Dorival detalha reforços: 'O Santos hoje tem muito mais do que um time'

O Santos convive há tempos com a crítica de formar um time para a temporada e falhar na concepção de elenco para competições que exigem peças de reposição. Em 2016, após mais uma conquista estadual, a cartilha parecia mantida...

Por causa da Seleção Brasileira, o Santos já esteve desfalcado de Gabigol, Lucas Lima, Ricardo Oliveira, Thiago Maia e Zeca e os substitutos estavam longe de apresentar a mesma qualidade técnica. Dorival Júnior sofria.

A precoce eliminação do Brasil na Copa América, de fato, foi um alívio ao comandante. Mas no período de ausência de seus principais jogadores, houve vida e o Peixe rondava o G4. Modesto Roma Júnior abriu o cofre e atendeu às exigências de seu treinador, que clamava por reforços e alertava para as dificuldades que estavam à frente. Contratações vieram, sendo a maioria delas aprovadas por Dorival Júnior.

Nesta entrevista ao LANCE!, o treinador abre o jogo e detalha o processo de reformulação pelo qual o Santos passou. Crítico do modus operandi do futebol brasileiro, Dorival explica contratações, torce pela permanência de seus astros e vê o elenco no caminho certo para grandes conquistas já nesta temporada.

Com as contratações feitas, sendo a maioria dos nomes indicados por você, podemos dizer que o Santos tem sua cara?

É difícil falar isso porque você tenta moldar a equipe de acordo com as peças que tem. Agora estamos incorporando peças novas, mas que ainda não foram usadas. Lógico que eles vêm reforçar uma base já existente. Nesse ponto aí, sim (tem minha cara). Nós começamos a ter mais força aliada à qualidade mostrada por quem vem chegando. Espero que se adaptem à nossa forma de jogar para que tenham uma aceitação rápida do próprio grupo.

Em que momento a comissão técnica percebeu que era necessário trazer reforços?

Acho que há situações de mercado que você tem que aproveitar. Existem situações necessárias, contratações pontuais, reposição que precisa fazer ou que você encontre no próprio elenco um jogador com as características que precise. Em um primeiro momento, tentamos com aqueles que estavam dentro do nosso grupo. Em um segundo momento, estamos procurando peças que nos ajudem a alavancar as qualidades do próprio elenco. O Santos não tem um alto poder de investimento comparado às outras equipes. Então temos de ter consciência do que faremos e buscar alguns nomes que possam vir a acrescentar bastante não tendo aquele valor elevado que algum outro clube pudesse eventualmente gastar.

O número de reforços contratados surpreendeu. A ideia de fato era inchar o elenco?

Nós já estávamos pensando à frente na possibilidade de perder os três jogadores para a Seleção, um ou outro por lesão que deve acontecer. Estávamos pensando na Seleção olímpica porque sabíamos que teríamos três convocáveis (Zeca, Thiago Maia e Gabigol). Por isso, tentamos antecipar algumas situações. Esse foi o pensamento, mesmo sabendo que em um primeiro momento ficaríamos com um elenco um pouco maior. Agora temos a necessidade de tirar (negociar) alguns atletas para que possam aparecer em um outro clube, mas acima de tudo tentando uma qualificação.

Dos reforços, só Rolón e Noguera não foram indicações suas. Qual foi o papel da comissão técnica?

Mesmo assim o Rolón está trabalhando, está buscando espaço, sendo respeitado, e assim será com o Noguera. Com relação ao Vecchio, fomos atrás, monitoramos, buscamos muitas informações. Já o conhecia no seu início. Copete acompanhei bastante na Libertadores e já vinha chamando atenção há algum tempo, jogando pelo Atlético. O Jean Mota é um garoto que estava na Portuguesa, teve bom início, foi para o Fortaleza e manteve o que vinha realizando. O Rodrigão é jogador que nos foi apresentado, fizemos acompanhamento dele também, chamou muita atenção. Yuri vocês acompanharam dentro do Paulista. Acredito que foi mais ou menos nesse perfil que tentamos acompanhar e nos abastecer de informações para que pudéssemos errar o mínimo possível, que é a intenção nesse momento.

Você costuma assistir partidas de outras divisões. O treinador precisa acompanhar de perto?

A gente assiste. Sempre procurei formar minhas equipes em cima de Série A, às vezes B e C também. Acho que a maior riqueza de um treinador é ter conhecimento. Você nunca sabe quanto vai poder gastar e, de repente, não pode buscar o jogador que queira. Então você tem que trabalhar com um leque de opções, ter noção do que está acontecendo no mercado. Naturalmente, você só vai conhecer o jogador a fundo quando ele estiver ao seu lado. É difícil ter ideia sem ter um acompanhamento próximo. Assim, você tenta ter noção geral do que acontece, cercar uma ou outra contratação desde o início. Logicamente que nós fomos atrás de alguns que não deram certo, outros que vêm como boas opções.

Na Europa, é comum os times terem diversos olheiros. Como foi feito o seu monitoramento?

Tenho muitos amigos espalhados pelo país todo. Então tiro muitas informações com amigos de todos os locais e que estão acompanhando a maioria dos campeonatos. Jogador não tem certificado de garantia, então você tem que diminuir da maior forma possível a margem de erro. E a melhor maneira de diminuir é essa: depois que você observa alguém que lhe chame a atenção, você tenta tirar o máximo de informações e diminuir o erro, porque uma contratação nem sempre dará certo. Pode custar milhares de reais, como pode custar bem menos. De repente o que custa menos dá mais certo do que o outro.

O Santos hoje tem um elenco pronto para brigar por títulos ainda nesta temporada?

