'Segunda casa dos grandes', Teixeirão vai a leilão e tem futuro incerto

Ambrózio dedicou 55 anos ao América. Lateral aguerrido, virou ídolo do clube de São José do Rio Preto. Encerrada a carreira, continuou trabalhando no Mecão como preparador de goleiros. Era sempre chamado a comandar o time quando um técnico ia embora.

Em 2010, foi diagnosticado com Mal de Alzheimer, doença degenerativa que leva o paciente à demência. Precisou se aposentar. A direção do América se comprometeu a pagar os salários atrasados, mas descumpriu o acordo. Os filhos do ex-jogador tiveram de cobrar na Justiça a dívida de cerca de R$ 80 mil. Ganharam a causa, não o dinheiro prometido.

Aos 80 anos, Ambrózio é um dos 130 ex-funcionários que venceram ações judiciais contra o time vermelho e branco. Mas eles só vão receber se o Estádio Benedito Teixeira, penhorado desde 2013, for arrematado no leilão que termina nesta sexta-feira. Trata-se do último patrimônio do clube que disputou a Primeira Divisão estadual por 31 anos seguidos, entre as décadas de 1960 e 1990. Os débitos trabalhistas do América, em valores corrigidos, superam R$ 6 milhões.

É só a ponta do iceberg. Com a prefeitura e o governo federal, as dívidas estão estimadas em mais de R$ 10 milhões. Sem receita suficiente para diminuir o rombo, o clube já perdeu o centro de treinamento e a área do estacionamento vizinha do Teixeirão.

O prazo para propostas de compra do estádio, avaliado em R$ 35 milhões, termina às 14h. O lance inicial é de R$ 21 milhões e o pagamento pode ser parcelado em 30 vezes. Até a noite de quinta, não havia interessados.

- O leilão não é bacana. Ninguém gostaria que acontecesse, muito menos o meu pai. Bacana seria se o América fosse reativado e voltasse a ser o que já foi. Mas as coisas não são como a gente quer - lamenta-se Eleandro Ambrózio, filho do ex-lateral.

Casa abandonada

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O Teixeirão demorou 17 anos para ser erguido. Foi inaugurado em 10 de fevereiro de 1996, com a vitória do São Paulo sobre o América por 3 a 2, pelo Paulistão. Com capacidade para 50 mil pessoas, era o segundo maior estádio do interior paulista, só atrás do Santa Cruz, de Ribeirão Preto.

O nome é uma homenagem a Benedito Teixeira, presidente do clube alvirrubro de 1972 a 1995. Birigui, como era conhecido, morreu em 2001, vítima de bronquite crônica.

A casa do Mecão logo se transformou na segunda casa dos grandes da capital. Sua abertura coincidiu com uma das reformas do Morumbi, então o palco dos clássicos estaduais. No mesmo ano da inauguração, o estádio rio-pretense recebeu o triunfo do Palmeiras sobre o São Paulo por 2 a 0 e o empate do Verdão com o Corinthians por 2 a 2.

É um lugar de doce lembrança para os santistas. Em 2004, o Peixe conquistou o título brasileiro no Teixeirão, onde derrotou o Vasco por 2 a 1. Um ano antes, o estádio foi eleito o sexto melhor do Brasil em infraestrutura.

O cenário atual é diferente. O gramado mal cuidado está cheio de buracos. Vídeos na internet retratam o abandono. Falta pintura e existe mato até na arquibancada.

- Se o meu pai estivesse vivo, ficaria chateado com o que fizeram do América - lamenta-se Benedito Teixeira Júnior, filho de Birigui - Uns meses atrás, fui a Rio Preto. Peguei o carro e estacionei ao lado do estádio. Passei um tempo ali, olhando... É muito triste.

Longe da Série A-1 desde 2007, o América pediu licença para não ter de disputar a Quarta Divisão estadual neste ano. Recuou da decisão após a desistência do Taquaritinga. Caiu na fase de classificação. No jogo de despedida da temporada, contra o Tanabi, em 10 de julho, havia 96 torcedores presentes. A capacidade atual do estádio é para 37 mil pessoas.

Venda inevitável?

Rodrigo Rigolon promove a terceira tentativa de leilão do estádio. Nas duas anteriores, nem sequer houve proposta. Se novamente o Teixeirão não for arrematado (essa é a hipótese mais provável), a Justiça do Trabalho deve estabelecer um novo prazo.

