É campeã! Chape se reestrutura e busca segundo título em quatro dias

Foi um duro golpe que chocou o mundo. Em todos os noticiários, conversas, empresas e reuniões, o dia 29 de novembro de 2016 foi marcante. Não havia um ser, em especial no Brasil, que não estivesse consternado e incrédulo com o que havia acontecido. Foram 71 mortos. A maioria fazia parte da delegação da Chapecoense que disputaria, pela primeira vez em sua curta história, uma final internacional. Era o sonho da Copa Sul-Americana destroçado na pequena Chapecó. Porém, quem também imaginaria, que em tão pouco tempo, esse clube se reestruturaria e conquistaria o inédito bicampeonato catarinense, diante do Avaí, e entraria para história como a sexta conquista estadual do clube fundado em 1973. A Chape chega aos seus 44 anos de existência. E esta quarta-feira pode ser mais do que especial.

O passado virou aprendizado. E hoje é dia de festa. Mais um passo pode ser dado no curto trajeto da 'nova Chapecoense'. De um time que recomeçou do zero a duas possíveis conquistas em apenas quatro dias. No dia de seu aniversário, a tristeza dá o lugar a alegria. Os comandados de Vágner Mancini entram em campo às 21h45 (de Brasília), em Medellín, para encarar o Atlético Nacional, pela final da Recopa Sul-americana.

Não só o título vale esta partida. Será a realização do jogo que nunca aconteceu, porque o destino não quis. Um cenário marcado pela emoção. Foi viajando para encarar o rival colombiano, que tudo aconteceu. E quem imaginaria que os "guerreiros do céu" estariam sendo tão bem representados pelos que aceitaram esse desafio.

O caminho foi árduo. A montagem de um elenco, de uma nova comissão técnica, até mesmo uma nova diretoria em tão pouco tempo. Foram nada mais nada menos que 25 jogadores contratados em tão pouco tempo. A forma física dos atletas, o entrosamento ideal, o melhor esquema, tudo teve que ser resolvido de uma tão abrupta, que o título veio para lavar a alma e fazer a pequena Chapecó voltar a sorrir. Entenda um pouco, os motivos que fizeram a volta por cima ser tão grande.

OS CAMINHOS ESCOLHIDOS

Mudanças não faltaram para essa Chapecoense fazer história. As dificuldades vieram de todos os lados. De dezembro para este mês de maio, foi uma reformulação gigantesca. Coube ao diretor de futebol, Rui Costa, e ao técnico Vagner Mancini a missão de fazer essa Chapecoense retornar ao topo. Sem dúvidas, em 2016, vivia o melhor momento de, até então, seus 43 anos de existência. E recomeçar com este patamar era difícil. Como efeito de comparação, do time que fez o primeiro jogo no ano, diante do Inter de Lages, metade já não foram titulares na final diante do Avaí. Para isso, foi preciso adaptar e entender o que o treinador queria.

- Olha, acho que o mais difícil, foi reunir um número de pessoas que estivessem dispostas a pagar o preço que sabíamos que teríamos que pagar. Aceitar os caminhos e o que vinha pela frente. Ser escolhido para isso foi bacana na vida de todos. O mais importante, sem sombras de dúvidas, foi o trabalho realizado e aceitação dos atletas em uma metodologia diferente de trabalho. O título catarinense, com certeza, foi a coroação da vontade e provou que todos estavam de mãos dadas com um só objetivo - afirmou Mancini, em entrevista ao LANCE!.

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CALMA PARA TRABALHAR

De todos os lados do Brasil, vieram apoio e solidariedade. Até mesmo do clubes brasileiros. Contudo, muitos jogadores que eram oferecidos à Chape, eram atletas que estavam sendo pouco aproveitados e que aliviariam os clubes com quem tinham vínculo. Por isso, a diretoria precisou ter calma para formar um elenco forte e não esquecer do principal objetivo: formar uma nova Chapecoense campeã. Montar um elenco não era o foco e sim, formar uma equipe competitiva para a disputa do Estadual, Libertadores, Recopa, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro.

- Tem um quesito que é muito importante, que foi saber escolher bem os atletas. Tínhamos uma lista de jogadores e decidimos, quem poderia representar a Chapecoense. Como eu e o Rui Costa também tínhamos sido escolhidos, tivemos de escolher. Sabíamos que seria fundamental e que todos os jogadores tinham lastros técnicos e táticos. Felizmente deu liga, o time encaixou rapidamente. Já com seis sete jogos no ano, tivemos um potencial muito grande na equipe. Hoje vivemos um bom momento e queremos que isso perdure por muito tempo - opina Mancini.

