Escola de samba cria time, cresce no futebol e mira vaga no Paulistão

  • Divulgação/E.C. Vai-Vai

Estádio Nicolau Alayon, São Paulo. Cerca de 50 torcedores animam o jogo com instrumentos de percussão e fazem um som impressionante, digno de uma bateria de escola de samba. Só que não apenas parece uma bateria de escola, é. Maior campeã do Carnaval paulista, com 15 títulos no grupo especial, a Vai-Vai decidiu montar no ano passado um time de futebol profissional. A semente surgiu pelo lateral-direito Marco Aurélio Barbosa, ex-Cruzeiro e Santos, filho de Diamantino Barbosa, o "Seo Nenê", um dos grandes baluartes da escola: daí nasceu o Esporte Clube Vai-Vai. Marco Aurélio tornou-se o presidente do time e a equipe se filiou à Liga de Futebol Paulista, jogando a Taça Paulista - contra outros 24 clubes. O time chegou a ficar 20 jogos invicto e só parou na semifinal.

Os planos são bem maiores para futuro e o futebol não é apenas uma diversão na Vai-Vai, tanto é que o time ganhou uma diretoria independente da parte do Carnaval. A equipe chegou a tentar uma vaga na Segunda Divisão do Paulista deste ano (equivalente ao quarto nível do estado), mas não conseguiu pagar a taxa de filiação da FPF, cerca de R$ 800 mil. O clube também buscou parceria com algum time que já tivesse pago a taxa e estivesse sem jogadores, porém acabou sem sucesso. Diante deste cenário, o time jogará novamente o torneio da Liga de Futebol Paulista, organização presidida pela advogada Gislaine Nunes, conhecida por atuar em diversos casos trabalhistas de jogadores.

A competição jogada pelo E.C. Vai-Vai não é reconhecida pela CBF, é uma "Quinta Divisão informal", que é sub-23 e permite até cinco atletas acima da idade. A Liga de Futebol Paulista, que organiza a Taça Paulista, tem em seu quadro apenas times "nanicos", sem registro na FPF ou hoje distantes da entidade. Seu objetivo é dar chances para times com menos condições. Diretor-executivo do E.C. Vai-Vai, Gleison Pego conversou com o LANCE! e destacou que a equipe deseja mais: a meta é entrar na elite do Paulistão dentro de alguns anos, disputando jogos contra Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo:

"Pretendemos nos filiar à Federação Paulista o mais rapidamente possível. Tentamos essa vaga recentemente, mas no momento a gente não estava com a força financeira necessária. Conversamos também com o Jaguariúna e o Força Sindical, buscando parceria para jogar com a vaga deles, mas acabamos não caminhando para o fechamento do negócio. Mas a meta é arrumar um parceiro que queira nos ajudar nessa empreitada de conseguir a vaga de alguma forma. Quem sabe, em 2018 a gente não esteja na Segunda Divisão. Olha... Se a gente tiver competência, acredito que em 2021 estaremos "batendo na porta" da elite no Paulistão. Com dedicação e seriedade, acredito que a gente consiga. Nosso objetivo é chegar nas cabeças, subindo degrau a degrau", falou o diretor.

Enquanto o glamour não chega, é preciso se virar como dá. O E.C. Vai-Vai está em recesso e retomará suas atividades em 5 de março. O primeiro passo na volta aos trabalhos será "simplesmente" montar o elenco do zero. Os contratos com os jogadores da temporada passada eram apenas de seis meses. O clube fará peneiras e delas sairá o grupo de 2017. A fórmula deu certo em 2016, quando cerca de 1.300 jogadores participaram de seleções feitas na Portuguesa da Vila Mariana, na zona sul. Quem for escolhido assinará vínculo, receberá um salário mínimo e mais alguns benefícios. Porém, não adianta pedir mais.

"Todo mundo ganha igual, justamente para não ter ciúmes. Foi assim no ano passado e continuará assim. Diferença de salário gera problema até em time grande... Aqui é "pé no chão". Trabalhamos com o número de 28 atletas em 2016 e a maioria vivia só do futebol, desse salário. Só alguns tinham outro emprego. Dois trabalhavam como Uber depois do treino, o goleiro reserva era pedreiro", disse Gleison Pego, afirmando que o time da Vai-Vai já é uma vitrine:

"Nosso time chamou a atenção com a série invicta. Nosso técnico, o Marcos Vannucci, chegou a ser procurado por uns chineses que acompanhavam a liga. Depois ele aceitou oferta do Cascavel Clube Recreativo, da Segunda Divisão do Paraná, e levou alguns jogadores junto com ele. Tive notícia de atleta que chegou a ir para fora do Brasil. Sem dúvidas, aqui é uma vitrine", comentou.

O clube gasta R$ 40 mil por mês entre salários e encargos para realizar jogos. Dois patrocinadores - uma indústria que produz embalagens plásticas e uma padaria - cobrem as despesas. Um grande objetivo do time, que tem também uma categoria sub-18, é começar a revelar joias e ampliar as receitas com isso.

"No ano passado, o campeonato acabou e todo mundo saiu. Agora a ideia é dar mais oportunidades para os jogadores da categoria sub-18, produzir talentos, até para que a gente tenha participação em uma eventual negociação desses atletas. Queremos que a base dê retorno", detalhou Gleison Pego.

A Taça Paulista está somente em sua segunda edição. A primeira aconteceu entre junho e dezembro do ano passado. Desta vez, a disputa começará em maio. A casa do E.C. Vai-Vai na competição é o estádio Nicolau Alayon, que é alugado do Nacional-SP. Já os treinos são na Portuguesa da Vila Mariana.

Curiosamente, a Vai-Vai nasceu de um time de várzea. Há cerca de 90 anos, havia no bairro do Bixiga uma equipe chamada Cai-Cai, que tinha um grupo de choro como parte. Em 1928, um segmento mais rebelde deste grupo decidiu romper com o esporte e formou a Vai-Vai, com foco só na música. A escola foi oficialmente fundada em 1° de janeiro de 1930. Gleison Pego, além de dirigente do time, também é da ala dos compositores e faz parte da Vai-Vai desde 1992, tendo vivido nove títulos pela escola. Com experiência em levantar taças, ele sabe bem como festejar quando o E.C. Vai-Vai for campeão pela primeira vez: "Será uma festa com muito samba!"

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