Sem jogadores, sem apoio e sem dinheiro, O'Neill classificou a Irlanda do Norte para a Eurocopa

Michael O'Neill, 46 anos, pensou com cuidado antes de aceitar ser técnico da seleção da Irlanda do Norte. Seu pai o aconselhou a rejeitar o convite. Amigos disseram que ele deveria topar, ganhar algumas partidas e cair fora na primeira oferta de novo emprego.

Tudo isso foi em 2011. Cinco anos depois, O'Neill está na França, preparando a equipe para a Eurocopa, que começa nesta sexta.

- Eu não acho que muita gente se deu conta do que significa ter classificado a Irlanda do Norte para o torneio - disse O'Neill, em entrevista por telefone ao LANCE! no final de maio.

É um feito que desafia a lógica. O país tem apenas 40 jogadores profissionais. Destes, saiu a lista de 23 convocados. O principal artilheiro, Kyle Lafferty, peregrinou por cinco times nos últimos quatro anos, sem conseguir ser titular em nenhum. O Windsor Park, estádio onde a seleção realiza as partidas, ficou conhecido no passado por ser um caldeirão de intolerância religiosa. A Irlanda do Norte não se classificava para nada desde 1986, quando foi ao Mundial do México.

Nos primeiros 18 jogos no comando, O'Neill ganhou apenas um. Perdeu para Luxemburgo e chegou à conclusão de que seu pai estava certo. Não deveria ter aceitado aquilo. Sentiu saudade do tempo em que era técnico do Shamrock Rovers, da vizinha Irlanda. Teve nostalgia até de quando havia abandonado totalmente o futebol e trabalhou no mercado financeiro.

Para tentar melhorar a qualidade técnica disponível, vasculhou a árvore genealógica de jogadores estrangeiros com avós nascidos no país. Pelas regras da Fifa, eles poderiam defender a seleção. Achou alguns, mas nenhum aceitou. Jogar pela Irlanda do Norte era uma grande roubada.

- Há tempos a seleção entrava nas eliminatórias apenas para fazer figuração. O moral dos jogadores era baixo e ninguém fazia muita questão de representar o país. A partida contra Luxemburgo foi realmente o fundo do poço. Pensei em sair porque não estava conseguindo mudar nada - confessa O'Neill.

Quem pode condená-lo? A liga nacional é amadora. Os 40 profissionais disponíveis espalham-se pelas quatro divisões principais da Inglaterra e as duas da Escócia. A maior referência do futebol no país é o zagueiro Jonny Evans, revelado pelo Manchester United (ING), mas vendido para o West Bromwich Albion (ING). No sorteio das eliminatórias para a Eurocopa, a equipe era a segunda pior ranqueada do Grupo F. Estava à frente apenas das Ilhas Faroe.

Pela primeira vez na história uma seleção em posição tão ruim no ranking da UEFA venceu sua chave. A Irlanda do Norte se classificaria pela primeira vez para a Eurocopa mesmo que o torneio não tivesse sido esticado para caber 24 nações. Deixou para trás Romênia, Hungria, Finlândia, Grécia e Ilhas Faroe. Foi a grande surpresa.

Não é preciso ser um expert para constatar que a Irlanda do Norte não tem nenhum craque na equipe. O goleiro (McGovern) joga no minúsculo Hamilton Academical, da Escócia. O principal armador é Steven Davies, do Southampton (ING). Conor McLaughlin, o lateral-direito, é do Fleetwood Town, da quarta divisão inglesa. Dinheiro também não está sobrando. O técnico foi obrigado a pesquisar com cuidado o local para treinar na França. Teve de economizar porque a Federação não nada em dinheiro.

- Se o futebol fosse feito apenas de grandes jogadores, o Leicester não teria sido campeão inglês, a Dinamarca não teria vencido a Eurocopa de 1992... O futebol é feito de bons jogadores, mas também de pessoas unidas por um ideal. Eles sabem que estar no torneio é o grande momento da vida deles. É um sonho. Futebol é feito de sonhos - completa O'Neill, que também confessa estar no meio de um. E não querer acordar.

