Há dez anos, na Copa-2006, França põe fim à geração do penta

Fiz para o LANCE! a cobertura da seleção francesa na Copa de 2006 na Alemanha. Da França , de Portugal, da Itália e da Espanha, que tinham CTs próximos, na região de Dortmund, chamada de Wesfalia e a mais rica do país.

Também era o encarregado do material dos rivais do Brasil. Fazia os treinos de véspera. Também acompanhava o jogo daquela que seria a próxima seleção a enfrentar os Canarinhos. Por isso, não estava no Estádio de Frankfurt naquele dia 1 de julho de 2006, pois fiz a cobertura de Portugal x Inglaterra, que jogaram três horas antes em Gelsenkirchen. Um deles "enfrentaria" o Brasil na semifinal (deu Portugal de Felipão, depois de 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação).

Nos dois dias que antecederam a fatídica partida, estava na belíssima cidade de Hameln, QG dos franceses na Alemanha e conhecida mundialmente por ser o palco da história de contos de fadas do "Flautista de Hameln" (aquele que tocava a flauta e os ratos - depois as crianças - o seguiam), dos irmãos Grimm, os mesmos que escreveram "Chapeuzinho Vermelho", "Bela Adormecida", "Branca de Neve".

Naquela quinta-feira, o polêmico técnico Raymond Domenech falou com a imprensa. Mas quem acabou sendo o protagnista foi o astro Thierry Henry. O atacante, ao ser perguntado sobre a Seleção Brasileira disse exatamente isso:

- O Brasil é um celeiro porque o futebol está no sangue, está na cultura. É uma identidade. Joga-se bola nas ruas, na praia, enm qualquer lugar. Quando eu era criança, minha mãe dizia. Das 7h às 17h, você vai estudas. No Brasil, a meninada das 8h às 18h estão arranjando um jeito de jogar bola, É daí que vem a técnica deles.

Quase que na mesma hora a imprensa noticiou que Henry disse que o brasileiro não estudava. A declaração tornou-se uma das mais polêmicas daquela Copa. E tome Henry - que adorava um papo com a imprensa, coisa que hoje não existe mais entre os jogadores de primeira linha - precisando dizer que não era bem aquilo que ele falara....

Sobre o jogo, a imprensa francesa estava dividida. Havia os que acreditavam na zebra (não esqueçam, o Brasil era hiper-ultra-superfavorito não apenas naquela partida, mas ao título!). O motivo foi a seleção ter eliminado a Espanha nas oitavas. Mas o grosso não esperava muita coisa do time de Zidane, Henry & Cia, que penou para se classificar nas eliminatórias e fizera uma fase de grupos sofrível.

Veio o dia do jogo, 1 de julho de 2006. A França entrou sem surpresa: Barthez, Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Makelele, Vieira, Malouda e Zidane; Ribèry e Henri. O Brasil com Dida, Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Zé Roberto, Juninho e Kaká; Ronaldinho e Ronaldo. A surpresa sendo Juninho, conhecedor do futebol francês com seus anos e títulos pelo Lyon, no lugar de Adriano Imperador.

Na sala de imprensa do estádio do Schalke, estava fechando o material do triunfo do Portugal, com grande atuação do menino Cristiano Ronaldo, 21 anos - foi dele a cobrança de pênalti certeira que fechou o placar em 3 a 1, sendo que a Inglaterra errou três das quatro cobranças!

Luiz Felipe Scolari assegurava que seria o melhor do mundo em breve (foi pela primeira vez em 2008), mas o que eu tinha em mãos era um caminhão de declarações sobre o possível Brasil x Portugal que estava por vir nas semifinais e que tomaria de assalto duas páginas no dia seguinte.

- Será uma grande partida se ela vier a ocorrer. Mas estou treinando Portugal e tentarei levar a minha seleção à vitória, dizia Felipão, que naquela altura era o trenador mais vitorioso da história das Copas, pois vencera os sete jogos com o Brasil em 2002 e 4 jogos com Portugal. Aquele empate no tempo normal e na prorrogação era a primeira partida em Mundiais que ele não saíra de campo vitorioso (seu recorde de 11 vitórias seguidas perdura até hoje).

- Seria uma partida de sonhos - dizia Cristiano Ronaldo, que ainda não era superstrela e dividia holofotes com Figo, Deco e o quase aposentado Rui Costa. E que sempre teve uma queda pelo Brasil, havia até tirado férias no Nordeste.

Acompanhei pela TV o jogo do Brasil. A imprensa portuguesa nitidamente torcia contra. Pegar a nossa Seleção não seria uma boa. Encarar o Dream Team de Ronaldinho-Ronaldo-Roberto Carlos-Kaká?

Me lembro que na hora do gol de Henry com o passe de Zidane. Não estava vendo a TV. Virei o rosto pois a comemoração incluiu alguns voluntários alemães (poucos, o grosso da Alemanha torcia para o Brasil), portugueses e uns poucos gatos pingados da sempre mal-humorada imprensa inglesa. Passei a ver a partida naquela TV sem som. Nos minutos finais quem estava na sala grudou na frente das tevês. E o ohhhh quando Ronaldinho Gaúcho cobrou no último minuto aquela falta que passou raspando me marcou. Assim como a risadinha irônica de um jornalista inglês que não me lembro mais para qual órgão ele trabalhava. O roto zoando o esfarrapado.

Apito do juiz, aplausos, algumas ironias, mas a sensação geral de incredulidade, pois a França era zebra. Não como uma islândia nesta Euro, mas poucos apostavam nela.

Como era um dos poucos brazucas no local, dei umas entrevistas sobre a eliminação do time de Parreira. A pergunta era se estávamos vendo o fim de uma geração. Uma frase minha "muitos sairiam, mas Adriano, Kaká e Ronaldinho têm tudo para manter o Brasil no ápice por muito tempo" saiu pelo menos no L'Équipe.

Mas se revelou incorreta. RG nunca mais voltou a jogar em alto nível, Adriano partiu para uma aposentadoria inexplicável e Kaká, embora tenha se tornado o melhor do mundo em 2007, jamais se recuperou dos problemas físicos, o principal uma pubalgia.

À noite, peguei o trem de volta rumo a Gütersloh, cidade do QG de Portugal, sabendo que teria de fazer uma ponte-ferroviária com Hameln, que ficava cerca de 1h30 da casa dos Patrícios. Afinal, a seleção que pôs fim à geração do penta passava a ser protagonista do Mundial, assim como o quase-aposentado Zidane, que teve uma atuação fantástica contra o Brasil e faria de pênaltis o pênalti que eliminaria Portugal nas semis, além do gol no empate com a Itália. Zizou, aquele quase aposentado que não falava com a imprensa e não treinava, pois era sempre poupado e ficava na academia. E que adorava derrubar o Brasil.

Carlos Alberto Vieira é editor e colunista do L!

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