"Dividido entre a esperança e a razão", Fortaleza tenta acabar com drama

  • LC MOREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO

    Anselmo em ação pelo Fortaleza

    Anselmo em ação pelo Fortaleza

"Tenho um coração dividido entre a esperança e a razão."

Raimundo Fagner dá risada quando lhe pergunto se o verso inicial de "Borbulhas de Amor", sucesso na voz do cantor cearense, combina com o momento vivido pelo torcedor do Fortaleza. Neste domingo, às 19h, o Tricolor de Aço enfrenta o Juventude, pelas quartas de final da Série C do Campeonato Brasileiro. O confronto define qual dos dois clubes vai disputar a Segunda Divisão em 2017. O jogo de ida, em Caxias do Sul, terminou em empate sem gols. No Castelão, quem vencer se classifica.

"É um drama, um martírio. Como todo torcedor do Fortaleza, estou ansioso para acabarmos logo com isso. Chegou a hora", diz o músico, de 66 anos.

Fagner tem motivos para cultivar esperança. Atual bicampeão do estado, o Tricolor terminou a primeira fase da Terceirona como líder do Grupo A. Os 30 pontos conquistados lhe deram o direito de decidir a vaga em casa, onde a equipe é especialmente forte. Em maio, pela Copa do Brasil, duelou com o Flamengo, um dos candidatos ao título da Série A, no Castelão. Venceu por 2 a 1, diante de mais de 36 mil torcedores. Para este domingo, a diretoria do clube cearense projeta público superior a 60 mil pessoas.

Fagner tem motivos, porém, para permanecer racional, desconfiado. Carrega uma cautela decorrente das decepções acumuladas desde o último rebaixamento, em 2009.

"Temos uma torcida vibrante, apaixonada, que não merece mais esse sofrimento. Mas estamos falando de futebol, né? Tudo pode acontecer, as coisas se resolvem no campo", reconhece o cantor, como quem se prepara para o pior.

Parece até maldição. Em 2012, o Fortaleza deixou escapar o lugar na Segunda Divisão ao perder como mandante para o Oeste por 3 a 1 - a partida de ida havia terminado sem gols.

No ano seguinte, um empate por 2 a 2 diante do Sampaio Corrêa-MA, com direito a gol sofrido no minuto final, impediu a equipe cearense de chegar ao mata-mata.

Em 2014, o Leão do Pici, como o Fortaleza também é conhecido, alcançou as quartas de final. Depois de dois empates (0 a 0 e 1 a 1), porém, foi eliminado pelo Macaé, por consequência do gol marcado como visitante pela equipe carioca.

A campanha do ano passado foi ainda mais frustrante. O time então sob o comando de Marcelo Chamusca passeou na fase classificatória, mas voltou a negar fogo na hora H. No primeiro duelo do confronto contra o Brasil, em Pelotas (RS), derrota por 1 a 0. Na volta, um dolorido 0 a 0. Afinal, o Tricolor desperdiçou 13 chances claras. Acertou duas bolas na trave. Eduardo Martini, o goleiro do Xavante, teve uma tarde de Gordon Banks.

"Não me lembro de outro jogo em que um time tenha criado tantas oportunidades e saído sem vencer. Não gosto nem de lembrar. É página virada", diz o goleiro Ricardo Berna, um dos remanescentes da equipe de 2015.

Talvez seja este o principal desafio do Fortaleza: evitar que os fantasmas assustem os jogadores em uma partida que exige nervos de aço. Uma psicóloga tem trabalhado diariamente com o elenco leonino. Tenta afastar dos atletas o peso dos fracassos anteriores.

Berna compara o cenário ao vivido no Fluminense às portas do título brasileiro de 2010:

- Lá, a ansiedade era grande porque a torcida queria muito uma conquista nacional. Tivemos de manter o controle emocional. Todos sabemos do projeto do Fortaleza de estar na Série A em 2018, no ano do centenário. Mas temos de dar um passo de cada vez - alerta o goleiro.

É difícil dissipar a tensão. Um dos líderes da equipe cearense, o volante Corrêa, ex-Palmeiras, não quis dar entrevista para o Lance!. O presidente Jorge Mota, eleito em dezembro de 2014, desculpou-se tão logo atendeu o telefone:

- Rapaz, você me perdoe, mas não vou falar, não. Vai que eu digo alguma coisa que é mal-interpretada... Melhor me preservar.

A preocupação da direção é com o futuro. A saúde financeira do Leão do Pici está ligada ao acesso. Para honrar a folha salarial do departamento de futebol (quase R$ 1 milhão por mês, a mais cara entre as 20 equipes da Terceira Divisão), o clube depende da arrecadação com venda de ingressos e do programa de sócio-torcedor. Os seis patrocinadores presentes no uniforme pagam um total de R$ 1,5 milhão por ano. Somente os direitos de transmissão da Série B rendem R$ 5 milhões a cada time participante.

- Estamos confiantes de que, desta vez, vamos conseguir a vaga. Não há mal que dure para sempre - afirma o vice-presidente do Fortaleza, Ênio Mourão.

- Mas o que vai fazer a gente subir ou não é a atuação da equipe. Temos de fazer o nosso melhor. Se isso será suficiente, nós vamos descobrir depois do jogo - acrescenta o dirigente, também dividido entre a esperança e a razão.

Bate-bola com Raimundo Fagner, cantor e torcedor do Fortaleza:

Acha que o Fortaleza, desta vez, vai subir?

Fagner - Estou muito esperançoso. A torcida do clube e o estado do Ceará merecem o acesso, sem desmerecer o Juventude. Ninguém aguenta mais.

Tem conseguido assistir aos jogos do time?

Eu moro no Rio, fica difícil ir ao Castelão. Mas vejo sempre os jogos pela TV. O time é bom. A diretoria fez uma mescla de jovens com experientes.

Como começou sua relação com o clube?

Eu me criei no Pici (bairro onde se localiza a sede social do Fortaleza), com o meu irmão (Fares Lopes) me levando ao clube. Ele foi presidente do Fortaleza e também da Federação Cearense. O Ricardo (Teixeira) queria, inclusive, que ele o sucedesse na CBF, várias pessoas também queriam. Minha casa era frequentada por jogadores do Fortaleza. Sou tricolor desde pequeno.

Você chegou a jogar pelo Fortaleza, não?

Foi em 2002. Entrei no segundo tempo de um amistoso contra o Maranguape, no lugar do Clodoaldo, que era um dos ídolos da torcida. Conversei com o zagueiro adversário, pedi para ele pegar leve comigo. Ele respondeu que só deixaria eu jogar se desse um CD autografado para a minha mulher. Não marquei gol, mas fiz a minha graça (risos).

Vai assistir ao jogo decisivo?

Estarei em Minas Gerais para fazer um show. Será na Serra da Piedade, durante a tarde. Se tudo der certo, já estarei no hotel, em Belo Horizonte, antes de a partida começar.

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