De alguma forma, mesmo com pouco material humano, jogando em estádio acanhado e diante de adversários teoricamente mais fortes, a Irlanda do Norte se tornou um rival difícil de ser batido. As vitórias começaram a acontecer e Lafferty não parou de fazer gols.

As partidas em Windsor Park se tornaram acontecimentos. O próprio Michael O'Neill confessa surpresa sobre como o país se uniu em torno do time. Nem sempre foi daquele jeito. Mesmo nos anos dourados da década de 80, quando a Irlanda do Norte se classificou às Copas do Mundo de 1982 e 1986, parte da população não se identificava com a seleção. Culpa dos conflitos religiosos. E era o elenco que fez história ao derrotar a Espanha em Valencia para avançar à segunda fase do torneio em 82. Havia o menino prodígio Norman Whiteside, que bateu o recorde de Pelé como o mais jovem a entrar em campo na Copa do Mundo aos 17 anos e 41 dias de idade.

- A questão religiosa já foi um problema maior. Hoje em dia temos uma nova geração e se o problema ainda existe, não é na mesma intensidade. Agora você vê o estádio tomado de torcedores vestindo a camisa da equipe, orgulhosos de serem irlandeses. Muitas vezes não foi assim - confessa o técnico, que jogou pela seleção entre 1988 e 1996.

Michael O'Neill é católico em um país de maioria protestante. Quando aceitou o cargo de técnico, a questão foi debatida na imprensa. É delicado. Em qualquer site de empregos do Reino Unido, o candidato que preenche um formulário para trabalhar em empresa com escritório na Irlanda do Norte tem de especificar qual sua religião. O ex-capitão Neil Lennon pediu para não ser mais convocado. Católico, era perseguido por parte da torcida e recebeu ameaças de morte. Em um bar, foi nocauteado por dois torcedores e teve de ser hospitalizado.

- Eu joguei pela seleção e várias vezes foi difícil. O clima não era bom. Você ouvia vários comentários que não tinham nada a ver com o futebol. E quando a imprensa fez muito barulho com isso do que era necessário, prestou um desserviço, penso. É uma volta ao passado. Ninguém quer mais isso - completa.

A Irlanda do Norte está no Grupo C e terá de enfrentar Alemanha, Polônia e Ucrânia. A estreia será contra os poloneses, domingo, em Nice. A estimativa é que 30 mil pessoas vão fazer a viagem de Belfast, capital do país, à França para o torneio. Número parecido comemorou, em 1982, a classificação para a segunda fase do Mundial. Foi quando o técnico Billy Bingham convidou os torcedores para irem celebrar a classificação no hotel onde estavam os jogadores. Muitos foram e poucas vezes a Espanha viu uma festa igual.

- O que eu quero é que o time mantenha a teimosia em campo. A disciplina. Nós temos um time. Podemos não ter o brilho individual. Mas temos um time. Eu não tenho nada para dizer para os jogadores antes da estreia para motivá-los. Você acha que eles precisam de motivação para disputar um torneio como esse? - questiona.

?O próprio O'Neill lembra que a torcida tem uma música que canta em todos os jogos. Uma brincadeira. Ao ritmo da canção religiosa (sempre a religião) "Glória, glória, aleluia", dizem: "não somos o Brasil, somos a Irlanda do Norte. Mas é a mesma coisa para mim." É auto-depreciativo, uma maneira de deixar claro que não se pode esperar muito destaque técnico da seleção. Mas quem se importa? A Irlanda do Norte tem apenas 40 jogadores profissionais, nenhum craque. Mas chegou lá.

Ou não?

- Não. Ninguém acreditava que nos classificaríamos. Classificamos. Agora não apostam em nós para passar pelo nosso grupo. Queremos passar. A diversão vai começar nas oitavas de final - garante Michael O'Neill.

Além do orgulho pessoal, seria um feito para a identidade nacional da Irlanda do Norte. Para deixar para trás o passado de intolerância religiosa.

- Acho que o povo da Irlanda do Norte nos vê dessa forma. Com orgulho de ser persistente. O pequeno que faz questão de chutar a canela do gigante. Na França, queremos isso.

Em Nice, domingo, Michael O'Neill vai levar seu exército de refugos a campo. Eles não são o Brasil. São a Irlanda do Norte. Para eles, é a mesma coisa.

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