Ex-seleção, Zé Maria é campeão como técnico no Quênia e projeta Europa

  • Arquivo Pessoal

Jogador clássico dos anos 1990 no Brasil, com passagem pela seleção com carreira na Europa na década seguinte, o ex-lateral direito Zé Maria buscou uma sequência na carreira comum: treinador. O que chama a atenção é o lugar que optou. O ex-jogador da Portuguesa, Vasco, Flamengo, Palmeiras, Parma e Inter de Milão comanda o GOR Mahia, maior time do Quênia. No último sábado, conquistou a Supercopa Queniana, seu primeiro troféu na África. Nesta entrevista exclusiva ao LANCE!, falou sobre o convite para comandar a seleção do país, sobre a vontade de ir para a Europa, a relação com a torcida, principalmente após o título, e detalhou a vida em Nairóbi.

"Nunca tinha estado no país. Um empresário que trabalhava na Albânia falou da possibilidade de vir para cá, e disse para conversarmos. Passou notícias sobre o clube, e é o maior do país, campeão nos últimos três anos... Então, por que não? Achei que seria uma oportunidade de crescer um pouco mais. Cheguei, o clube estava na 12ª posição, e terminamos em segundo, chegamos na final da Copa. Por ser o primeiro ano, foi positivo", disse o treinador de 43 anos, destacando que não conhecia nada do futebol queniano, e nem do país:

"Zero, zero, zero notícias. Depois que fui me informar. Foi um impacto muito grande no começo. O clima é muito quente no verão, apesar de ter atitude de 1800m em Nairóbi, então fui passar frio na África, no inverno, quando iria imaginar? Dentro de campo, há jogadores com qualidade, que podem jogar no Brasil, alguns da Europa, mas às vezes falta oportunidade. Não se vê jogadores do Quênia por aí, vê de Camarões, Gana...", disse.

O GOR Mahia, também conhecido como K'Ogalo, foi fundado em 1968 e é o maior campeão, com 15 títulos, três a mais que o Leopards, seu principal rival. Ainda assim, Zé Maria destaca o atraso que ainda existe no país, o que está longe de ser exclusividade do seu time.

"Tem jogadores com qualidade. Falta estruturar, organizar, fazer um centro de treinamento. Eu tenho conversado muito com eles. Precisa organizar, dar uma linha de trabalho. Só tem a ganhar. Precisa investir antes de ganhar, para recuperar lá na frente. É difícil, é um país muito sofrido", lembrou Zé, falando mais sobre a estrutura do futebol no país.

"Bem atrasada. Temos dois estádios mais importantes, ainda naquele modelo antigo, com pista. Fora isso é complicado. Tem campo de clube que se joga... É complicado achar estádio com arquibancada, cadeiras, tribuna, setores separados, etc.. Porque não é ideia deles ainda, de profissionalizar, de organizar a coisa. Tem muito ainda para aprender do ponto de vista estrutural. Estão agora reformando esses dois estádios. E o problema é quando sai de Nairóbi. Às vezes estradas em que faz 350 quilômetros em oito horas, porque não dá para passar dos 80km/h", disse.

Apesar da motivação em ganhar todos os títulos possíveis e ajudar a melhorar a estrutura do clube queniano, Zé Maria não pensa em ficar muito tempo. A ideia do ex-lateral, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1996 e vencedor da Copa América e Copa das Confederações do ano seguinte pelo Brasil, é ir para a Europa. Mas não afasta totalmente trabalhar em seu país. Antes de ir à África, comandou clubes pequenos da Itália, ainda em 2010, e retomou a carreira em 2015 na Romênia, comandando o Ceahlaul.

"Minha ideia é voltar para a Europa. Se tiver oportunidade de trabalhar no Brasil, vai depender do clube, do projeto. Aqui, tenho mais esse ano de contrato. Tive proposta, conversamos sobre a seleção do país, mas não é a minha ideia agora, tenho que ter outras experiências. Seria uma coisa legal, jogar Eliminatórias da Copa, mas não é o meu projeto. O projeto é treinar esse ano, ser campeão, e depois buscar um time na Europa", explicou.

CONFIRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA COM ZÉ MARIA

Como é o relacionamento com a torcida? O povo queniano gosta de futebol?
A nossa torcida é a única que lota, junto com os rivais, o Leopards, são os únicos que vão e lotam quando tem clássico. As outras, não. O relacionamento é bom. No ano passado a gente não ganhou, eles ficaram tristes. Agora que ganhamos a Supercopa, já estão me amando de novo. Mas isso é igual no mundo inteiro, em qualquer lugar. Se ganha é herói, se perde, é o vilão. A torcida aqui dá para comparar com um clube grande do Rio ou de São Paulo, sempre lotados.

Como é a formação dos jogadores? Existe projeto de categorias de base?
A base lembra muito jogadores brasileiros, dos campos de várzea, grama em alguns pedacinhos... Eu fui ver jogos da base, e um brasileiro teria dificuldade em jogar aqui. Mas tem qualidade técnica, em que eles têm controle, etc.. Mas nenhum clube tem estrutura para a base, não há essa mentalidade. A federação obrigou aos clubes a integrarem o sub-20, mas antes era um time a parte, usavam as cores, uniformes, mas não eram dependentes. O clube está começando a conversar a fazer esse CT, para fazer as diversas categorias de base, desde o sub-11.

Qual é a expectativa para esta temporada?
Para esse ano a ideia é lutar para ganhar o campeonato. Fizemos a final da Supercopa contra os atuais campeões e vencemos. É muito bom já começar assim. Temos que lutar para recuperar o título. Contratamos o melhor jogador do campeonato passado, no total de 12 jogadores, teve até uma dificuldade na pré-temporada, e temos que fazer todo o esquema, isso acabou dificultando um pouco. Tanto que perdemos os primeiros jogos da pré-temporada, e a torcida já questionou, mas tivemos que explicar esse período é assim, e depois ganhamos os quatro jogos, então já está andando. O time está sendo construído para ganhar tudo.

Dá para pensar em ir longe em competições internacionais?
Essa é uma conversa que tive muitas vezes com eles. Tento explicar que o time é grande no país, o maior. Mas quando sai dos muros de casa, tem dificuldade. Então o projeto é dar uma organização, encurtar os espaços, dar essa filosofia. E expliquei que a ideia é fazer com que o time, quando vai na Copa dos Campeões, é passar da primeira fase. A ideia é ir o mais longe possível, ir para a fase de grupos, que já faz muito tempo que nenhum time do Quênia entra.

Como é a vida em Nairóbi? Quais são os pontos positivos e negativos?
O que eu sofro muito é com o trânsito, que não se encontra nem em São Paulo. São 5 milhões de pessoas com 5 milhões de carros. No início, fiquei um mês no hotel, até o campo são 10 quilômetros, levava mais de duas horas. Não é possível. Mas não tem o que fazer. É uma coisa absurda. Um dos mais perigosos do mundo. A pobreza é enorme quando sai um pouco dos bairros maiores, algo que eu nunca vi no Brasil, é muito difícil. O que eu vejo de positivo é que eu não vejo ninguém se lamentando, brigando por causa disso. Vejo as crianças indo para a escola, brincando, rindo, o que eu acho maravilhoso. Tem delinquência? Tem. Nunca aconteceu nada comigo ou com a minha família. Mas é uma situação muito complicada no país.

Teve alguma dificuldade já com alimentação?
(risos) Eu tento comer o máximo possível em casa. Quando saio, vou em restaurante brasileiro, italiano... Comida que eu conheço. Tem as coisas tradicionais que eu tive que experimentar uma vez. Uma coisa que se chama ugali, feito de farinha, mas sem sal, sem nada, junto com frango ou vinagrete, para dar o sabor... Mas isso não é para mim. Outra coisa que é um mingau, que servem em uma xícara, que as crianças comem todo dia na escola, sustenta muito. Experimentei, mas não é para mim. Mas tem que tem provar, faz parte.

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