Dos ringues ao lar: Érica Matos larga boxe para se dedicar à família

Érica Matos é uma das precursoras do boxe feminino no Brasil. Conquistou títulos importantes, defendeu a Seleção Brasileira por quase uma década e, em Londres-2012, tornou-se a primeira mulher do país a entrar em um ringue na Olimpíada. Exemplo para as atletas da nobre arte, a baiana de 33 anos anunciou na última semana que vai largar o esporte para cuidar da família e do marido, Robson Conceição, que foi campeão na Rio-2016 e agora quer se profissionalizar no esporte.

Em atividade desde 2005, Érica (também conhecida como Érika Mattos) já havia se afastado dos ringues em 2013, quando engravidou da filha Sophia. Retornou, incentivada pelo técnico Luiz Dórea. Desta vez, ela está decidida a parar de vez, após acordo feito com o marido antes do início dos Jogos.

- Antes de Robson ir para a Olimpíada a gente combinou que, se ele fosse campeão, eu ia parar de lutar para me dedicar a ele, à casa e à nossa filha de dois anos. Há muitas pessoas pedindo para eu não parar, mas fiz um acordo, então devo cumpri-lo - explicou Érica ao LANCE!.

Uma das pessoas que incentivam Érica a continuar é Adriana Araújo. A boxeadora, medalhista de bronze em Londres-2012, é amiga pessoal de Érica e diz respeitar a decisão da atleta. Contudo, não faria o mesmo em seu lugar.

- Fiquei triste quando soube, pois lutamos juntas por muito tempo. Fomos pioneiras do boxe feminino no Brasil. Agora, ela quer ficar mais com a família. Entendo o lado de mulher e mãe de família, mas tenho certeza de que ela não está feliz como atleta. Ela me conhece, eu jamais faria isso, jamais deixaria o esporte que amo. No entanto, a escolha é da Érica. Robson está em um momento crucial também e precisa de alguém ao lado dele. Se é justo ou não, continua sendo a vontade dela e do casal - avaliou a pugilista.

Érica garante que a ideia não partiu do marido: foi um acordo entre os dois. Bicampeã brasileira e tetracampeão no Pan-Americano de boxe, a atleta explicou que, nos últimos meses, durante treinos e campeonatos, sentia muita falta da criança. O "lado mãe", como disse, a levou a tomar a decisão. Porém Érica admite que vai se aposentar sem realizar o sonho de ser medalhista olímpica - objetivo que acredita ainda ter potencial para alcançar.

- Me sinto realizada como atleta por todos os resultados que tive. Tinha o sonho de disputar uma Olimpíada, fiz isso em Londres, mas queria muito uma medalha olímpica também. Não deu. Em 2012 perdi, e não pude lutar em 2016 por causa da Sophia - disse Érica, esclarecendo que foi difícil estar no Rio de Janeiro apenas como espectadora.

- Senti que poderia ter sido medalhista olímpica. Tenho nível técnico igual ou superior ao das meninas que se classificaram, e meu técnico, Dórea, concorda. Perdi a chance. Mas não me arrependo, filho paga tudo. A Sophia é minha maior medalha em todos esses anos - acrescentou a pugilista.

Questionada se o casal considerou alguma alternativa - como Robson ficar em casa para que ela lutasse ou ambos continuassem as carreiras -, Érica negou.

- Não, nem passou pela nossa cabeça. O mais certo é a mulher ficar em casa. Vou sentir falta de lutar, mas as obrigações da mulher são diferentes das do homem - resumiu.

Robson Conceição, por sua vez, reiterou que a aposentadoria da esposa foi um acerto do casal e garantiu apoiar todas as escolhas de Érica.

- O boxe olímpico nos tomava muito tempo e ficávamos pouco juntos. Tivemos a Sophia e tudo melhorou, pude ficar mais presente. Érica cogitou a possibilidade de parar e fizemos o acordo. É uma opção dela, estou aqui pra apoiá-la em qualquer decisão que tomar. Não impus nada - relatou o campeão olímpico ao L!.

Apesar de demonstrar firmeza, Érica não descarta voltar atrás. A paixão pelo boxe, o incentivo de pessoas próximas e o sonho da medalha podem levá-la a tentar buscar uma vaga na Olimpíada de Tóquio-2020. De acordo com o Dórea, Érica tem capacidade pois "é muito talentosa e tem vários recursos técnicos".

- Essas palavras me motivam. Muita gente diz para eu não parar. Escuto tanto isso que estou quase me arrependendo (risos). Mas a vida é feita de escolhas. Agora vou cuidar da família. Continuarei treinando por questões de saúde e, quem sabe, não mudo de ideia até 2020? Dependo das oportunidades, da CBBoxe, mas vou avaliar. Talvez eu continue - finalizou a boxeadora.

Com a palavra: Maíra Liguori, do coletivo feminista Think Olga

Escolher entre a carreira e a maternidade é uma questão de toda mulher. Homens que largam tudo pelos filhos são extremamente elogiados, como se estivessem fazendo algo maravilhoso. Mulheres fazem isso todos os dias e, para a sociedade, não é mais que "obrigação". A desigualdade já começa na premissa. Questionar isso é um processo de desconstrução profundo, visto que as pessoas acham tão natural que nem param para pensar no assunto. E, no esporte, há uma camada extra de opressão. Ainda mais no boxe, ambiente predominantemente masculino. Lamento que as mulheres não possam colocar os filhos ao lado de paixões igualmente importantes para elas.

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