Prazer, Platiny! Artilheiro em Portugal já quis ser bombeiro e se 'formou' na base com Dudu

No bairro de São Joaquim, zona rural de Goiânia, um menino com nome de craque dava seus primeiros passos no futebol. Ainda meio dividido entre ser bombeiro ou jogador, Higor Platiny frequentava diariamente a Ovel, escolinha famosa por revelar atletas para o cenário nacional. Mal sabia o pequeno garoto que jogava ao lado de um desses que se destacariam no futuro, o atacante Dudu, hoje no Palmeiras. Formados no mesmo ninho, tomaram caminhos diferentes na carreira. Na temporada passada, depois de passar por Acre, Tocantins e Goiás, Platiny terminou como vice-artilheiro da segunda divisão de Portugal, pelo Feirense, com 18 gols.

- Tinha um Dudu lá, não lembro se era ele, joguei na Ovel até os 14 anos mais ou menos. Eu sou de 90 e ele é um pouco mais novo, jogar juntos acho que não jogamos, mas treinávamos no mesmo lugar - conta Platiny em entrevista ao LANCE!. O atacante palmeirense esteve na Ovel no ano de 2005, assim como o goiano e ambos treinavam nas dependências do clube.

Fã do Palmeiras por ter ganhado uma camisa do pai quando pequeno, Platiny atravessou caminhos tortuosos no futebol brasileiro no início de sua carreira. Depois de ''formado'' na escolinha, rodou por times de três estados antes de conseguir as primeiras chances na Europa. Entre uma experiência e outra, já foi obrigado a consertar a própria cama na concentração e dividir uma casa com um time inteiro.

- Rapaz, no Acre parece que o sol está a dois palmos da cabeça... É um calor insuportável, tempo seco. Foi o lugar que mais estranhei jogar. Eu morava na república, tinha uma casa em frente ao estádio, moravam oito ou nove jogadores. Calor, a casa era bagunçada, só homem morando... bagunça. No futebol, era bem amador mesmo, fui só porque estava desempregado. Uma coisa de outro mundo - relembra o atacante, e completa:

- Em Tocantins foi complicado também. Morei no mesmo esquema. Quando eu cheguei lá, não tinha nem cama, tinha que dormir no colchão. Aí me falaram que eu tinha que arrumar uma cama quebrada para dormir. Tive que arrumar, né? Os quartinhos era muito pequenos, calor demais também. Mas tudo isso é aprendizado, experiência... Faz parte do futebol - declara o jogador, que tem o nome do ex-jogador francês por homenagem do pai, que resolveu apenas trocar o 'i' pelo 'y'.

Antes mesmo de saber dos perrengues que passaria como jogador de futebol, Platiny sonhava em seguir uma carreira bem mais arriscada do que a de um atleta profissional: mergulhador de resgate, como o pai. Hoje estabilizado, o mergulho que projeta é um pouco mais complexo. Ciente de que na Seleção Brasileira tem poucas chances de obter oxigênio, cogita respirar ainda mais os ares portugueses.

- Eu penso em jogar pela seleção portuguesa, sim. Mais fácil do que no Brasil, né? Nunca tive proposta e nem conversa sobre isso, ainda não pediram. Mas se eu tivesse na Primeira Liga, isso se tornaria mais fácil. Todo moleque sonha em chegar à Seleção Brasileira, mas isso é impossível para mim atualmente. Poder representar um país, no caso Portugal, é uma meta para mim. Quem sabe um dia... - analisa o recém-promovido à elite do futebol de Portugal com o Feirense, que terminou a Segunda Liga em terceiro lugar.

Durante as férias no Brasil, renovou o contrato de empréstimo com o Feirense por mais um ano - já que pertence ao Grêmio Anápolis, clube-empresa de Goiás. Assim, depois de quatro temporadas na segunda divisão portuguesa, vai ter a chance de jogar entre os principais times do país. Um possível retorno ao Brasil não está descartado, mas é projeto para o futuro.

