Atacante condenado por estupro volta ao futebol enquanto aguarda julgamento

  • Stu Forster/Getty Images

    Ched Evans quando ainda era jogador do Sheffield United

    Ched Evans quando ainda era jogador do Sheffield United

Tentar falar com Ched Evans, 27 anos, atualmente na terceira divisão inglesa, é esbarrar em um intransponível muro de silêncio. Ele se recusar a conversar com a imprensa. Seu empresário não comenta sobre o cliente

"Não é do nosso interesse dizer nada no momento", declarou Chris Bird, da Bird Consultancy, empresa de Relações Públicas que cuida da imagem do atacante, respondendo ao pedido de entrevista do jornal "Lance". Nem o Chesterfield, que o contratou há cerca de dois meses, quer se pronunciar.

"Nós não vamos falar a respeito de Ched por enquanto", foi a resposta de Nick Johnson, chefe de mídia e comunicação do Chesterfield à reportagem.

Ched Evans é um pária do futebol europeu. Por aceitar contratá-lo, o clube já perdeu um patrocinador e pode ver a própria torcida se revoltar. Hoje, no pequeno estádio de Causeway Lane, com capacidade para 2.700 pessoas, ele vai entrar em campo pela primeira vez com a camisa da equipe, para um amistoso diante do Matlock Town, da Sétima Divisão inglesa.

Mais do que o adversário, o local foi escolhido a dedo para evitar um grande número de torcedores que pudessem fazer do atacante alvo de xingamentos e protestos.

Em abril de 2012, Evans foi condenado por estupro. Ficou preso por 21 meses e saiu por bom comportamento. Virou um nome polêmico dentro do país e todos os clubes que se interessaram em contratá-lo desde que foi solto, em outubro de 2014, receberam uma enxurrada de protestos e reportagens negativas na imprensa.

"Nós não podemos comentar sobre o caso, mas temos confiança de que a verdade será mostrada em breve", diz o curto comunicado de Kieran Vaughan e David Emanuel, advogados do jogador.

O escritório de advocacia conseguiu anular a sentença e marcar um novo julgamento para outubro deste ano. A alegação é a existência de provas que não foram levadas em consideração pelos policiais na investigação do caso. Evans pode voltar para a cadeia, mas ele aposta que será absolvido. Seu nome continua, por tempo indeterminado, no registro de agressores sexuais.

O atacante sempre jurou não ter cometido o crime (o que pode dar margem às piadas que a cadeia está cheia de inocentes). Mas ele levou isso às últimas consequências. Recusou-se a ficar na ala dos agressores sexuais na cadeia, o que obrigou as autoridades a arranjar-lhe proteção especial. Foi ameaçado de morte.

Revelação do Manchester City em 2007, era uma aposta do clube para o futuro, mas não recebeu muitas chances. Acabou negociado com o Sheffield United por 3 milhões de libras (cerca de R$ 15 milhões, em valores atuais) em 2009. Foi por este clube que atuou pela última vez em 14 de abril de 2012.

Evans e o também jogador Clayton MacDonald foram acusados de estupro de uma garçonete galesa de 19 anos, em 2011. Eles não negam terem feito sexo com a mulher, mas alegam que foi consentido. O tribunal julgou que ela estava bêbada demais para concordar com o ato, o que sempre foi negado pela dupla. Durante o julgamento, os advogados de Evans apresentaram um especialista que atestou que o nível de sangue encontrado no sangue da vítima seria o suficiente para que ela ficasse com a voz arrastada e com dificuldades de equilíbrio, mas que era "pouco provável" que tivesse perda de memória, como alegou. A procuradoria contestou o parecer.

MacDonald foi absolvido. Evans condenado

Karl Massey, sogro do atacante, começou a trabalhar pela anulação do julgamento ainda enquanto o genro estava preso. Milionário, é dono da Nimogen Ltda, empresa que cuida da venda de joias e relógios em lojas especializadas e faturou 10,8 milhões de libras (cerca de R$ 54 milhões) no ano passado.

Ele contratou um detetive particular para procurar evidências ignoradas pela polícia. Chamou a Bird Consultancy para mudar aos poucos a imagem e representar Evans. Mudou os advogados que cuidavam do caso.

Procurado, Massey não foi encontrado para dar declarações.

Em janeiro deste ano, nasceu o primeiro filho de Evans com Natasha Massey, filha de Karl.

Foram anos de agonia especialmente para a vítima, que não foi identificada, como é de praxe em casos de estupro. Uma foto postada por ela em redes sociais antes do caso foi descoberta e compartilhada na Internet. Ela recebeu constantes ameaças e assédios. Mudou de casa cinco vezes desde a condenação. Recebeu nova identidade e saiu do Reino Unido.

Antes do Chesterfield, cinco times quiseram contratar Evans após a libertação. O Sheffield United recebeu abaixo-assinado com 160 mil nomes contra o "reforço". Personalidades britânicas protestaram. Jessica Ennis-Hill, medalha de ouro do heptatlo na Olimpíada de 2012, em Londres e homenageada com uma arquibancada em Bramal Lane, estádio do clube, avisou que pediria que seu nome fosse retirado do local. Reações parecidas aconteceram quando Hartepool, Oldham e Grimsby Town mostraram interesse.

O Hibernians, de Malta, propôs levá-lo para o país, mas os problemas na Justiça impedem que Evans trabalhe no exterior.

"Nós não temos dúvida que Ched Evans deve ser bem-vindo de volta à condição de jogador profissional. Nós o contratamos depois de muita deliberação", disse o presidente do Chesterfield, Dave Allen, em comunicado divulgado pelo clube.

Há uma cláusula no contrato do atacante que libera a equipe de pagá-lo às 2 mil libras por semana (cerca de R$ 10 mil) se for novamente condenado.

Após a estreia, Evans deve continuar em silêncio. Assim como os dirigentes da equipe, treinador, seus representantes e advogados. Até outubro, ninguém terá nada a dizer.

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