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Brasileirão - 2019


Fenômenos óticos explicam "bola quicando" em escanteio da Chape; entenda

Reprodução
Imagem: Reprodução

Emanuel Colombari

Do UOL, em São Paulo

16/07/2019 17h27

Entre os lances que se destacaram na partida Chapecoense 1 x 2 Atlético-MG do último domingo, pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro, um deles acabou chamando talvez mais atenção que os gols na Arena Condá. Nas redes sociais, o vídeo de um escanteio a favor do time catarinense no fim do segundo tempo "viralizou".

Nas imagens, a bola sobe, "quica" no ar e chega à área. Augusto recebeu e finalizou, mas Cleiton defendeu e Gum acabou mandando para fora no rebote.

Muita gente especulou a respeito do desvio da bola nas imagens. Seria um fenômeno sobrenatural? Um toque em um cabo de aço? Um efeito incomum na bola? Uma ilusão de ótica?

Em contato com a reportagem do UOL Esporte, a assessoria de imprensa da Chapecoense confirmou que não haveria ali qualquer objeto no qual a bola poderia ter tocado. E mesmo um desvio no ar é uma hipótese improvável, segundo a física.

"Olhando assim, o refletor está muito longe. A bola não passa perto de alguma luz. Eu estava imaginando que poderia passar por algum lugar quente, e no ar aconteceria isso", explicou Mikiya Muramatsu, professor sênior do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (Ifusp), descartando a mudança de pressão atmosférica como causadora do efeito.

"Para você mudar a trajetória, você precisa ter uma força. Precisa ter uma variação razoável. Vi que (a bola) estava no lugar mais alto possível; na queda, dá uma quicada na bola. Poderia ser que, momentaneamente, deu uma variação local na pressão. Seria a única explicação", acrescentando.

Mas se o desvio mediante variação de pressão não seria possível no caso, qual seria a explicação? Para o professor Muramatsu, "pode ter sido algum chacoalhão na câmera, ou pode ter passado algum pequeno defeito, uma sujeita, que dá aquela descontinuidade na imagem". Seria uma pista?

Fenômenos óticos

A reportagem então procurou Jair Sanches Molina Jr., professor no curso de Cinema e Audiovisual pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP (2017). Ao analisar as imagens, ele identificou três fenômenos óticos que, aliados ao movimento da bola, provocaram a ilusão no vídeo: uma panorâmica da esquerda para a direita, uma tilt down (movimento de cima para baixo) e um zoom out (abertura do quadro).

"Esses três movimentos fazem com que a câmera tenha que corrigir o frame que vem depois do frame que estava antes. Se fosse só uma panorâmica, a câmera corrigiria automaticamente", explicou. "O zoom é o grande fator que propicia esse 'quique'. É uma objetiva zoom. Essa noção de variação de um foco para o outro cria esse efeito", acrescentou.

De forma simplificada, a situação é semelhante ao que acontece quando alguém fora da água olha um objeto submerso. Em casos assim, é possível notar o desvio da luz, fazendo com que o objeto seja visto como supostamente encolhido ou destorcido. Tudo aparência, é claro.

No zoom out da imagem, mudando do quadro fechado para o quadro aberto, a luz passa por diferentes lentes, o que faz com que a câmera tenha que corrigir os frames. Como a bola é o objeto em movimento na imagem, é nela que se percebe a correção. Em outras câmeras, o suposto desvio não foi registrado.

"O fato é que a bola está em movimento junto aos movimentos da câmera, e não percebemos o mesmo efeito sob os jogadores que estão atrás da rede, facilitando a percepção deste efeito apenas na bola", explica o professor Jair Molina Jr.