Sem tempo de contrato, Gomes chega ao São Paulo para 'fim bem distante'

A fala pode ser interrompida devido à dificuldade de pronunciar uma palavra, mas Ricardo Gomes dá seu jeito. Reinicia o raciocínio, fugindo das expressões que podem atrapalhá-lo, e se faz entender. O técnico, que retornou nesta terça-feira ao São Paulo após seis anos, até ri das limitações provocadas por um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido em 2011 e não quer saber de ninguém o tratando como exemplo de superação por voltar a trabalhar.

- Isso de superação é história. Tive um acidente. E aí ou você aceita e fica em casa ou se recupera. Sou exemplo para quem sofreu algo do tipo e quer voltar a trabalhar. Exemplo de superação no esporte não sou de forma alguma. Só não queria ficar em casa com 50 anos, não é superação nenhuma. No máximo para quem sofreu o acidente - pediu o novo treinador do Tricolor.

A resposta sobre a luta que encarou por quatro anos até receber a chance de treinar o Botafogo em 2015 foi um das últimas da entrevista coletiva de apresentação no CT da Barra Funda. Para representar o São Paulo, o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva tomou o lugar que costuma ser do diretor-executivo Gustavo Oliveira para cumprir "prazer pessoal" de rever o profissional que contratou como vice de futebol em 2009, para substituir Muricy Ramalho.

- Pedi para estar aqui e ter o prazer pessoal de recepcionar essa figura que admiro tanto pelo profissional e pelo caráter que tem. O contrato foi celebrado por tempo indeterminado. Temos uma relação de confiança, de história por ambos os lados. Há tranquilidade de ajustar um contrato sem prazo. Nem isso e nem multa vincula ninguém a um clube. O que mantém um vinculo é o respeito e a confiança mútua que temos - valorizou Leco.

Ricardo passou um ano no Botafogo até ser contratado pelo São Paulo na semana passada. Nesta terça, antes de ser apresentado, comandou seu primeiro treino na volta ao Tricolor e começou a identificar o que precisa ser melhorado. Para ele, o mais urgente é cuidar da forma de jogar, sem se prender a um esquema tático. O técnico quer a entrega de todos.

Confira outros trechos da entrevista coletiva de Ricardo Gomes:

O que o levou a deixar o Botafogo?

Passei um ano e um mês no Botafogo. Foi muito importante para minha recuperação, voltar a trabalhar. Tive uma proposta antes, no início do Brasileiro, mas achei que não era o caso. Mas quando veio a proposta do São Paulo, veio também minha memória desse gosto pelo clube. Conversei com o presidente do Botafogo, em uma conversa franca, e achei que seria melhor para mim. Ele permitiu de forma simples, em uma conversa e um almoço.

Quais as diferenças do Botafogo para o São Paulo?

O desafio é constante para um treinador, independentemente da colocação do clube. Botafogo também é grande. Quando chega em um grande clube, é sempre assim. Agora quero fazer melhor do que fiz em 2009 e 2010, essa é minha meta. E esta é minha oportunidade, não poderia deixar passar. São situações diferentes. Chego no meio de um trabalho, de Bauza, de Jardine... Vou buscar as melhores e mais informações para este momento. Preciso tirar isso. Uma coisa é ver jogos, vídeos... O dia a dia com informações é que me dará conteúdo para escolher como agir. Não dá para traçar uma comparação dos clubes. São grandes clubes, com momentos diferentes.

Tem alguma limitação pela saúde?

Tenho algumas sequelas, como vocês reparam. Recuperei parte da sensibilidade, mas tenho sempre que trabalhar e estimular para melhorar. De resto, não há nenhuma restrição, nem à pressão de vocês (risos), podem ficar tranquilos. Sem contra-indicação.

Técnicos trocam de clube no meio do campeonato, mas reclamam de falta de continuidade. O que pensa sobre isso?

?Isso é extremamente importante. Cheguei ao Botafogo em agosto de 2015, no meio da Série B. A pressão era ainda maior, tinha dificuldades de locomoção, melhorei nisso e sou extremamente grato ao Botafogo. Ganhamos a Série B, teve o Carioca e não quis ir ao Cruzeiro, pensando mais no Botafogo do que em mim. Agora foi mais pessoal e mesmo assim sem problemas com o Botafogo.

Você diz que quer fazer melhor do que fez na primeira passagem. Quais são os objetivos, então? Dá para falar em arrancada para o título?

Em 2009 tinha mais tempo do que agora, mas vida fácil não encontrei em clube nenhum. Tem que começar melhor o tempo todo, mas nem sempre você tem as ideias correspondidas e nem sempre tem as melhores ideias. Preciso primeiro de informações do dia a dia. Não posso chegar e mudar tudo. Tenho que pegar o método do Bauza e do Jardine até encontrar minha ideia que possa levar a vitórias consecutivas. Não vem do dia para a noite. Daqui um mês posso falar se será possível brigar por título. Promessa hoje não dá para fazer.

Quer contratações ou vai usar a base?

Tenho memórias lindas da utilização de garotos formados pelo clube. Grandes recordações. O trabalho é bem feito e será valorizado. E se o presidente quiser reforçar o time não vou reclamar. A base tem bons jogadores, bem aproveitados e que continuarão sendo agora.

O que dá para melhorar?

O clube vive a Libertadores de outra forma. Temos que encontrar uma forma diferente de trabalhar. As dificuldades do Brasileirão são outras, então os meios têm de ser outros para subir na tabela, mexer com moral dos jogadores. Penso nisso todo dia. Ver o jogo pela televisão é uma coisa, quando conversa com quem está no estádio, a visão é outra. Chego com um trabalho bem resolvido, mas que precisa de uma mexida gradativa.

Também pode sair para uma seleção como Bauza e Osorio?

Só se for para a Costa Rica (risos). Meu contrato tem tempo indeterminado para ter um fim bem distante. Quero ficar muito. A parte estrutural do clube evoluiu muito, mas o ambiente é o mesmo. E eu estou muito mais tranquilo agora. Antes tinha só a casca de calmo, mas era muito nervoso. Agora sou calmo mesmo. A gente aprende na dor. Pego um trabalho em andamento, então a recuperação precisa ser mais curta e aproveitando o trabalho de Bauza e Jardine. O torcedor quer no mínimo a Libertadores e vamos buscar isso.

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