Como o "gentil" Ranieri está perto de fazer história no Campeonato Ingles

  • Jason Cairnduff/Reuters

    Claudio Ranieri faz excelente campanha no comando do Leicester

    Claudio Ranieri faz excelente campanha no comando do Leicester

Claudio Ranieri entra na sala e vai na direção dos jornalistas. Antes das perguntas, cumprimenta um por um com apertos de mãos. Deseja bom dia. Na primeira vez que fez isso, causou espanto. Reforçou a imagem de que o italiano de 64 anos era "gentil" demais para ter sucesso. Ainda mais na Inglaterra, onde as entrevistas coletivas geralmente se transformam em embates entre repórteres e treinadores.

"Isso é bobagem. Eu sei cobrar. Para ter sucesso no futebol é preciso ser uma pessoa rude? Não acredito nisso", disse o italiano, em entrevista para o LANCE! por telefone.

O desdém existe também porque, de fato, ele não é um vencedor dentro de campo. Tudo isso poe cair por terra em poucos meses. Ranieri está no caminho de protagonizar uma das maiores zebras da história do futebol europeu. O Leicester tem cinco pontos de vantagem na liderança do Campeonato Inglês e enfrenta o terceiro colocado Arsenal neste domingo. Desde que a Hellas Verona foi campeã italiana em 1985 o Velho Continente não vê algo tão surpreendente.

"Sempre querem achar um segredo. Não há. Nós jogamos com velocidade o tempo inteiro. 90 minutos mais os acréscimos. Se não tem velocidade é porque os jogadores relaxaram e isso eu não aceito", completa.

O possível título do Leicester no torneio nacional mais rico do planeta é surpreendente porque não se trata de um clube em ascensão. Pelo contrário. Em fevereiro de 2015, a equipe estava virtualmente rebaixada. Salvou-se em uma arrancada inesperada na reta final. Manteve a mesma base do elenco para a temporada atual.

"Eu não quis chegar e mudar tudo. Não pedi várias contratações nem tentei começar o trabalho do zero. Não adiantaria. Não haveria dinheiro para trazer nove ou dez novos jogadores. Eu confiei no que me disseram e no que meus olhos viram. O time era bom. Tinha qualidade. Era questão apenas de mudar uma coisa ou outra", analisa.

Por sete milhões de libras (cerca de R$ 38,5 milhões), indicou a chegada do incansável atacante japonês Shinji Okazaki. Trouxe o zagueiro alemão Robert Huth, refugo de Chelsea e Stoke City. Apostou no desconhecido volante francês N'Golo Kanté.

A base já estava lá. O goleiro Kasper Schmeichel, o zagueiro Wes Morgan, o volante Daniel Drinkwater, o meia Marc Albrihgton e, principalmente, a dupla de atacantes Riyad Mahrez e Jamie Vardy. Ranieri credita parte do sucesso da campanha à mudança de posicionamento de Mahrez, que passou ser utilizado como ligação do meio com o ataque e se transformou no melhor jogador do Campeonato Inglês.

"Passei muito tempo procurando uma palavra para descrever o ambiente que encontrei no Leicester. Até que um dia, encontrei: elétrico. É um ambiente elétrico."

Com 12 pontos de vantagem para o Manchester United, quinto colocado, o Leicester está praticamente garantido na próxima Liga dos Campeões da Europa. Um feito que dará uma condição financeira diferenciada para o clube. Impensável até mesmo para a diretoria porque, ao chegar para negociar contrato, a única pergunta que Ranieri ouviu foi:

Se acabarmos rebaixados, você continuará conosco?

O italiano assumiu o cargo sob desconfiança geral. Afável, sorridente e sempre acessível, Ranieri não tem nenhum título de liga nacional na carreira. Isso apesar de ter dirigido Valencia, Atlético de Madrid, Roma, Monaco, Juventus, Inter de Milão e Chelsea. Seus melhores momentos foram a Copa da Itália de 1996 e a Copa do Rei de 1999. Antes de assumir o Leicester, o último emprego havia sido a seleção da Grécia. Foi demitido após derrota para as Ilhas Faroe.

