Um ano de Santos B: pulso firme, parceria e estreia na Copa Paulista

Kleiton Lima atrasa a entrevista ao LANCE! por cerca de 30 minutos. Uma reunião de última hora com dois garotos do Santos B muda os planos do treinador de atender a reportagem antes do treino da manhã no CT Rei Pelé. Do lado de fora de sua sala, um dos rapazes assiste os trabalhos do sub-17, aguarda sua vez de conversar com Kleiton e seu auxiliar, Marcelo Passos. Com cara desconfiada, sabe que lhe espera ao menos um puxão de orelha...

É assim que Kleiton Lima comanda o sub-23 do Santos há um ano e um mês: com disciplina. Em sintonia com a diretoria santista e afinado com Dorival Júnior e Lucas Silvestre, do profissional, o treinador do Santos B conta ao L! os segredos do Santos B, explica como funciona a formação de atletas dentro do clube e fala sobre a disputa da Copa Paulista. Para o Peixe B, a competição começa nesta segunda-feira, às 15h, contra a Chapecoense, na Vila Belmiro. Momento para os garotos se afirmarem em campo, ''abrindo o portão'' que divide o CT Rei Pelé em base e profissional.

- Temos que ter todo o cuidado com os garotos. Eu atrasei a entrevista em alguns minutos justamente porque estava conversando com dois nesse sentido de cuidar dentro e fora do campo. A gente tenta abraçá-lo em toda essa esfera, envolve o ser humano também. Dois caminhos nisso: uma possibilidade de crescer na carreira, de afirmação e isso muda a vida, não só dele, mas dos familiares, e outro caminho, mais largo, da maioria, muito talento, mas que não se concretiza, porque acaba se perdendo por N fatores que a gente sabe quais são. Hoje o papel do treinador é muito mais do que um técnico de futebol e fazer escolhas e estratégias - explica, ciente de que é preciso o diálogo para evitar situações de indisciplina como a do garoto Diogo Vitor.

"De presente", o Santos B deu para Dorival Júnior nesse ano o meio-campista Vitor Bueno, além de Ronaldo Mendes, Fernando Medeiros e Lucas Veríssimo. Na prática, os garotos que vêm de fora do clube e não das categorias inferiores, têm cerca de seis meses para se adaptarem ao sub-23, se destacarem e subirem. No caso de Bueno, foi contrato por empréstimo do Botafogo-SP no fim do Campeonato Paulista do ano passado e ''maturou'' no time de Kleiton por algum tempo antes de ganhar destaque na equipe profissional.

- Até os 23 anos o atleta maturou. O Lucas Lima não chamava a atenção de todo mundo quando tinha 17 ou 18, hoje ele chama. Eu trabalhei com ele no Sport Recife logo quando ele saiu do Internacional B, ele foi do sub-23 para o Sport e chegou como mais um. Lá começou a ser protagonista de uma Série B de Brasileiro e lá chamou a atenção do Santos. Ficou um período de seis meses sem jogar ou entrando bem pouco. Hoje é até um grande nome da Seleção Brasileira, ele foi maturando. O atleta consegue desenvolver uma maturação e ai sim passa a estar pronto para as decisões, pressões, mas isso não é uma regra. Tem uns que atingem isso com 21 anos, outros demoram mais porque não tiveram uma base tão boa assim - fala.

- O atleta que vem da base, vem com contrato bom, longo. cinco anos. Então as vezes ele já subiu para o 23 e ainda tem quatro anos de contrato, esse talvez a gente possa ter um pouco mais de tempo. O que vem de fora talvez tenha menos tempo, uma janela de seis meses, até porque a gente viu que tinha potencial para isso e precisa se afirmar - completa.

Embora no sub-23 o resultado dentro de campo comece a se tornar importante, o intuito segue sendo o de dar as melhores condições possíveis para o atleta se profissionalizar - ao contrário das outras categorias, não é mais um período de formação, e sim de afirmação do jogador. Com diálogo e com a ajuda de seus auxiliares, Kleiton Lima tenta evitar que casos como o do atacante Diogo Vitor aconteçam - o garoto chegou a subir para o profissional, entrou em campo pelo time de Dorival Júnior, mas faltou a um treino, quebrou a confiança e foi ''rebaixado'' ao time B novamente. Lá, faltou outra vez e foi achado apenas em Minas Gerais, onde tem família. Sua situação no clube é incerta.