ESPÍRITO DE CONDÁ

Apoio incondicional. Isso nunca faltou para os jogadores da Chapecoense. Seja os eternizados depois do fatídico acidente, ou seja nomes que passaram ou que estão no clube. A Arena Condá sempre foi o grande trunfo. E não há quem ouse afirmar que é fácil vencer jogando em Chapecó. Prova disso, foi conquista do bicampeonato estadual. Ironicamente, foi com derrota no estádio. A primeira na competição - segunda na temporada. Porém, os 19.141 presentes, que estiveram na grande decisão, foram o trunfo para empurrar a equipe à conquista. Os mesmos torcedores, são o que darão força para a equipe ainda buscar a classificação para as oitavas de final da Copa Libertadores.

- É um título para ficar eternizado, pois quando assumimos, não existia absolutamente nada. Começamos literalmente do zero. Com o apoio de todos, da comunidade e da diretoria, trabalhamos arduamente para montar um elenco à altura das tradições da Chape. A conquista vai além, pois premia o planejamento e a base em que nos encontramos atualmente - conta o diretor de futebol, Rui Costa.

FORÇA DE QUEM FICOU

Vontade, garra e luta. Essas três palavras resumem o que são Alan Ruschel, Follman e Neto, os três jogadores sobreviventes da tragédia. E deles, os que hoje estão no elenco encontraram uma inspiração para fazer dessa Chapecoense a grande vitoriosa no Catarinense. O peso de substituir os que foram nunca atrapalhou. Pelo contrário. Ao ver o trio de guerreiros, os jogadores da Chapecoense mostraram vontade de honrar a camisa que vestem.

- É muito gratificante conquistar um título com essa camisa. O clube tem uma atmosfera diferente, contagiante. Existe um respeito entre todos, do faxineiro ao presidente. Essa conquista tem muito valor - garantiu Luiz Otávio, um dos pilares dessas reconstrução.

MERITOCRACIA

Chegar até este momento, no dia em que completa 44 anos de existência, cinco meses depois da maior tragédia da história do futebol brasileiro, emociona a todos que estão na Chapecoense. Entre eles, o próprio treinador, Vagner Mancini. Questionado em alguns momentos, principalmente nas derrotas para o Lanús (ARG), em casa, e os reveses fora para Avaí e Brusque, o técnico não desistiu de sua metodologia e continuou apostando em seus comandados. E o apogeu chegou.

- Todos aqui têm seus méritos. Tenho meus méritos, tem méritos da equipe, méritos de todos os jogadores, dos dirigentes... Quando junta tudo isso e tem sucesso, é sinal que todos deram as mãos e entenderam que em pouco tempo a gente tinha que mostrar resultados. Conseguimos. É um momento mais do que especial - comemora.

INSPIRAÇÃO PARA O IMPOSSÍVEL

É nessa pegada que a Chapecoense busca patamares altos como os que atingiu em 2016. O título catarinense, o bom Campeonato Brasileiro, a inédita final da Copa Sul-Americana. Foi sempre em busca do impossível que esse time se consagrou e chegou até onde ninguém jamais esquecerá. De zebra ao grande finalista continental, essa mesma Chape quer se inspirar, a começar por esta quarta-feira, a escrever sua nova história. Da nova comissão técnica, diretoria e os 25 novos atletas contratados, a equipe não esmorece. Ao completar 44 anos, um novo capítulo 'inspirado no impossível' será escrito. Do pé salvador de Danilo, nas semifinais contra o San Lorenzo, ao gol de Ananias, a equipe espera sair de Medellín com o título da Recopa. Um presente de aniversário e tanto para todo o povo de Chapecó, e porque não, para todos os brasileiros que sofreram com a Chape.

- Foi um trabalho realizado aos poucos. Tivemos que mudar muita coisa. Foi difícil encaixar o time, mas estamos aqui. Heroico ou não, está Chapecoense é guerreira. Queremos voltar para o Brasil com o título da Recopa. O torcedor e esses jogadores, daqui e os que estão olhando por nós, merecem muito - completa Vagner Mancini.

Que os espíritos de Condá e toda a força do povo brasileiro esteja com esses guerreiros. Na noite de seus 44 anos, a Recopa é uma realidade. O Brasil está com a Chapecoense!

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