'A Copinha do século 21'

Há muito tempo, a Copa São Paulo perdeu a inocência. Deixou de ser um torneio de garotos em busca de um sonho para se transformar num balcão de negócios onde empresários de um lado expõem sua mercadoria e de outro compram e vendem direitos e participações. O inchaço do torneio - nessa edição 120 clubes divididos por 29 sedes -, é apenas o sinal mais visível disso.

O lado bom dessa história é que, com mais ou menos erros e acertos, a Copinha gerou filhotes. A Taça BH, a Copa RS e mesmo os campeonatos brasileiros de base organizados pela CBF, ganham a cada dia mais espaço nas TVs fechadas, servem para elevar o patamar das categorias de formação. E o futebol brasileiro precisa disso, já não somos mais o celeiro farto de craques, já não temos mais um campinho de pelada em cada bairro, cheio de meninos à espera de serem descobertos por um caçador de talentos qualquer.

Alguns grandes clubes já perceberam a importância disso e vão valorizando o trabalho da base. Multiplicam-se os CTs especialmente preparados para a garotada - o complexo de Cotia do São Paulo talvez seja o melhor exemplo. Mas, o mais importante, é a percepção de que a integração técnica e tática em todos os níveis dentro do clube, até chegar ao profissional, é fundamental para consolidar esse processo. Com benefícios para todos.

Felizmente, aquela história de colocar o fortão na defesa para dar chutão e o grandão no ataque para fazer gol, ganhar jogos e garantir o emprego do professor, vem perdendo espaço para a definição de um estilo de jogo, a construção de times que joguem da mesma maneira do sub-13 aos profissionais.

Alguns casos de sucesso, nessa linha, são inegáveis. E isso não se deve medir apenas pelo número de jogadores revelados. O Santos, como poucos clubes por aqui, leva a sério essa história de formar e investir em novos talentos. De Diego e Robinho a Neymar e Ganso ou Gabigol, já são três gerações de Meninos da Vila e o clube tem faturado não apenas títulos mas principalmente um bom dinheiro com negociações diretas e comissões pagas a clubes formadores. Nem sempre, contudo, o que vale na Vila é a máxima de que craque se faz em casa. O clube é especialista também em identificar promessas.

Nessa Copinha, seis olheiros - cinco deles ex-jogadores do clube - foram despachados pela diretoria para acompanhar os jogos nas 29 cidades-sedes. O objetivo é descobrir talentos que reforcem os times sub-20, sub-23 e até o elenco profissional. A aposta do Peixe é que ter um radar eficiente é fundamental para manter a sina reveladora da Vila Belmiro, tanto quanto oferecer a estrutura necessária para desenvolver talentos.

A ascensão de uma nova geração de treinadores - alguns saídos exatamente de divisões de base, como Zé Ricardo e Fabio Carille -­, pode dar um impulso ainda maior a esse processo. Por mais que o Flamengo invista em craques consagrados como Diego e Conca, Zé Ricardo tem deixado claro que quer mesclar o time, abrindo mais espaço para os meninos nessa temporada. A conciliação é possível e recomendável.

Outra estratégia, mas igualmente positiva, é a que decidiu adotar Rogério Ceni no São Paulo. Atendendo a pedido do treinador, o tricolor vem emprestando jogadores que subiram da base para ganhar experiência. Clubes como o Novorizontino, o São Bernardo e até o Bahia e a Chapecoense tem sido "usados" nessa proposta de lapidação dos talentos. Que pode, inclusive, ultrapassar fronteiras, já que o jovem atacante Gabriel Rodrigues está a caminho do Japão.

Não há na verdade, nada de novo no que dizem e fazem Zé Ricardo e Rogério Ceni. Mas esse é o caminho. Os técnicos mostram que têm planejamento, uma filosofia de trabalho, e se contrapõem aos que cedem à tentação de usar a base em um cenário de crise, apenas por razões econômicas. Fazer isso, pode acabar custando caro demais. E o prejuízo de queimar jovens promessas, por vezes, é impagável. Dói no bolso e na alma.

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