neymar

Edifício projetado por Oscar Niemeyer em Le Havre é chamado de "vulcão" e "pote de iogurte" - Ana Carolina Silva/UOL
Edifício projetado por Oscar Niemeyer em Le Havre é chamado de "vulcão" e "pote de iogurte" Imagem: Ana Carolina Silva/UOL

Ana Carolina Silva

Do UOL, em Le Havre (França)

23/06/2019 04h00

Le Havre tem pouco de Neymar e muito de Niemeyer. A cidade que recebe o confronto entre Brasil e França hoje (23), às 16 horas (de Brasília), pela Copa do Mundo feminina, foi governada pelo Partido Comunista local por 39 anos, sofreu grande destruição durante a Segunda Guerra Mundial e teve parte de sua arquitetura redesenhada pelo ilustre brasileiro.

O antigo teatro foi reduzido a entulho com a guerra, e foi apenas na década de 60 que a prefeitura fez um convite a Niemeyer, que morava na França em meio à ditadura brasileira e já havia projetado a sede do partido comunista do país. "Niemeyer era comunista, isso não é notícia [risos]. Era uma cidade comunista, e o arquiteto também. Queriam trabalhar com ele porque a arquitetura daqui era muito reta, muito quadrada", explicou Cecilia Le Métayer ao UOL Esporte.

Ela é francesa e filha de uma mulher brasileira. A reportagem entrou na Biblioteca Oscar Niemeyer, em Le Havre, e chamou a primeira funcionária do local para uma conversa em inglês. Ao ouvir que estava diante de alguém do Brasil, ela sorriu: "Ah, então podemos falar em português mesmo". Não poderia haver guia melhor para apresentar os edifícios.

O centro cultural tem um desenho único. Vista de cima, em imagens aéreas, a silhueta mostra uma pomba branca. Segundo Cecilia, demorou para que este bonito detalhe fosse descoberto pelo público. A impressão que se tem é de que Niemeyer queria ser um dos poucos a conhecer esta referência

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Imagem: divulgação

O local está sempre cheio hoje em dia - com exceção dos dias ensolarados, nos quais boa parte da população vai para a praia -, mas não foi imediatamente aceito pelo povo. As construções têm formatos que lembram vulcões, mas também há um apelido mais pejorativo: "Potes de iogurte".

"Esse edifício surgiu como um negócio estranho na cidade. Em Brasília, tudo tem a cara do Niemeyer. Mas aqui tudo é bem quadrado até você chegar nessa construção. O povo achou estranho e não gostava muito. Era muito moderno, abstrato demais. Comparavam com um pote de iogurte, com uma central nuclear. As pessoas, no início, tiveram um pouco de dificuldade para se apropriar da estética do edifício. Não tinha nada a ver com o fato de o Niemeyer ser comunista", contou Cecilia.

O início dos anos 2000 fez com que o espaço ficasse ligeiramente defasado. Atual primeiro-ministro francês, Édouard Philippe foi prefeito de Le Havre de 2010 a 2017 e propôs a Niemeyer que parte do edifício fosse transformada em biblioteca. O arquiteto deu sua autorização pouco antes de morrer.

Do lado de fora, há uma escultura da mão de Niemeyer, que é uma fonte e despeja água constantemente. Uma frase ao lado mostra um pouco dos ideais que ele defendia em sua teoria comunista: "Um dia, assim como essa água, toda terra, praia e montanha pertencerá a todos".

Ana Carolina Silva/UOL
Imagem: Ana Carolina Silva/UOL

A visita do UOL Esporte à praça coincidiu com a reinauguração da obra de arte "Pássaros - Oiseaux", assinada pela brasileira Marianne Peretti em 1982 e restaurada em 2019. O atual prefeito da cidade marcou presença, e a reportagem teve oportunidade de conversar com exclusividade com Emmanuel Guillemette, cônsul honorário do Brasil na região.

Coincidentemente, ele declarou ser próximo de Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF, e de Vadão, treinador da seleção. Casado com uma brasileira de Bebedouro (SP) e ainda sem saber por qual time deve torcer hoje, ele se mostrou orgulhoso do fato de que Le Havre recebe cerca de 80% dos intercâmbios marítimos entre França e Brasil.

Por aqui, o café brasileiro é mais importante do que os craques que o país exporta para a Europa. "O Niemeyer é muito mais importante do que o Neymar. Com certeza, ele é um símbolo", disse Helene, filha de Emmanuel, que declarou ser muito fã de Marta e deixou claro que torcerá pelo time do Brasil. Juntos, os dois riram com a semelhança entre os nomes dos brasileiros ilustres.

Ana Carolina Silva/UOL
Imagem: Ana Carolina Silva/UOL

"Estamos muito orgulhosos por receber em Le Havre o país do futebol, essa nação maravilhosa", disse o diplomata. Fascinado pela história que une os dois países, Emmanuel foi além e contou sobre quem foi o cônsul geral brasileiro em Le Havre em 1964: "O nome dele é Vinicius de Moraes".

Vinicius de Moraes escreveu uma carta para Tom Jobim em 7 de setembro de 1964, no exílio, enquanto estava em Le Havre. Cheio de saudade do Brasil, ele recorreu ao ritmo que também tem embalado a seleção brasileira feminina nesta Copa do Mundo: o samba. Nas horas que antecedem o jogo contra a França, não é difícil de imaginar que as jogadoras sintam algo parecido.

Leia um trecho da carta de Vinicius de Moraes:

"Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo. São dez horas da noite e não se vê viv'alma. Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu. E, como sempre nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.

Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão. Há pouco telefonei para lá, para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone. Estão queimando um óleo firme!

Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo, maestro!

Estou doido para ver você e Carlinhos [Lyra] e recomeçar a trabalhar. Imagine que este ano foi um ano praticamente dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira. Mas agora o tremendão aconteceu mesmo! A Europa teve que curvar-se. Mas ainda assim fizemos umas musiquinhas como Formosa. Você vai ver: tudo sambão! Parece até que as saudades do Brasil, quando a gente está longe, procuram mais a forma do samba tradicional do que a Bossa Nova, não é engraçado?

São, como diria o Lucio Rangel, as raízes"

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