- Queria um dia jogar a Série A do Campeonato Brasileiro. No Brasil não dão tanta oportunidade como dão lá fora, não te valorizam do jeito certo. Quando eu estava no Atlético-GO, fomos campeões estaduais e não nos deram o devido valor. Nunca joguei a Série A.

BATE-BOLA COM HIGOR PLATINY, ATACANTE DO FEIRENSE (POR), AO LANCE!

'Já trabalhei em lanchonete, já entreguei panfleto, mas futebol sempre foi o objetivo'

De onde vem o sobrenome Platiny?

Meu pai era fã do (Michel) Platini e gostava muito de futebol. Então, ele colocou Platini, mas com Y. E Higor, com esse H, também é bem diferente. Quando eu comecei a jogar futebol, com sete anos, tinha outro Igor que jogava comigo, então, para diferenciar, o técnico me chamava de Platiny. Aí ficou.

Como evoluiu no futebol depois de passar pela escolinha Ovel?

Saí da Ovel para o Atlético-GO, time que era conveniado à escolinha. Depois, eu fui para o Inhumas por de um cara que havia sido meu treinador no sub-20 do Atlético. Ele acabou indo para lá e como já me conhecia, me levou também. Jogamos a segunda divisão do Goiano. De lá fui para o Acre, meu Deus, lá nem sei... É mais amador que sei lá o que... Mas futebol é assim, profissionalizei lá. Joguei o Acreano, depois fui para Tocantins também. Depois, Grêmio Anápolis, onde ganhei a terceira divisão do Goiano, subi para a segunda e depois fui para Portugal, Feirense, por empréstimo.

E como foi parar em Portugal?

Eu joguei no sub-20 do Atlético, a gente fazia muito treino contra o profissional, tinha um diretor do Grêmio Anápolis que sempre iam ver esses jogos e ai no caso ele me viu jogando e me levou para Anápolis, fiz contrato. E lá o presidente era português, o pessoal todo era de Portugal. Levaram muitos jovem para lá, porque ele traz o pessoal de Portugal para ver os jogos aqui, né? Para ver o Anápolis. Eu tava jogando na época e o treinador do Feirense veio olhar um preparador físico, mas gostaram de mim e me levaram para lá.

Já trabalhou com outras coisas fora do futebol?

Já. Trabalhei com algo que não sei se vocês falam aí em São Paulo, é pit-dog. Tipo lanchonete. Já entreguei panfleto também. Trabalhei numa distribuidora de gás, entregava panfleto deles. Trabalhei com um monte de coisa, mas futebol sempre foi o objetivo. Eu conseguia conciliar, só às vezes que não, quando tinha que trabalhar o dia todo. Minha meta sempre foi chegar no profissional, dar certo no futebol. Trabalhava um pouco, depois largava e ia treinar. Treinava de manhã, trabalhava à tarde...

E hoje sente que está onde queria?

No patamar que eu queria não, né? Mas comparando o que pensava, de jogar na Europa, nesse caso sim. Todo jogador quer, né? Então já vai para a quinta época que estou lá, isso para mim é muito bom. Época (risos)... É costume falar época, no Brasil se fala temporada, né?

Quando vai se naturalizar?

Eu tenho alguns parentes portugueses, mas com seis anos de residência já é possível tirar o passaporte. Meu empresário está cuidando disso. Não foi difícil conseguir o visto de trabalho, fiz meu passaporte brasileiro e o clube me deu uma carta para entrar no país, falando do contrato, aí ficou mais fácil.

Em sua volta ao Feirense, foi apresentado com status de grande contratação do clube. A que deve essa fama?

No meu primeiro ano, ano de estreia lá, fiz dez gols e fui para o Braga B e eles não achavam que eu ia retornar, foi até surpresa para mim quando meu empresário falou da proposta. Eu aceitei numa boa porque lá eu gosto da cidade, do estádio, da torcida, gosto de estar lá. Me sinto à vontade. A torcida gosta, né? Quando tá fazendo gol, todo munto gosta... Agora para de fazer para ver... (risos).

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