Refugiado driblou milícia e revezou tênis de corrida antes de virar atleta

O único registro que pode ser encontrado de James Nyang Chiengjiek no site da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) é uma notícia com a lista dos dez refugiados que disputarão os Jogos do Rio de Janeiro sob a bandeira olímpica, por decisão inédita do Comitê Olímpico Internacional (COI).

O velocista do Sudão do Sul, que competirá nos 400m rasos, não se importa. Após perder o pai aos 11 anos em uma guerra, ele fugiu das milícias locais aos 13 para evitar o mesmo destino. E suportou anos de ferimentos, decorrentes de suas corridas com calçados de má qualidade, até se tornar atleta olímpico.

Mesmo com pouca estrutura no Quênia, onde se abrigou na época e vive até hoje, James despertou a atenção de uma entidade que recolhia talentos para praticar esportes. Revezava os poucos tênis que tinha com colegas. Sem a pretensão de conquistar uma medalha, mas motivado a fazer história, se sente vitorioso por poder mostrar ao mundo uma nova fase. A eliminatória da prova acontece dia 12.

- Passei por todos os problemas de um país que convive com a guerra. As pessoas brigam o tempo todo, e as condições de vida estão muito difíceis. Fugi para não ter de lutar. É muito comum eles (milícias) recrutarem crianças nos combates. Foi a forma que encontrei para ter uma vida segura e ir à escola - afirmou o velocista de 28 anos, ao LANCE!.

Assim como outros quatro sul-sudaneses que disputarão a Olimpíada, James é amparado pela fundação da queniana Tegla Loroupe, ex-recordista mundial na maratona e chefe de missão da delegação. O local foi a porta de entrada para que eles fossem selecionados aos Jogos, ainda que sem índices olímpicos.

Em Kakuma (QUE), onde vive desde 2002, o atleta recebeu auxílio da Agência de Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU).

A preparação também teve apoio do programa Solidariedade Olímpica do COI, que direciona parte da verba arrecadada sobre os direitos de transmissão dos Jogos aos Comitês Olímpicos Nacionais.

- O Quênia me recebeu para que eu pudesse me tornar um atleta. A fundação me permitiu treinar e competir. Antes, eu não tinha as melhores condições. Estou muito feliz de estar aqui - disse James, após desembarcar no Rio.

As semifinais dos 400m rasos da Olimpíada acontecem no dia 13 de agosto, e as finais, no dia 14. Se, por um lado, a meta na pista do Engenhão é pouco ambiciosa, o desejo de fazer a diferença não é nada modesto.

- Meu sonho é conseguir um bom resultado nos Jogos Olímpicos, mas o mais importante para mim não é ganhar, e sim ajudar a passar uma imagem de esperança a milhões de pessoas no mundo que fugiram de casa - falou.

Os 10 atletas anunciados pelo COI para competir na equipe de refugiados nunca foram tão assediados como agora. Por isso, a entidade tem feito todos os esforços para preservá-los de entrevistas.

Os contatos com a imprensa se resumem a coletivas, como ocorre com os grandes astros.

O time tem os fundistas Yiech Biel, Paulo Lokoro e Anjelina Lohalith, do Sudão do Sul, a velocista queniana Rose Nathike, os judocas congoleses Popole Misenga e Yolande Bukasa, os nadadores sírios Rami Ani e Yusra Mardini, e o maratonista Yonas Kinde, da Etiópia, além de James.

QUEM É ELE

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Nome

James Nyang Chiengjiek

Idade

28 anos

Nascimento

2/3/1988, em Bentiu (SSD)

Prova na Rio-2016

400m rasos

Histórico

James fugiu de Bentiu em 2002, com medo de ser forçado a lutar na guerra civil. Passou a viver em um campo de refugiados em Kakuma (QUE), onde frequentou escola e se encantou pelo atletismo. Em 2013, entrou para a fundação da maratonista Tegla Loroupe. Lá, foi indicado para o time de refugiados.

O PAÍS DE JAMES

Contexto

Localizado no nordeste da África e marcado por disputas étnicas, o Sudão do Sul se tornou independente do Sudão em 2011. Desde então, foi palco de uma guerra civil entre 2013 e 2015, envolvendo grupos a favor do presidente Salvar Kiir e seguidores de seu maior oponente, Riek Machar.

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Guerra atual

O conflito, que estourou por suposta tentativa de golpe de Estado, voltou a ganhar força em julho, após uma tentativa de paz entre as partes.

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Números

O Sudão do Sul teve mais de 36 mil refugiados só com os conflitos de julho, que resultaram em centenas de mortes e casos de abuso sexual. Até o final de 2015, a ONU registrou 65,3 milhões de pessoas deslocadas por guerras e conflitos em todo o mundo.

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