650 jogos, 150 gols, 22 expulsões, 400 mulheres e incontáveis cervejas...

Assim que viu o cartão vermelho, Roy McDonough ficou com a visão turva. Pelas próprias palavras, a raiva o cegou por 20 segundos. Quando "acordou", estava com as mãos no pescoço do árbitro, que lutava para conseguir respirar.

- Eu o havia levantado do chão. Parecia o Incrível Hulk - lembra.

McDonough tinha 16 anos e o juiz era professor da escola onde estudava. Rendeu-lhe uma suspensão de seis meses. Seria apenas a primeira do hoje ex-atacante que, mais de duas décadas após ter chutado uma bola profissionalmente pela última vez, se tornou figura cult no futebol europeu.

- Sou uma pessoa tranquila. Mas quando pisava no campo, aquilo era meu escritório. Meu trabalho. Não tinha tempo para amizades - ele confessa, em conversa com o LANCE! por telefone.

Inglês, McDonough, hoje com 57 anos, era relativamente desconhecido mesmo no Reino Unido. Saiu do anonimato graças ao livro que escreveu sobre a própria carreira. "Red Card Roy: Sex, Booze and Sendings Off" ("Roy Cartão Vermelho: Sexo, Cachaça e Expulsões", em português), em que conta sua história de 650 jogos, 150 gols, 400 mulheres e 22 cartões vermelhos.

O número de expulsões pode não impressionar tanto hoje em dia. Mas é bom lembrar que McDonough jogou futebol em época que, para alguém receber vermelho na Inglaterra, era preciso quase cometer um homicídio em campo. E mesmo assim, havia o risco de se safar apenas com uma advertência verbal.

- Hoje em dia, o cartão se tornou algo banal. É mostrado por qualquer coisa. Não precisa nem acertar (o adversário). Se eu jogasse atualmente, sofreria muito. Teria mais cartões do que qualquer um na história. Para dizer a verdade, não passaria do aquecimento - acredita.

Ele tem uma forma original de descrever porque o futebol do século XXI não lhe atrai. Quase um mantra do passado.

- Não há mais lama, não há mais sangue.

A carreira de McDonough foi povoada por decisões erradas. Começou no Birmingham (então clube da primeira pisão), onde estreou profissionalmente e fez o primeiro gol. Passou pelo Chelsea, mas não teve paciência para esperar pela oportunidade. A partir daí, peregrinou por clubes de menor expressão. Em eleições de torcedores, está entre as três maiores lendas da história do Colchester United e do Southend United (ambos atualmente na terceira pisão).

Ele sabe porque renasceu na memória dos torcedores. As pessoas se identificam com as histórias que conta. Divertem-se quando explica como fazia para tomar um pint em sete segundos. Trata-se de um copo com meio litro de cerveja. Muitos sentem falta do tempo em que o futebol era um esporte da classe trabalhadora. O ex-atacante compartilha a saudade.

- Mesmo quando jogava ou trabalhava como técnico, era considerado polêmico. Porque eu dizia a verdade. Para as pessoas da minha época, o futebol era um emprego, uma forma de pagar as contas no final do mês. Você ganhava um bônus se terminasse o campeonato em uma boa posição e dava a vida por isso. Ninguém tinha tempo para conversa fiada. Olhe os jogadores entrando em campo hoje em dia. Parece um desfile de gente que acabou de sair do cabeleireiro. O futebol não é mais o esporte do povo. As pessoas não se identificam com quem está em campo - reclama.

As histórias do livro são pertidas. McDonough conta como levou para a cama uma finalista do concurso Miss Reino Unido pagando a ela um half pint (250 ml de cerveja) e oferecendo 1 libra estrelina (R$ 5) para a gasolina. Lembra quando era técnico do Colchester, colocava filmes pornôs para os jogadores assistirem no trajeto da concentração para o estádio.

- Jogadores de futebol são crianças grandes. Você faz o que for preciso para deixá-los relaxados antes dos jogos. Era uma época pertida. Depois das partidas, saíamos em 12 ou 13 para beber.

A rotina contada por McDonough mostra o quanto foi incrível que tenha conseguido se manter no futebol por 16 anos. Maratona que seria impensável em 2016.

- Nós jogávamos no sábado. Havia o café da manhã: feijão, torradas, ovo. Depois da partida, íamos para a sala de recepção dos jogadores no estádio. Lá, bebíamos oito pints (quatro litros) para aquecer. Comíamos alguma coisa e depois, pub. Mais nove ou dez pints (cinco litros). Quando a noite pegava fogo, o caminho era alguma boate. Ali, o céu era o limite. Domingo de manhã, café da manhã e em seguida, todos para o pub beber o quanto aguentássemos. Veja bem, não era nada especial. Todas as equipes faziam o mesmo - explica.

Casado há 20 anos e morando na Espanha, McDonough trabalha em companhia telefônica e dá aulas esporadicamente em escolinhas de futebol. Não ensina o que costumava fazer nos gramados, claro. Orgulha-se de ser bom vendedor. Tem boa lábia e poder de convencimento. Comprou uma TV de 50 polegadas e colocou em sua sala de estar. Era para ver futebol aos finais de semana, mas ele confessa não ter paciência. Antes do intervalo, muda de canal. Volta depois apenas para ver os melhores momentos e os gols.

- O futebol de hoje é composto por multimilionários. Você não precisa ser bom para ficar milionário. Você não precisa nem ser médio. Pode ser ruim mesmo. Não importa. É tudo hermético, sem vida. Os torcedores não são mais torcedores. São consumidores. Não tenho paciência para isso. Quando eu entrava em campo, era sempre para colocar o meu corpo na linha de tiro. Não apenas eu, mas muitos outros. De quantos você pode dizer o mesmo atualmente? - questiona.

Roy McDonough tem sido descoberto por jornais, revistas e sites europeus. Confessa que a agenda está movimentada com os pedidos de entrevista. Ele diz isso com orgulho, não tanto quanto a constatação que faz todos os dias ao se olhar no espelho.

- Joguei futebol por quase 20 anos. Fui para a guerra todas as semanas e usei todas as armas disponíveis. Mesmo assim, meu nariz ainda tem a forma natural.

Não são muitos dos seus antigos marcadores que podem dizer o mesmo.

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