Reforço do Inter B, Rivaldinho quase largou a bola por comparações ao pai

Quando o filho de um craque resolve arriscar-se no mundo da bola, comparações costumam ser inevitáveis. Foi assim com Domingos e Ademir da Guia, Pelé e Edinho, Djalma Dias e Djalminha, Mazinho e os Alcântara, Bebeto e Mattheus, Romário e Romarinho e outras dezenas de exemplos no futebol e em outras modalidades. Não foi diferente com Rivaldo Júnior, o Rivaldinho. Recém-contratado para reforçar o sub-23 do Inter, o filho do pentacampeão contou que lidou a vida inteira com pessoas traçando paralelos entre sua carreira e a do ex-camisa 10 da Seleção Brasileira.

 

Apesar de jogarem em posições distintas - o menino de 21 anos é centroavante -, Rivaldinho conta que as comparações quase o levaram a pendurar as chuteiras precocemente há alguns anos, quando atuava na base do Mogi Mirim. Cansado de ouvir que só tinha oportunidade por ser filho de quem era - além de craque nacional, Rivaldo presidiu do clube entre 2008 e 2015 -, o jogador chegou a ligar para o pai, que estava no Uzbequistão, para avisar que ia parar. Foi imediatamente reprovado.

- Fui campeão no sub-15, mas quase desisti de jogar porque falavam que eu só jogava porque era filho do Rivaldo. Falei pro meu pai que ia parar e ouvi: "Tá maluco? Você é artilheiro! Eu estou longe. Você joga pelas suas qualidades, não tem nada a ver comigo" - contou Rivaldinho ao LANCE!.

 

A bronca funcionou. Rivaldinho foi para a base do Corinthians, mas as poucas chances e o receio da mãe de deixar o filho sozinho na capital paulista o levaram de volta ao Mogi. O atacante foi vice-artilheiro na campanha do título paulista sub-20, em 2013, o que abriu as portas para a promoção ao profissional.

 

Rivaldinho ajudou a conquistar o acesso à Série B. Em junho de 2015, viu o pai, então com 43 anos, colocar fim à aposentadoria e anunciar o retorno aos gramados. Atuaram juntos no Mogi, e, no dia 15 de julho, entraram para o seleto grupo de pais e filhos que anotaram gols na mesma partida, na vitória por 3 a 1 sobre o Macaé.

 

- Meu pai foi eleito o melhor do mundo em 1999, conquistou a Copa do Mundo em 2002. Ele já estava na história. Entrei para realizar esse feito junto com ele - orgulha-se o garoto.

 

Após uma passagem frustrada pelo Boavista de Portugal, assinou com o XV de Piracicaba para a disputa do Paulistão-16. As boas atuações despertaram a atenção da base colorada.

- O Inter já queria me contratar desde o ano passado, mas não deu certo porque fui para a Europa. Voltaram a me procurar, e não podia deixar a oportunidade passar outra vez. Ainda mais porque o Inter tem dado muita chance para atletas jovens e o time principal está carente de peças na minha posição. Quero trabalhar para subir o mais rápido possível. Apesar de novo, sou experiente, já disputei três edições do Paulista e joguei no exterior - avaliou o camisa 9, que tem contrato até o fim de 2017.

 

As eventuais comparações ao pai não preocupam mais Rivaldinho. Diante da maior oportunidade da carreira até agora, o atleta sabe que sua imagem jamais será desassociada do pai, mas se diz pronto para escrever a própria história.

 

- Rivaldo é o Rivaldo. É difícil ter outro como meu pai, ninguém vai conseguir chegar perto do que ele fez. Comparação vai ter, é inevitável. O que eu fizer dentro de campo vai ter boa repercussão pelo nome dele, e se eu for mal, será negativo por ser filho dele. Só vai depender do meu desempenho. Vão querer esperar do Rivaldinho um Rivaldo, mas isso não vai acontecer - disse.

 

- Não sinto que isso aumente a pressão sobre mim. Esse tempo passou. Quando eu considerei parar, ainda era criança, me abalava, ficava triste. Hoje em dia nem me aborreço mais. Sei que sempre vai ter comparação, mas não ligo pra isso - completou o garoto.

Bate-bola com Rivaldinho

'Quero conquistar as coisas por minhas próprias pernas'

 

- Como foi crescer no meio de craques do futebol?