Está caminhando, ainda não tem esse elenco totalmente formado. Se pegarmos ano passado, alguns jogadores que estavam próximos de assumir a posição de titular já tinham quase cem jogos na equipe. E é disso que precisamos, que esses jogadores atinjam esse momento para que o elenco esteja completamente fechado e estabelecido. Acho que hoje o Santos tem muito mais do que um time, porém ainda um grupo que está em formação, finalizando uma formação. Talvez daqui a alguns meses possamos dizer que o Santos tem um elenco qualificado e preparado para que do segundo semestre para frente tenhamos coisas melhores a alcançar.

O Cuca chegou ao Palmeiras e já correu risco dizendo que o clube luta pelo título. Você também vê o Santos na briga pelo topo?

Isso tudo não tem como mensurar. Se você pega o elenco do Palmeiras, é um grande elenco, mas só o tempo vai dizer se está pronto para conquistas. O Santos da mesma forma. É um elenco pronto, preparado? Difícil dizer, porque ganhar campeonato é uma coisa, mas se manter ganhando e brigando pelo topo já é um pouco diferente. E é esse o estágio que queremos atingir, que o Santos não se prepare apenas para ganhar em um primeiro momento eventual. O Santos em um ano e quatro meses jogou três finais. É um dado importante. Talvez não chame muita atenção, mas é um dado de que está começando a mostrar um outro lado do Santos, que espero que se consolide rapidamente.

Você parece dar certo no Santos por apostar na base. Como funciona esse casamento?

Futebol é muito dinâmico e a base serve para isso. Não para que conquistemos títulos, mas para que acima de tudo revelemos. O sub-23 está se estruturando, o sub-20 está se reformulando, talvez teremos coisas boas acontecendo no ano que vem. O espírito é esse, estar observando e dentro do possível dando oportunidade para que o garoto mesmo conquiste o espaço que vem pedindo na base. O Santos, daquilo que aconteceu do ano passado para cá, deu alguns passos importantes. Até porque a chegada desses garotos com reais possibilidade de lutar pela titularidade do time principal mostra que o trabalho já tem um outro caminho.

Muitos dos reforços do Santos fazem mais de uma função em campo. Isso foi um pedido seu?

Acho que é uma tendência natural, Jogador tem que apresentar essas várias situações. Está acabando essa era do especialista. Está na hora de valorizar o multiespecialista, o cara que faz bem marcação, criação, transição, finalizações. Precisa valorizar porque é o perfil que queremos agora. Nosso goleiro sabe jogar com os pés, tem que saber virar o jogo. Isso tudo é para uma melhora. Se quiser melhorar a equipe, tem que melhorar as qualidades individuais.

Você está perto de completar um ano no Santos. Qual a avaliação?

Passou rápido, mas coisas boas aconteceram. Fico feliz com isso, mas acho que existem coisas melhores ainda por vir pela frente, espero que eu possa retribuir ao Santos tudo o que estamos conseguindo alcançar.

O torcedor quer a Libertadores. Você tem essa obsessão também?

Tenho vontade muito grande, mas não obsessão. Temos que ter consciência de que o Santos está criando corpo, está evoluindo. O que espero é que o time do Santos esteja preparado para continuar vencendo, buscando os resultados, o que fatalmente nos levará à Libertadores. E quando entrarmos em uma Libertadores, que não entrarmos apenas por entrar. Temos que entrar decididos a realmente alcançar a taça.

Você crê na permanência de seus principais jogadores no elenco?

Está na hora de o Santos se preocupar em melhorar e não perder. A perda do Geuvânio para mim foi uma perda muito grande, porque ele botava pressão em quem estava jogando. É o que estamos tentar alcançar agora, que os que estão chegando coloquem pressão em quem está atuando e a partir daí tenhamos uma disputa saudável por posições.

Em caso de proposta, o treinador tem como interferir na decisão?

Não tem como, porque amanhã esse mesmo treinador pode tirá-lo do time. A primeira frase que ele vai colocar é: você pediu para eu ficar e agora me tira do time? Então tem que ter muito cuidado com tudo isso. Uma orientação, conversa, vai ter. Clubes não estão preparados nem para o assédio dos próprios empresários internos do país. Olha a diferença de uma equipe europeia, os caras têm mais de dez anos de clube. O Barcelona só vai vender um atleta se eles quiserem, não vendem por vender, para capitalizar e fazer caixa. Ao contrário, vão para o melhor jogador do rival e contratam. Como o Santos vai fazer isso? Como o Santos vai até o Palmeiras e tira o Gabriel Jesus? Ou como o Palmeiras vem aqui e tira o Gabriel Barbosa? Não estamos preparados nem para comprar e tampouco para vender. Nossas opções são base, Série B, C. Jogadores que precisam de tempo para se firmar para começarem a produzir.

Como você mantém o bom ambiente aqui no Santos?

Não é nada forçado, é natural. Eu não fiz nada além do que normalmente faço em casa e no meu dia a dia. Temos que ter bom ambiente de trabalho. Quero o melhor para quem trabalha aqui dentro. Me preocupo, sim, em melhorar as condições de trabalho, do CT, do que está em volta. O Santos tem que se preocupar em investir, porque o material humano do Santos é muito bom. Não só de jogadores, mas também o pessoal que trabalha em volta, grupo médico, técnico, alimentação... E o Santos alcança o que alcança por causa do material humano que tem aqui dentro, porque o Santos trabalha com muitas dificuldades e mesmo assim consegue fazer o que faz pela qualidade dos profissionais que estão aqui e dão vida ao clube. Esse é o grande diferencial.

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