Volta por cima: como o vice de 2005 levou o Inter ao topo da América

A derrota para a Chapecoense ampliou o drama do Inter no Campeonato Brasileiro, mas o clube deixa as preocupações de lado nesta terça para celebrar o aniversário de um feito histórico: há dez anos, o Inter conquistava a Copa Libertadores pela primeira vez. Após vencer o São Paulo por 2 a 1 no Morumbi, o Colorado segurou um empate em 2 a 2 no Beira-Rio, na noite de 16 de agosto de 2006, e pintou a América de vermelho.

O título, contudo, começou a ser esboçado muito antes. O grupo começou a ser montado ainda no fim de 2002, quando o Inter se salvou do rebaixamento na última rodada do Brasileiro. Passado o sufoco, o presidente Fernando Carvalho deu início a uma nova era no clube de Porto Alegre. Fez um planejamento, buscou reforços de peso como Fernandão... Mas foi o vice no Brasileiro-2005 a verdadeira alavanca para levar o time ao topo do continente no ano seguinte.

Na polêmica competição, o Corinthians se sagrou campeão e o Inter amargou o vice. Os colorados, no entanto, reivindicam a taça até hoje. Problemas como a Máfia do Apito (esquema comandado pelo árbitro Edílson Pereira de Carvalho, que comprometeu os resultados dos 11 jogos que apitou para ajudar apostadores a lucrar), a anulação e remarcação das partidas e o erro do árbitro Márcio Rezende de Freitas (não marcou pênalti de Fábio Costa em Tinga no duelo decisivo entre gaúchos e paulistas, na reta final do torneio, e ainda expulsou o volante) atrapalharam os planos do Inter. Todas essas mazelas acabaram servindo para unir o grupo em torno de um objetivo maior.

- O ano de 2005 foi revoltante. A gente conquistou algo e nos tiraram. A anulação dos jogos, que nos tirou da liderança, não foi algo emocionalmente fácil de lidar. Mesmo assim, brigamos pelo título até a última rodada. Isso nos levou a assumir um compromisso de vencer, até com certa raiva e revolta, para a gente provar que merecia. Acabou não acontecendo. Foi algo frustrante, porque a gente não perdeu dentro de campo. Decepção muito grande que acabou nos motivando para o futuro - disse o meia Alex, ao LANCE!.

- A gente sabe que o futebol tem algumas sujeitas e aquilo foi um demonstrativo de que a modalidade, no Brasil, precisa ser muito fiscalizada. Mas aprendemos a trabalhar duro para não depender de ninguém. Naturalmente isso foi interiorizado e colocado dentro de campo. A única coisa que poderia nos colocar limites éramos nós mesmos. Nos fortalecemos para brigar contra tudo e contra todos - acrescentou o meio-campista.

O técnico Muricy Ramalho, que comandou o Inter em 2005, também ficou desgostoso com o vice. Ao contrário da maioria dos atletas, que tiveram sua rendição no ano seguinte, o treinador deixou o clube no fim do ano e deu lugar a Abel Braga. Muricy rumou para o São Paulo, onde acabou derrotado na final da Libertadores-2006. Ele reconhece a força do grupo que ajudou a formar.

- O vice brasileiro foi uma injustiça. Há algumas derrotas que a gente não esquece nunca, e isso não sai da minha cabeça. O Inter estava muito bem e foi prejudicado. Fiquei aborrecido e saí no fim do ano para a entrada do Abel Braga, mas acredito que aquele campeonato deixou o grupo preparado para as conquistas de 2006. A torcida abraçou o time - avaliou o comandante.

A torcida colorada também teve papel fundamental. Na volta para Porto Alegre após o fim do torneio, os torcedores receberam os jogadores como heróis. Todo o apoio, no entanto, não tirou o gosto amargo do vice. E a revolta dos colorados transformou-se no apoio incondicional que ajudou o Inter em 2006.

- Se a gente não tivesse passado por tudo o que passou em 2005, talvez não tivéssemos conquistado tudo o que conquistamos no ano seguinte. Ficamos mais fortalecidos, maduros. E a torcida apoiou muito, passou a jogar junto com o time. Em 2006 era muito difícil a gente perder em casa. Se a gente tivesse sido campeão brasileiro, talvez a história fosse diferente - avaliou Tinga.

As lideranças do vestiário também foram essenciais para que o Inter escrevesse sua história. O capitão Fernandão, ao lado do goleiro Clemer, fez o que pode para motivar os companheiros. Bolívar lembra como eles deixavam o grupo com "sangue nos olhos" em momentos cruciais, como o dia da grande final no Beira-Rio. A torcida fazia as "ruas de fogo" - tradição de iluminar com sinalizadores vermelhos o caminho do ônibus na chegada ao estádio.

- Porto Alegre estava em festa. Na chegada ao estádio, só faltou a torcida pegar o ônibus no colo e carregar a gente até o vestiário. Sentimos a força daquilo. Depois de vencer o São Paulo no Morumbi, o time não ia deixar escapar em casa. E Fernandão batia nessa tecla. Ele e Clemer levantaram e falaram que a gente não poderia decepcionar aquelas pessoas. Embora o São Paulo fosse um time forte, a gente acreditava na vitória. Não poderia ser diferente - disse Bolívar, que posteriormente ergueu a taça da Libertadores-2010.

Rafael Sobis foi o responsável por marcar os dois gols colorados no jogo de ida em São Paulo. Há exatos dez anos, diante de um Beira-Rio lotado, Fernandão e Tinga balançaram as redes para colocar o Inter no topo do continente pela primeira vez.

Uma década depois daquela noite, como disse o ex-presidente Fernando Carvalho - grande realizador do projeto que elevou o Inter a outro patamar no cenário do futebol -, as "compensações cósmicas" permitiram que o grito de campeão finalmente saísse da garganta dos colorados.

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