Achava normal. Quando ia aos jogos do Brasil e do Barcelona, ia ao vestiário e não me impressionava. Só depois fui crescendo e me dando conta de quem eram as pessoas ao meu redor, de quem meu pai era. As pessoas vinham me dizer: "Seu pai deu muita alegria, foi o melhor da Copa do Mundo de 2002". Fui crescendo e vendo a importância que meu pai teve para o Brasil.

 

- Com quantos anos percebeu que queria ser jogador? Sua família apoiou a ideia desde o começo?

Eu cresci no vestiário, no meio do futebol, e sabia que o queria desde pequeno. A família sempre me incentivou. Falavam para eu nunca deixar de estudar, assim como falam para meus dois irmãos e duas irmãs, todos mais novos. Sempre me deixaram à vontade para escolher.

 

- Quais são suas maiores referências no futebol?

Meu pai. Tanto no futebol como na vida, é o primeiro. Também gosto do Luís Fabiano, Ronaldo Fenômeno, Adriano, Guerrero e Benzema.

 

- Seu pai já disse que fez a história dele e você tem que fazer a sua, que jamais pagaria para você jogar. Já ouviu boatos desse tipo? Como lidou com isso?

Ele nunca precisou me ajudar nos bastidores, ligar para seus contatos para me encaminhar no futebol. Nunca quis. Falei que se ele fizesse isso eu parava de jogar bola. Quando era jovem falei para ele que jamais aceitaria isso. Quero conquistar as coisas por minhas próprias pernas e, por enquanto, estou conseguindo fazer tudo sozinho. A principal ajuda que ele me dá é com conselhos. Não tomo nenhuma decisão sem falar com ele. Financeiramente, não preciso, com meu salário consigo me manter e comprar minhas coisas.

 

- No Paulistão-16, você marcou gol na derrota do XV de Piracicaba por 4 a 1 para o Palmeiras. Teve um sabor a mais marcar contra o time no qual seu pai é ídolo?

?Eu, particularmente, não me importo muito. Gosto de fazer gols contra Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Santos, Mogi, qualquer clube. Claro que tem uma importância a mais, fiquei feliz por fazer gol em um grande goleiro como Fernando Prass. Mas o que importa é fazer gols, seja contra quem for.

 

- Você ficou frustrado por seu pai não ter sido convocado para a Copa de 2006?

Fiquei triste. Estava na escola, pedi para sair mais cedo para assistir à convocação. Meu pai estava na expectativa, era o melhor do Campeonato Grego, vinha sendo convocado com frequência. O Parreira tinha dito que estava acompanhando ele. Pensei que ele ia por tudo que estava fazendo naquele momento. Não levaram ele porque estava na Grécia. Hoje em dia, não tem problema convocar atletas que atuam em mercados menores, como na China. O que vale é a qualidade do jogador. Naquela época, analisaram de outra maneira. Se fosse hoje, acredito que ele teria sido convocado.

 

- Por que você decidiu rescindir o contrato com o Boavista?

?Era muito diferente do que imaginava que seria a Europa. O time tinha um estádio fantástico, mas não tinha CT, a gente treinava em campos espalhados pela cidade. Também não estava tendo oportunidade. Quando tive, fui bem, nos jornais todos falaram bem de mim e achei que seria titular. Mas não fui, e respeitei a decisão do treinador (o boliviano Erwin Sánchez) de ficar no banco. Mas tinham afastado um jogador havia dois meses, aí ele voltou, treinou dois dias com o grupo, foi relacionado e ficou no banco comigo. Aí Sánchez colocou ele e eu fiquei no banco. Achei falta de respeito comigo, com o grupo, por isso não quis ficar. Falei com meu pai, ele me apoiou. Avisei o diretor que queria ir embora e eles resolveram rapidamente Nisso eles foram profissionais.

 

- Você se arrepende de ter voltado ao Brasil?

?Não sei dizer. Não me arrependi de ter saído, não sei se me arrependeria de ter ficado. Não dá para pensar assim. Agora estou feliz. O XV de Piracicaba não foi tão bem, mas fiz um bom Paulistão, consegui me destacar e agora estou no Inter, clube mundialmente conhecido. No fim, valeu a pena o que fiz.

 

- Qual é seu maior sonho como jogador?

Hoje é chegar logo no principal do Inter, ser titular, ganhar jogos e títulos. Ajudar o time a sair da fila de quase 40 anos no Brasileirão.

 

 

 

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