- Cada vez mais precoce, um moleque do sub-14, sub-15 já tem N convites. De balada, de conhecimento de outras áreas, isso é bom quando a pessoa tem uma base familiar boa. Mas, às vezes, não é isso, o cara vem de uma região do Nordeste ou Norte do país onde não tinha tanta estrutura assim, essa possibilidade dele ser o que é aqui. Se não tiver um cuidado com ele aqui...

- Isso eu estou falando de um atleta em idade profissional ou semi-profissional. A conversa com o atleta é justamente isso, ter essa liderança, ser comedido, líder bem com os mais jovens, ser correspondente nosso fora de campo. Ter cuidado com quem vai, por onde vai, manter o foco totalmente no futebol. Foco, trabalho, é um esporte que se você treina aqui, sai e larga tudo o que você treinou, não só no sentido físico, mas também no sentido do comprometimento, você perde. É diferente dos outros, temos esportes que envolvem 12, 15 atletas, aqui envolvem 30... São 18, 20 que vão para o jogo, mas tem os que estão voltando de lesão, os que ficaram fora da lista de relacionados e estão buscando uma oportunidade. Enfim, são N fatores que temos que estar inseridos para que o grupo possa se fortalecer.

Mais do que uma relação de confiança com seus comandados, Kleiton é o olho de Dorival Júnior no sub-23. Quase diariamente os dois treinadores conversam sobre os garotos do Santos B. O processo de transição do jogador para o profissional embora seja algo natural, é monitorado pelas duas comissões técnicas de perto.

- Às vezes algum garoto é puxado para treinar no profissional, mas o Dorival ainda acha que não está pronto, então não é relacionado, volta para nós. É algo que vai acontecendo. É um relacionamento muito próximo. É uma conversa aberta. A gente coloca alguns pontos que a gente acha pertinente, outras coisas vem dele. Esse diálogo tem sido interessante. O prazo a gente não dá. Os que vieram de fora para dentro nessa última fase foram todos contratos bem pequenos, curtos. Já monitoramos, já acompanhamos, mas esperamos uma resposta mais imediata. Ver se atrai, chama a atenção, a gente desenvolve. Dorival tem olho clínico, é um cara experiente, sabe analisar.

Confira outros pontos da entrevista de Kleiton Lima ao LANCE!:

COPA PAULISTA

?Claro que a camisa do Santos tem um peso, a gente sabe de tudo isso. Não dá para entrar só para cumprir tabela, o foco é buscar um resultado de destaque, mas isso ainda não é o mais importante. É o momento de maturar esse meninos até abrir o portão, vai romper para atravessarem para o comandante geral, as decisões são dele, a gente passa informações, ele tem experiência, a leitura, o time certo. Às vezes vai subir para ele e vai passar um tempo aqui, como aconteceu com o Vitor Bueno, fez gol contra o Atlético-PR e hoje é o artilheiro do time. Passou cinco meses, quatro meses ali, treinando com a cabeça do time de cima. Essa metodologia que a gente trabalha é porque Dorival tem o time dele.

COMEÇO DO PROJETO SANTOS B

A gente iniciou os trabalhos em maio do ano passado, foi um projeto que começou do zero. Não tinha estrutura, não tinha atleta, nada, era uma ideia do Dagoberto (dos Santos, superintendente de esportes do Santos) e do presidente Modesto Roma Júnior, a gente desenvolveu, virou um projeto e o projeto virou real. Foram atletas para avaliação, não podíamos arrancar os meninos do 17 e do 20, não era isso. Foi começando algo mais sorrateiro. Mês passado fez um ano de projeto, Vitor Bueno, Ronaldo Mendes, Fernando Medeiros, Lucas Veríssimo... Aqui ainda teve um último momento e a oportunidade apareceu, foi, pegou, vingou. Matheus Nolasco, veio como uma aposta, eu conhecia ele, já tentei levá-lo. Lancei o nome e trouxeram. Hoje também já faz parte do elenco. Não tem prazo, é natural esse processo de transição. Fico feliz que o Santos B esteja dando frutos.

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