"Eu me arrependo (de ter aceitado o emprego). Foi uma escolha errada que fiz. Não foi a primeira, mas eu deveria ter imaginado que seria difícil porque a Grécia precisa de um processo de reformulação e você não consegue isso trabalhando três dias a cada dois meses com os jogadores. E depois que saí eles não viraram uma potência, não é?", questiona, deixando claro não se considerar culpado.

A imagem de Ranieri na Inglaterra ficou marcada pela passagem no Chelsea. Então no primeiro ano da "administração" de Roman Abramovich, o italiano conseguiu levar a equipe às semifinais da Liga dos Campeões da Europa de 2004. Empatando em 1 a 1 e com um a mais em campo contra o Monaco, ele mandou o time para o ataque quando poderia administrar o resultado. Perdeu por 3 a 1.

Era um casamento que não tinha como dar certo. O bilionário russo queria títulos a qualquer preço, de preferência com um técnico famoso e de personalidade forte. Descrição que não serve para Ranieri. Ao chegar a Stamford Bridge, ele quis sinalizar a ligação com o elenco ao abrir uma garrafa de vinho no vestiário e propor um brinde. Em italiano, disse que se todos trabalhassem juntos, atingiriam os objetivos. O francês Marcel Desailly fez a tradução para o inglês. Ou quase isso.

O treinador está propondo um brinde. Vamos fazer o que ele pede logo e poderemos ir para casa. Os demais jogadores levantaram as taças.

No Leicester, Ranieri encontrou a confiança que buscava. Em parte, por compreender que não havia sentido ser rigoroso demais. Na primeira vez em que se sentou à mesa com o elenco, percebeu que eles comiam demais. Decidiu não falar nada.

"Guardei a informação. Poderia ser um trunfo para o momento de dar uma bronca. Até agora não aconteceu. A gente pode não estar em um dia bom. Acontece. Mas nunca param de correr. Merecem comer."

O Leicester correu mais do que os outros no início do campeonato e parecia que seria o novo cavalo paraguaio. Mas o cavalo não parou de acelerar. Vardy passou a ser um dos atacantes mais valorizados do futebol europeu e engatou sequência de gols em 11 partidas seguidas, recorde que pertencia a Ruud Van Nistelrooy, ídolo do Manchester United e Real Madrid. 

"Eu tenho de ser honesto. Nunca imaginei (que a campanha seria tão boa). Eu sabia que iríamos bem. Sabia que não poderíamos passar pela mesma situação da temporada passada. Mas não pensei que seria assim", confessa.

Ranieri não faz muita questão de passar a imagem de gênio do futebol, um revolucionário. Não explica táticas, 4-2-3-1 ou qualquer outra sequência numérica complicada. Ele confiou os nos próprios olhos. Percebeu a posição mais apropriada para cada um deles e colocou limites. A partir daí, era com eles.

"Os jogadores têm liberdade. Sabem o princípio do que eu quero. Entenderam qual a nossa estratégia. Fica mais fácil. Futebol é para ser aproveitado. É um misto de se sentir bem, ser feliz dentro de campo e não esquecer a seriedade porque o que acontece naqueles 90 minutos afeta a vida e o humor de milhares de pessoas."

Essa é uma boa razão para Ranieri exigir que seus jogadores não parem de correr. Por ter perdido partidas importantes, ele reconhece que o importante é ter a atitude certa. Mais de uma vez na temporada citou trecho do poema "If" ("Se", em inglês), de Rudyard Kipling: "Você pode encontrar o triunfo e o desastre. E tratar esses dois impostores da mesma forma."

Já falou até sobre Kasabian, uma das bandas de rock mais conhecidas do Reino Unido e formada em Leicester.

"Eu sou o que sou. Não citei Kasabian para agradar. Ouvi a música deles e gostei. Se eu estou bravo, estou bravo. Se me sinto à vontade em algum lugar, isso fica claro".

Claudio Ranieri está mais à vontade do que nunca.

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