Um ano depois, crime que motivou torcida única segue sem solução

As vidas de Antonio Batista Carvalho e Selma Carvalho não têm sido as mesmas desde o dia 3 de abril de 2016. Naquela manhã de domingo, José Sinval Batista de Carvalho, de 53 anos, passava em frente à estação São Miguel Paulista da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), quando levou um tiro no peito durante confronto entre palmeirenses e corintianos na Zona Leste.

Sinval não tinha ligação nenhuma com o futebol e, um ano depois, o responsável pelo crime continua solto, assim como o quarto dele continua intacto e com as roupas dobradas. Pai da vítima, Antonio tenta conviver com o que chama de "problema" e a irmã, Selma, continua atrás de justiça.

- A gente não pode ir junto com ele. É muito difícil achar quem fez isso com a quantidade de pessoas que estavam lá - diz Antonio, resignado com a situação.

Advogada, a irmã acompanha o caso, conversa com os delegados envolvidos e ao contrário do pai não vai desistir de encontrar o culpado. A última movimentação do processo aconteceu em janeiro deste ano e o caso está no Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

- O delegado já me avisou que isso demora e prometeu que fará de tudo para ajudar. Não posso desistir. Falam que o meu irmão foi vítima de uma bala perdida. Mas que bala perdida é essa que acerta o peito bem do lado esquerdo? A bala atravessou o corpo dele e ninguém achou? O crime aconteceu do lado de um posto policial e deixaram o corpo dele durante todo o domingo lá jogado - diz Selma, que trabalha no fórum de São Matheus, próximo do Cemitério da Saudade onde o corpo está enterrado.

- Sempre vou até lá para ver se está tudo direitinho - completa a irmã.

Assim como Sinval, a família é pouco ligada ao futebol. O pai sequer sabia que, após a morte do baiano de 53 anos, a Justiça determinou torcida única nos estádios em dia de clássicos no Estado de São Paulo.

- Eles fizeram isso é? Até que tiveram criatividade e assim um não briga com o outro e também um não mata o outro - diz Antonio, surpreso.

A decisão tomada pelo então secretário de segurança pública do estado, Alexandre de Moraes, aconteceu dia 4 de abril. Um ano depois, Alexandre virou ministro da Justiça do governo Temer e no último dia 22 tomou posse no Supremo Tribunal Federal no lugar de Teori Zavascki, morto em um acidente de avião em janeiro deste ano.

Posição da Secretaria de Segurança Pública

Por meio de nota, a secretaria informou como anda o caso da morte de Sinval:

"O DHPP informa que foi recolhido material residuográfico de todos os envolvidos no conflito que foram detidos, mas os exames deram negativo para todos eles, assim como para os policiais militares que atenderam a ocorrência. O projétil também não foi localizado, o que impossibilita o exame de balística. Imagens de circuito interno também foram analisadas. Uma das testemunhas ouvida disse ter visto o momento do disparo, mas não soube dar detalhes que facilitassem o reconhecimento. As investigações prosseguem. Em relação aos detidos que participaram da briga, eles foram identificados, ouvidos, mas não ficaram presos, pois a lei não prevê pena de reclusão para crimes de danos e tumultos."

Volta de duas torcidas nos clássicos não tem previsão

Em um ano foram 19 confrontos só com mandantes nos estádios e o resultado tem agradado Paulo Castilho, promotor do Ministério Público.

- Eu vejo de uma maneira muito positiva e com números incontestáveis. Reduziu mais de 70% as ocorrências por conta de brigas. Você pega o último clássico entre São Paulo e Corinthians no Morumbi como exemplo. Foram quase 52 mil pessoas e nenhuma ocorrência de confusão, briga. Aumentou também em 11% a presença de mulheres e crianças nos clássicos - disse Paulo.

- A curto prazo não vejo como colocar duas torcidas no mesmo estádio em dia de clássico. Temos um problema social e isso se reflete nos estádios. Para voltar a ter é preciso mudar a cultura atual. O ambiente fica mais leve com uma torcida só e não tem aquele clima hostil e de ódio - completou o promotor.

Segundo levantamento do jornalista Rodrigo Vessoni, após a morte de José Sinval aconteceram outros oito crimes no país relacionados a violência no futebol. Dois deles aconteceram em São Paulo. Dia 17 de setembro do ano passado, o corintiano Daniel Jones Veloso, de 22 anos, morreu em Itapevi (a 60 km da capital) depois de ser atacado por um grupo de palmeirenses. No mesmo dia, Corinthians e Palmeiras se enfrentaram na Arena.

A outra morte foi de Moacir Bianchi, um dos fundadores da Mancha Verde, em março deste ano. Ele acabou executado com 22 tiros após sair de uma reunião na sede da torcida palmeirense. Não há participação de torcedores de outros clubes no crime.

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