Rigolon culpa a crise econômica pela falta de ofertas. Segundo o leiloeiro, grupos interessados em adquirir o terreno, de 43 mil metros quadrados, recuaram por causa do momento ruim para investimentos. Não é o único obstáculo. Há também o receio de conflitos judiciais.

Em 2015, o prefeito Valdomiro Lopes (PSB) sancionou a lei municipal proposta pelo vereador Dourival Lemes (PSD), conselheiro do América. De acordo com o texto, "em caso de alienação a terceiros, a finalidade (do estádio) deverá ser mantida, ficando vedada a utilização da área para quaisquer outras atividades, senão as relacionadas ao esporte". Na prática, isso significa que o Teixeirão não poderia, por exemplo, ser demolido para a construção de um condomínio no local.

Segundo juristas ouvidos pelo LANCE!, a lei é questionável, pois claramente foi criada com o objetivo de esvaziar um leilão já em curso.

- É claro que essa situação atrapalha um pouco, o investidor fica com um pé atrás. Mas a venda do estádio é algo inevitável. Se não for agora, vai ser no ano que vem ou no outro. A menos que apareça alguém disposto a assumir as dívidas do América - diz Rigolon.

Boato fenomenal

São José do Rio Preto é uma cidade afeita a rumores. Em 27 de março de 1996, a seleção olímpica do Brasil disputou um amistoso contra Gana no Teixeirão. Com nomes como Rivaldo e Juninho Paulista, a equipe de Zagallo goleou por 8 a 2, diante de apenas 10 mil torcedores. Um boato envolvendo a vidente Mãe Dináh e a suposta previsão de que haveria uma tragédia no estádio deixou muita gente com medo de ir ao jogo.

Nas semanas que antecederam a segunda tentativa de leilão do Teixeirão, em junho deste ano, surgiu o zunzunzum de que Ronaldo Fenômeno estava em Rio Preto para negociar a compra do Teixeirão. A intenção do ex-atacante seria transformar o América em uma filial do Fort Lauderdale Strikers, time do qual é sócio nos Estados Unidos.

Rigolon se animou com o papo. Telefonou para a agência do craque, em São Paulo, a fim de confirmar o interesse.

- Falei com um assessor. Ele me disse que o Ronaldo nunca teve qualquer interesse no estádio e não faz ideia de como essa história apareceu.

BATE BOLA

"O América nunca vai acabar"

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?Luiz Donizete Prieto, presidente em exercício do América

Como vê a possibilidade de o Teixeirão ser arrematado em leilão?

Luiz Donizete Prieto - Estamos tranquilos, respaldados juridicamente. Quem comprar o estádio não vai ficar com ele. Além da lei que protege o Teixeirão, existem três minas abaixo dele. Nenhuma construtora pode usar a área para fazer um shopping.

O América pode provar isso?

Sim, estamos aguardando um laudo da Secretaria de Meio Ambiente.

Como o clube pretende pagar suas dívidas?

Veja, o América deve muito pouco. Com R$ 4 milhões, eu faço acordo com os ex-funcionários. Muitos deles, aliás, não deveriam receber. Ganharam na Justiça porque os julgamentos foram à revelia. O antigo prefeito nem se preocupou em mandar advogado para defender o clube. A nossa situação é cômoda.

O Ambrózio vai receber?

Sim. Assim que entrar um dinheiro, vou procurar a família dele para negociar. Com uns R$ 40 mil, a gente faz um acordo bom.

Os relatos são de que o estádio está abandonado. Como recuperá-lo com o América na Quarta Divisão estadual?

Ele já esteve abandonado, não está mais. Assumi o clube na semana passada e já pedi uma série de reformas. No fim do ano, vamos trocar o gramado.

Com qual dinheiro?

Não preciso de muito, não. Com R$ 150 mil, eu troco o gramado. Temos dinheiro a receber como clube formador. Lucas Lima, Zeca, Caju e Serginho, que pertencem ao Santos, foram formados no América. O Luan, do Grêmio, também vai render uma grana quando for vendido. Estou negociando também um jogador da nossa base com o Pescara, da Itália.

O Teixeirão é o último patrimônio do América. Se for leiloado, o clube acaba?

O estádio não vai ser leiloado. O América nunca vai acabar.

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